Capítulo 9 – O Preço da Provocação

1709 Words
“Eu tentei usar minha moral como escudo, mas a santinha em mim cansou de rezar. Bastou um gole de liberdade e um olhar perigoso para eu descobrir que minha maior vontade era quebrar as regras e ver de perto como era o inferno.”  Mariana Os dias que se seguiram aquela noite na casa de Eduardo no Morro do p**a-p*u, foram uma tortura mental completa. Eu passava horas revivendo o que quase tinha acontecido naquela casa. Uma parte de mim – uma grande parte de mim, na verdade – lamentava que ele não tivesse seguido em frente. Me perguntando... Não! De.sejando. Por mais que eu não admitisse para mim mesma, eu de.sejava saber qual seria o gosto da boca de Eduardo. De.sejava o depois... Enquanto a outra parte, a Mariana toda certinha, que estudava enfermagem e acreditava na moral, suspirava com certo alivio. A verdade era que Eduardo ia contra tudo o que eu era. E a forma como ele conseguia adentrar sob a minha pele e fazia com que eu me esquecesse de tudo o que era certo... Aquilo me apavorava. Ele era o caos em pessoa, enquanto eu era a ordem. Mas a ordem é um lugar muito solitário. Nos primeiros dias eu andava sempre alerta, esperando que Marcola aparecesse de repente para me levar de encontro a ele. Mas não aconteceu. Os moleques da boca, que eu percebia me seguirem com o olhar, agora desviavam o rosto como se eu fosse invisível. Eventualmente a minha vida voltou ao normal, exatamente como era antes. Exceto que já não era igual. Não para mim. Tudo parecia cinza e sem graça. Juliana passava dias fora, vivendo um novo romance. Enquanto eu, precisava conviver com a minha mente, dizendo a mim mesma que aquilo era o certo quando, no fundo do meu ser, lamentava profundamente não ter vivido, nem que fosse por um momento, aquilo que eu acreditava ser o errado, o proi.bido. Até que a noite anterior ao meu aniversário de vinte e três anos chegou. Em um sábado abafado e Juliana insistia em querer comemorar. — Pelo amor de Deus, Mary! É a véspera do seu aniversário. — a voz de Juliana soava exasperada, enquanto ela passava um batom escuro nos lábios e me encarava pelo reflexo do espelho. — Você não vai ficar mofando nesse sofá. Vamos sair, beber... Ver gente! Apesar de ter concordado com a ideia mais cedo, enquanto eu aproveitava a breve pausa no trabalho, cheguei cansada em casa e tudo o que eu queria era deitar e deixar meus pés dolorido para cima. Mas Juliana tinha outros planos e acabei me rendendo. Combinamos de ir em um barzinho de esquina. Ela bebeu cerveja e eu fiquei no refrigerante, enquanto arriscávamos um joguinho de sinuca. A musica ecoava baixa e o clima estava meio morto. Juliana, sempre elétrica, aguentou poucas horas ali antes que começasse a encher o saco, querendo ir pro baile que rolava no bairro vizinho. Neguei o quanto pude, mas no final, quando ela rolou os olhos e voltou a se sentar com um bico do tamanho do mundo, acabei cedendo. — Eu me sinto uma estranha aqui, Ju. — murmurei, puxando a barra do short jeans que, embora simples, se colava ao meu corpo e mostrava mais do que eu estava acostumada a permitir. Juliana insistiu em me emprestar uma de suas roupas, quando viu que eu estava cogitando ir de calça jeans. Não que eu não tivesse alguns shorts, mas os que eu tinha, geralmente eram de pano molinho e eu gostava de usa-los principalmente para dormir. E apesar de agradecer o gesto dela e de aceitar um de seus inúmeros shorts jeans, estava começando a me arrepender quando percebi que conforme eu andava, o tecido acabava subindo um pouco pelas minhas coxas. Sem contar que eu era mais cheinha que ela, então a peça se colava no meu corpo. Não estava feio, mas era estranho o suficiente para me deixar um pouco desconfortável. — Para de ser chata. Toma, bebe isso. O copo de plástico estava cheio de uma mistura com cheiro doce e forte. Dei o primeiro gole, depois o segundo. A queimação na garganta me distraiu momentaneamente do desconforto que eu sentia. Mais dois copos depois e o som ensurdecedor das caixas de som parou de incomodar e parecia vibrar dentro das minhas costelas. Meu celular vibrou no bolso do short e o meu coração deu um salto em meu peito quando vi a tela. [Eduardo]: Achei que não curtisse baile e bebida, santinha. Olhei em volta, sentindo um calafrio que não vinha do vento. Minhas mãos tremiam enquanto eu digitava uma resposta. [Mariana]: Como conseguiu meu número? Onde você está? Não pude deixar de esperar ansiosamente, enquanto a palavra “digitando...” aparecia na tela. [Eduardo]: Eu tenho meus corre. Nada passa batido por mim. Tô de olho em tu. Li e reli aquilo inúmeras vezes e confesso que, apesar de saber que eu deveria estar irritada, tudo o que eu conseguia sentir era uma exci.tação frenética, que fazia todo o meu corpo estremecer de ansiedade com a troca de mensagem. [Mariana]: Pois pare de olhar. Resolvi deixar de passar pela vida sem aproveitar. Eu tinha um sorrisinho no canto dos lábios depois que respondi aquilo e guardei o celular no bolso novamente. E talvez eu estivesse um pouco mais animada por saber que eu estava no “radar dele”. Mas a animação logo evaporou quando eu finalmente o vi. Ele estava em um canto um pouco mais afastado, cercado pelos seus “parças”, enquanto fumavam e bebiam. Mas o que meu deu um soco no estomago foi ver as mulheres que estavam com eles. Todas “montadas”, maquiagens carregadas e roupas que deixavam pouquíssimo para a imaginação. Rebolando para eles, enquanto eles ostentavam garrafas de whisky e correntes de ouro. Uma delas estava quase no colo dele! O ciúme bateu como acido em meu corpo, misturando-se com todo o álcool. Então é disso que ele gosta? Não pude deixar de pensar amarga, enquanto tentava evitar de olhar, mas acabava sempre olhando. É por isso que ele me chama de santinha? Porque eu não sei me esfregar assim? Em um acesso de fúria, virei o resto do meu copo, deixando que o álcool me enchesse de uma coragem liquida. A musica mudou para um batidão pesado e eu fechei meus olhos, enquanto começava a dançar. No começo, timidamente, mas logo me deixei levar, sorrindo quando escutei os gritos animados de Juliana e de suas amigas de farra. Senti um corpo se aproximar por trás de mim e estaquei me assustando por um momento. Era um homem bonito. Não era o Eduardo, mas ele estava me olhando com um de.sejo que me fazia sentir viva. Naquele momento eu corei, mas não me afastei. Comei a dançar para ele, voltando a fechar os olhos e inevitavelmente ignorando o olhar que eu sentia me queimar. Meu celular começou a tocar e eu ignorei, sentindo as mãos do desconhecido apertarem minha cintura e puxar de encontro a ele. Engoli em seco, sentindo a adrenalina fazer com que os pelo do meu corpo se arrepiassem e suspirei ao sentir o celular tocar novamente. Eu sabia quem era e apesar de continuar ignorando, a curiosidade foi maior e eu acabei abrindo os olhos, os direcionando exatamente para o lugar onde eu sabia que ele estava. Estremeci com o olhar de Eduardo e na expressão retorcida em uma mascara de fúria. O observei afastar a mulher que se esfregava contra ele, e depois sumir na multidão. Não demorou muito e o meu celular vibrava com uma mensagem, fazendo com que meu coração disparasse dentro do pei.to. [Eduardo]: Se você não sair daí agora mesmo e parar de se esfregar nesse filho da pu.ta, eu mato ele na sua frente. Não paga pra ver. O medo gelou meu sangue, mas a rebeldia do álcool falou mais alto. [Mariana]: Você não pode estar falando sério. Você não manda em mim. [Eduardo]: Tô na saída da rua. Se eu tiver que voltar aí pra te buscar pelo cabelo, o final da noite vai ser sangrento. Respirei fundo, as pernas bambas ameaçavam querer desistir e me fazer desabar, mas eu já tinha feito minha escolha. Não foi difícil dispensar o cara. O difícil mesmo foi convencer Juliana a ficar e me deixar sair dali sozinha. Por fim consegui que ela ficasse, garantindo que sabia que não iria ficar muito tempo e que vim preparada com dinheiro pro Uber. Ela acabou se convencendo a ficar quando suas amigas começaram a gritar e puxar ela para dançar pois, aparentemente, tinha começado a tocar uma musica da qual gostavam muito. Sorri incentivando e suspirei aliviada quando ela se deixou levar e eu pude, finalmente, escapar de suas vistas, me embrenhando no meio daquele monte de pessoas. Assim que deixei todo aquele barulho para trás e estava prestes a chegar no final da rua, o ronco de uma moto ecoou alto. Minhas pernas voltaram a bambear, mas me mantive firme e parada, enquanto o via se aproximar. Eduardo parou ao meu lado, os olhos brilhando de um jeito que me fez querer fugir ao mesmo tempo em que eu queria me jogar nos braços dele. — Sobe. — Eu não vou... — SOBE, MARIANA! — meus olhos se arregalaram quando escutei o grito ecoar sobre o barulho do motor. Aceitei o capacete que ele me oferecia e subi na moto logo depois. Enquanto ele colocava seu próprio capacete, aproveitei para segurar nos ferrinhos em cada lado do banco da moto, dizendo a mim mesma que não encostaria nele. Mas quando ele arrancou, a velocidade me obrigou a colar meu corpo em suas costas, abraçando sua cintura como se a minha vida dependesse daquilo. O cheiro de Eduardo — tabaco, asfalto e perigo — me preencheu, abafando o álcool e o barulho do baile. Eu sabia que ele estava furioso, e que eu deveria estar rezando, mas enquanto o vento chicoteava meu rosto, a única coisa que eu conseguia pensar era que, pela primeira vez em vinte e três anos, eu não estava apenas assistindo a vida passar. Eu estava queimando junto com ela.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD