"Tem mina que nasce pra ser troféu de bandido, e tem mina que nasce pra ser o que a gente nunca vai ter. A Mariana tem cara de domingo de folga, e eu sou só correria e sangue."
Eduardo
O silencio no escritório, no fundo daquele barraco de alvenaria, era interrompido apenas pelo estalo metálico da pistola que eu limpava. Na favela, o silencio nunca é total. Ele é feito de ecos, de passos distantes e do rádio na cintura dos vapores. Mas, dentro da minha cabeça, o barulho era outro.
Fazia mais de uma semana que o rosto da santinha não saia mais da minha mente.
Acompanhei de perto os relatórios que Marcola me passava diariamente. Cada passo que ela deu quando saiu de um dos meus barracos no mangue, não passou despercebido por mim. Vi de perto Mariana caminhando sozinha a noite, voltando de mais uma aula de seu curso de enfermagem, a roupa escura como se quisesse passar despercebida pelo mundo, se fundir com a escuridão que a cercava...
Vi as inúmeras vezes em que ela se abaixou para alimentar um vira-lata sarnento perto do ponto de ônibus. Aquilo era tão recorrente, que o animal já a esperava com o r**o balançando, aguardando pelo alimento que ela levava todos os dias e o sorriso que ela lhe ofertava, como se o bicho fosse a coisa mais importante no mundo para ela.
Toda aquela doçura me irritava profundamente. Me dava náuseas, porque, no meu mundo, nada era de graça e ninguém sorri sem querer algo em troca.
Mas ela sorria. E aquele sorriso era como um soco na boca do meu estômago. A mina vivia em um mundinho só dela e eu tava ali, querendo invadir.
Me custou cada grama de força de vontade manda-la embora da minha casa naquela noite. Mariana tinha um ar de boa moça que me instigava. Ao mesmo tempo em que eu queria corrompe-la, mostrar pra ela que o perigo do lado de cá também tinha suas vantagens, eu sabia que aquilo não era justo. Também não ajudava em nada a ma.ldita ser bonita que só o ca.ra.lho.
Ela não precisava ser vul.gar para chamar atenção. Pelo menos, não a minha... Não, era exatamente por ela ser diferente, que me deixava tão interessado.
A porta do barranco rangendo roubou a minha atenção. Os moleques batiam na porta, sabiam mostrar respeito quando era eu quem estava ali no barraco. Aguardei com a pistola na mão e logo o cheiro de um perfume doce demais, invasivo, invadiu o ambiente e cortou o cheiro de óleo de arma e cigarro que me cercava.
— Não sabe bater na po.rra da porta, Kelly? — nem mesmo tirei os olhos do cano da arma, quando a questionei irritado.
Kelly era uma das poucas va.gabun.das que eu permitia ter certa regalia. Coisa que eu já estava começando a cogitar cortar.
— Oxe, Dudu... Desde quando eu preciso de licença para ver o que é meu? — ela entrou rebolando, os saltos batendo no chão de madeira com uma confiança que, em outra noite, eu teria achado exci.tante. Mas hoje, era apenas um ruido irritante quando eu só queria fumar um em paz.
Não lhe respondi ou neguei sua gracinha e enquanto eu me perguntava quem tinha deixado que Kelly invadisse o meu barraco, ela aproveitou para se aproximar, sentando-se na beirada da mesa enquanto jogava seu longo cabelo platinado para trás. Ela era a perfeição que o dinheiro podia comprar e eu sabia o preço de cada curva daquela mulher.
— Tá sumido, amorzinho. A favela tá comentando que você anda muito pensativo... Vim ver se você tá precisando descarregar a tensão.
Me mantive imóvel quando ela se inclinou, as mãos subindo pelo meu peito em uma cari.cia inti.ma que eu lhe permitia.
Talvez, eu precisasse mesmo de uma distração um pouco diferente.
Olhei para a boca dela, o batom vermelho carregado, brilhante... Foi involuntário me lembrar da boca de Mariana. Rosada, entreaberta pelo susto, sem qualquer rastro de tinta.
Aquele contraste me trouxe um gosto amargo na boca.
— Tô ocupado, Kelly. Mete o pé. — respondi seco, tirando as mãos dela que já começavam a se embrenharem por dentro da minha camiseta, marcando minha pele com suas unhas afiadas.
Ela gostava de uma coisa mais bruta. Suas formas de me marcarem como se eu fosse sua propriedade, quando na verdade ela era só mais uma, sempre me exci.tou. Kelly tinha uma ilusão de que era a preferida, só porque eu fazia algumas de suas vontades fúteis, mas a verdade era que eu não tinha dona e ela sabia disso.
Muitas vezes fui em seu barraco cheio de marcas de outras mulheres, e deixei que ela visse, me divertindo com o fato de ela se empenhar em fazer outras marcas, em ser memorável na vez dela, como se aquilo fosse algum tipo de disputa.
— Ocupado com o quê? — ela riu provocante, ignorando o meu aviso e abrindo os botões da própria blusa. — Deixa disso. Olha só... Você ainda nem viu o resultado final do dinheiro que investiu em mim.
Kelly puxou o sutiã vermelho que usava, exibindo com orgulho os pei.tos novos que eu tinha lhe comprado. O silicone era impecável. A pele estava esticada, firme, sem uma marca sequer.
— Ficou do jeitinho que você gosta, não ficou? — Ela pegou a minha mão e a forçou contra o próprio corpo. — Firme, alto... Prontinho para você estrear. Não quer experimentar?
Respirei fundo enquanto apertava o se.io dela, sentindo-o contra a palma da minha mão. Era duro demais. Parecia artificial demais. Não podia negar que ela tinha ficado gos.tosa com eles, mas, naquele momento, eu não estava exci.tado. Só sentia tédio.
— É... Ficou bom. — retirei a mão com um desdém que a fez murchar por um momento.
— Só “bom”? — ela pulou da mesa, ajoelhando-se entre as minhas pernas, as mãos ágeis buscando o botão da minha bermuda. — O que tá acontecendo com você? Quer saber... Não fala nada, só relaxa. Vou fazer você se esquecer até o seu próprio nome.
Eu não tava no clima para o que eu sabia que iria acontecer se eu permitisse. Mas por um momento eu quis que ela estivesse certa. Eu precisava que qualquer mulher fosse capaz de apagar o rastro de Mariana na minha mente. Então, fechei os olhos e deixei que Kelly fizesse o trabalho dela.
Mas a minha mente insistia em me trair.
Não foi difícil ficar de pa.u duro quando as mãos macias começaram a me acariciar. E po.rra... Eu não era de ferro.
Não senti remorso algum quando a língua de Kelly circulou a cabeça do meu pa.u, e a minha mente pipocou com imagens de Mariana. Um suspiro de prazer escapou por entre meus lábios e eu levantei a bun.da da cadeira quando as unhas dela rasparam a minha pele, levando para baixo minha cueca e bermuda.
Meus dedos se embrenharam nos fios de cabelos macios, agarrando com força e me deixando levar pelas fantasias que a minha mente criava. Era Kelly quem me chu.pava com uma boca treinada, mas era Mariana quem dominava a minha mente e que me faria go.zar.
Relaxei mais na cadeira quando uma chu.pada na cabeça do meu pa.u me fez estremecer. Intensifiquei o aperto nos cabelos em minhas mãos, ditando a velocidade dos movimentos. Eu faria aquilo durar, porque estava bom demais. Mas, principalmente, porque a memória de certa santinha estava tão vivida em minha mente, que era como se eu pudesse sentir o gosto dela na ponta da língua.
Aquele olhar misturado entre o medo e a vontade de se entregar... Ela teria sido minha se eu tivesse ido em frente e beijado sua boca.
— Po.rra. — rosnei quando a vontade de go.zar apertou minhas bolas. — Vou go.zar. — avisei inutilmente, mas eu sabia que não faria diferença naquele momento. Kelly nunca desperdiçou uma gota sequer. E, apesar da realidade bater na minha porta e azedar o meu humor, o pra.zer continuou a se desenrolar pelo meu corpo.
Go.zei tremendo em cima da cadeira, enquanto Kelly continuava a me chu.par, passando a língua pelo meu pa.u, recolhendo cada gota que ela tinha deixado escapar de sua boca gulosa. Quando ela terminou, sorriu satisfeita em minha direção, se levantando e querendo dar continuidade no que ela tinha vindo buscar. Mas eu já não tava mais no clima. Não com ela.
— Já deu. — Kelly me encarou com os olhos arregalados e a cara confusa.
— Mas já? Achei que a gente ia...
— Eu disse que já deu. — me levantei, fechando a bermuda e virando de costas para ela. A presença dela agora me causava uma irritação física. — Vaza logo, Kelly. E anota aí: não brota mais aqui sem eu mandar.
— Dudu, o que tá acontecendo contigo? Eu fiz algo errado?
Me virei e o olhar que dei a ela foi o mesmo que dou a um traidor antes de puxar o gatilho. Ela deu um passo para trás. Pela primeira vez a artimanha que ela gostava de usar não funcionou comigo.
— Se eu quiser experimentar o que eu paguei, eu mesmo te chamo. Agora, sai fora. Antes que eu perca a paciência.
Ela pegou a bolsa e saiu quase correndo dali. O barulho dos saltos altos ecoando pela madeira gasta, até que se perdesse na noite.
Voltei a ficar sozinho, ou tão sozinho quanto os meus pensamentos traiçoeiros me permitiam. Peguei o maço de cigarros e acendi um, deixando que a fumaça preenchesse os meus pulmões.
Eu tinha a favela na palma da minha mão. Tinha o dinheiro, as armas e qualquer mulher que eu desejasse. Mas ali, naquela penumbra, eu entendi o tamanho do meu problema.
Eu não queria a facilidade. Eu não queria mais o obvio.
Meu paladar tinha sido estragado. Eu estava faminto por algo que não podia ser comprado facilmente. E a única pessoa que possuía o que eu queria, tremia de horror só de ouvir o meu nome.
— Santinha... — sussurrei para o escuro, sentindo a obsessão se fechar como um nó na minha garganta. — Tu não faz ideia da encrenca que arrumou.