"Aquele dia era só mais um...
Até deixar de ser."
Mariana
Abracei meu próprio corpo, enquanto abaixava a cabeça e tentava enxergar – inutilmente – naquele breu. Enquanto desviava das inúmeras poças d’água pelo chão, me perguntava como eu tinha deixado que Juliana me convencesse a acompanha-la naquela maluquice.
Aquilo estava escuro que só o ca.ra.lho!
Foi impossível segurar o bufo de impaciência, enquanto me deixava ficar um pouquinho para trás e encarava a nuca das duas desmioladas que andavam lado a lado e cochichavam entre si.
Entre todas as escolhas ruins que eu já tinha feito, aquela estava entre as top três piores da minha fo.dida vida.
O som abafado do funk que tocava no bar In.fer.ninho 1, ainda podia ser escutado ao longe, enquanto nos embrenhávamos cada vez mais na escuridão daquele beco úmido. Apesar do bar escuro e caindo aos pedaços ser somente uma fachada para uma boca de fu.mo, quase sempre tinha gente consumindo bebidas e escutando funk alto ali.
— Gente, isso é uma péssima ideia. — me peguei falando um pouco alto demais, enquanto apertava o passo para me aproximar um pouco mais das duas. Pois, enquanto me pegava julgando até o ultimo fios de cabelos delas, acabei ficando um pouquinho – muito – para trás. E tudo o que eu menos queria era me perder entre os vários caminhos estranhos. — Ca.ra.lho! — xinguei baixinho quando o medo de ser deixada para trás me fez afundar o pé em uma poça d’água.
— Você já disse isso. — a voz de Bianca ecoou cheia de sarcasmo e eu rolei os olhos, enquanto dava uma corridinha e tentava não escorregar em meus chinelos.
Era óbvio que eu já tinha dito aquilo!
Tanto os xingamentos ao longo do caminho, quanto ao dizer – várias vezes – o quanto aquilo não era uma boa ideia.
— Só acho que deveríamos ter vindo de dia. — cochichei atrás delas e tentei não olhar para os lados, onde eu conseguia ver alguns moradores nos encarando desconfiados do confinamento de suas casas.
— Mary, deixa de ser medrosa. Tá comigo, tá com Deus. — meus olhos rolaram com tamanha força, que eu temi ficar com eles permanentemente daquela forma.
Eu só não retruquei aquela gracinha de Juliana, porque estava concentrada demais para não pisar errado e acabar caindo no mangue.
Sim, mangue!
Saímos da parte precariamente asfaltada e entramos na área em que o caminho era sobre o mangue, feito unicamente de uma ponte estreita construída com tabuas e madeiras. Cada passo nosso fazia a ponte balançar e o meu coração quase sair pela boca. E eu não entendia como aquelas ma.lditas morcegas do ca.ra.lho, conseguiam se locomover tão rápido naquela po.rra de beco escuro, enquanto eu praticamente patinava, ma.l conseguindo ver o que se encontrava a minha frente.
Optei por ficar calada e me mantive bem atrás delas, enquanto meus olhos não saiam do chão e eu pedia mentalmente a Deus, que não me deixasse escorregar para o lamaçal fedido abaixo de nós.
Não era como se eu não tivesse tido escolha.
Juliana não tinha me convidado quando a amiga dela apareceu toda chorosa e lhe contou a história triste do dia – ou da noite.
Era sempre a mesma história...
Elas conheciam algum va.gabun.do, se envolviam achando que iam ser as únicas e depois acabavam na mer.da. Algumas vezes, ganhavam um corte de cabelo de brinde, se não andassem na linha. No caso de Bianca, acabou ganhando uma barriga.
E depois de algumas cervejas e uns ba.seados, as idio.tas se encheram de coragem para ir cobrar atenção do pai do ano.
Desencorajei, é claro. Qualquer um que fosse minimamente inteligente sabia que aquilo era uma péssima ideia, ainda mais sabendo do histórico de agressões entre os dois. Porém, aqui estava eu, pois, era tão burra quanto elas e não conseguia deixar que essas duas frangas desmioladas se metessem em uma coisa dessas sozinhas.
Na minha mente brilhante eu não deixaria as coisas saírem do controle e conseguiria apaziguar qualquer discussão que surgisse.
Como eu estava enganada...
Quando chegamos ao tal local aonde o tal cara morava, a primeira coisa que notei, foi o clima meio estranho. Saímos do caminho estreito onde várias casas de madeira ladeavam a ponte, somente para nos depararmos com um espaço totalmente aberto.
Algumas casas estavam espalhadas por ali, todas fechadas. Porém o que chamava atenção mesmo era um assoalho de madeira, como se fosse um palco estranhamente montado entre o rio lamacento e as casinhas que mais parecia um cati.veiro quatro por quatro.
Senti os pelos da nuca arrepiarem na mesma hora. Aquilo nem era devido ao fato de ter três homens estranhos e mau encarados no centro daquele assoalho, conversando entre si enquanto dois deles seguravam uma arma do tipo grande em suas mãos. Não... Era o peso do local que me fazia arrepiar como se estivesse sofrendo de uma dor de barriga daquelas.
Nunca fui ingênua. Cresci na favela e, apesar de não gostar e nem me envolver com gente desse tipo, ver armas não me assustava mais. O que me preocupava mesmo eram os cochichos que ecoavam de alguns poucos fofoqueiros corajosos que estavam ali por perto. Era o clima. O frio cortante e a sensação de arrependimento que me trazia um gosto amargo na ponta da língua e uma sensação agoniante no peito.
— Meninas, eu...
— Mas, que po.rra...?! — meus olhos se arregalaram quando a voz masculina ecoou por todo o lugar.
Por um momento acreditei que tínhamos passado despercebidas e que nos confundiriam com os outros fofoqueiros. Mas não tínhamos. E conforme eu via um daqueles três homens se aproximar de nós, minha respiração foi ficando meio difícil de sair. O olhar do cara passou brevemente por mim, antes de ele franzir a testa e concentrar toda sua raiva em Juliana e Bianca.
— O que tu quer aqui, ca.ra.lho? — A pergunta foi feita em um tom ríspido e eu engoli em seco quando a mão dele se fechou no braço magrelo de Bia e ele deu uma chacoalhada nela. Minha língua pesou na hora e eu trinquei os dentes com força.
Quem eu pensava que era para achar que seria a voz da razão e a que manteria a paz?