Uma Idiota Brilhante
Calliope Torres P.O.V
- Merda. - murmurei sozinha.
Desde o momento que cai da cama essa manhã, meu dia não tinha sido nada além de uma porcaria total.
Sentada no meu carro, impaciente e com raiva, tentei não gritar de frustração. Não havia muito a fazer se a droga do trânsito não andava e a porcaria do motorista ao meu lado adorava buzinar. Comecei a mexer no som do carro, tentando fazer qualquer coisa que tirasse o meu olhar fixo do carro da frente. O mesmo carro cheio de adesivos de uma família feliz, que estava parado na minha frente pelos últimos dez minutos. Como não estar impaciente e com raiva quando se está presa no mesmo local da rua, todo aquele tempo?
Merda. Merda. Merda. Naquela velocidade eu só chegaria à Robbins Corp no ano que vem.
Outros 10 minutos parada naquela avenida, e eu já poderia me considerar uma mulher impaciente, com raiva e muito atrasada. Ao menos, segundo os padrões absurdos de quem eu trabalhava.
Claro. Se eu tivesse qualquer chefe mais normal, isso não seria um problema tão grave. Imprevistos acontecem. Pessoas se atrasam. Mas eu trabalhava para uma insensível, viciada em trabalho e perfeccionista da pontualidade. Para ela, dez minutos de atraso eram tão reprováveis quanto uma hora.
É. Talvez, o pior do meu dia nem tenha começado ainda.
Suspirei e olhei pela janela, os meus olhos se encontraram com o do motorista viciado em buzina ao meu lado. O homem de 40 e alguma coisa piscou pra mim com um sorriso assustador e balbuciou a palavra "gostosa".
Eca! Por que os homens têm que ser sempre esses porcos?
Bem, apenas o ignorei. Mexi de novo no som e inclinei minha cabeça para trás no banco, dando um longo suspiro, tentando fazer um balanço de estragos ocorridos naquela manhã.
Eu havia acordado com o som estridente de my hips don't lie tocando nos alto-falantes do meu despertador de cabeceira. Ou quase acordado. Nunca fui uma pessoa muito matinal. Acordar era um pequeno suplício, mas as contas não se pagariam sozinhas.
Gemi ao ouvir Shakira quase chegando ao refrão, fazendo eu empurrar ainda mais a cabeça no travesseiro e começar a tarefa burra de tentar desligar o despertador, sem necessariamente levantar da cama. O ser humano é realmente burro com muito sono.
E como eu não alcançava nenhum botão de soneca, o som só aumentava, tentando cumprir sua função de me tirar da cama. Inferno!
Debrucei-me mais ainda, já partindo para medidas drásticas e tentando puxar o seu cabo para fora da tomada, mas acabei não só caindo da cama naquele momento, mas trazendo toda a mesa de cabeceira comigo.
Oh Deus! Foi a pior merda que eu já fiz. Tudo estava molhado agora! Meu celular! O copo com água deixado por mim no criado mudo agora estava ao lado do meu telefone ensopado.
Pânico começou a se formar quando segurei o telefone pingando e tentei enxugar no meu lençol. Eu estava morta. Minha vida inteira e a programação da minha chefe estava naquela coisa! Eu respirei fundo, querendo me acalmar. Talvez fosse secar e ficar bom, eu disse a mim mesma. Claro que vai. Porque água e aparelhos eletrônicos caros combinam tão bem juntos.
Até meus pensamentos positivos zombavam de mim.
Agora eu precisava tomar banho correndo, de um celular novo e muita, muita paciência para tentar explicar para minha chefe porque eu não saberia qual era sua próxima reunião, por estar sem celular.
Arizona Robbins, a tal da minha chefe, era o que se podia definir como alguém: muito difícil.
Suas exigências eram altas e nem sempre muito coerentes, mas eu não era paga para entendê-la, só para ser sua assistente. Aquela semana, por exemplo, ela estava agindo de um modo particularmente desagradável. Quando não estava gritando com alguém no telefone, latia ordens na direção da minha mesa, exigia pedidos que nunca fez e batia sua porta com muita vontade.
Normalmente, ela não era tão insuportável assim. Nos seus dias bons, ela falava com todos, dando um bom dia quase entusiasmado, falava sobre o crescimento da empresa e ouvia as demandas vindas do porteiro até a estagiária da sala de cópias. Às vezes, ela nem se importava tanto quando eu demorava um pouco a voltar do almoço e até havia quem dissesse já tê-la visto sorrindo entre uma reunião e outra.
Contudo, em seus dias ruins, ela era uma tremenda cuzona em tempo integral. Quase uma fascista. E apesar dos seus métodos questionáveis e humor bastante bipolar, a sua maior fama como CEO ainda era a de uma mulher brilhante.
Não dava para questionar o seu talento para gestão. Já iriamos fazer nove meses desde o ingresso na presidência e, apesar do seu pai ter sido o grande visionário que fundou a empresa, os números não mentiam ao mostrar que o trabalho daquela mulher era genial.
Claro, ainda sentia muitas saudades de trabalhar para Daniel. Ele era um bom homem, sempre muito gentil e havia sido quem me contratou em primeiro lugar. Mesmo que eu ainda estivesse terminando minha faculdade e não fosse lá grande profissional.
Mas agora ele estava afastado dos negócios e a presidência da Robbins Corp era comandada a pulso firme por sua filha mais nova. Precisei me adaptar a sua forma de trabalhar, mas não foi o fim do mundo. Executivos idiotas não eram exatamente raridade, não seria diferente na Robbins Corp, por isso, foquei minha energia em ignorar sua arrogância e manter meu emprego.
Afinal, eu não tinha conseguido chegar onde eu estava tendo a pele sensível.
Bom, voltando à minha manhã de merda, depois de destruir meu celular pela minha preguiça de sair da cama, tive de lidar com a minha cafeteira pifando, e minhas chaves caindo entre as almofadas do sofá. Claro, nada hoje poderia ser fácil - reclamei mentalmente.
Contudo, mesmo com todo aquele dia de azar, de alguma forma, eu consegui chegar ao meu carro só alguns minutos fora do meu tempo normal.
Eu ainda não estava atrasada.
Não até acabar presa na maior avenida de National City, por algum acidente i****a, que não me deixava chegar na empresa. O trajeto foi um pesadelo e sem dúvidas, eu acabaria, no mínimo, uma hora atrasada.
Normalmente, eu pediria para Lexie segurar as pontas para mim, mas meu telefone ainda estava em casa, deitado em um monte de água e embebido em toalhas de papel no fundo do meu lixo do banheiro. Eu sabia que seria infernizada por isso, mesmo que eu sempre tivesse ostentando meu horário perfeito de chegada, sempre quinze minutos adiantada, a i****a jamais deixaria algo assim passar. Não quando ela odiava tanto atrasos.
"Arizona Robbins"
Revirei os olhos quando o seu nome passou através dos meus pensamentos, eu não podia suportar essa mulher. Ela tinha como slogan pessoal a maior postura de "seja eficiente" e "trabalhe mais" que eu já conheci na minha vida. Ainda assim, não era exatamente isso que me irritava nela, mas como parecia que ela só tinha aquele olhar arrogante quando era direcionado a mim. Era normal a assistente sempre ficar com o páreo mais duro, contudo, era completamente ridícula a forma babaca que ela agia ao meu redor.
Uma verdadeira cretina com olhos lindos.
Não dava para se fazer de cega com uma mulher tão bonita quanto ela trabalhando na sala da frente.
Claro, eu jamais me interessaria pela rainha de gelo, por questões óbvias: 1. Ela era minha chefe; 2. Eu estava proibida por Meredith de me relacionar com mulheres cheias de si de novo; 3. Ela nunca se interessaria de volta.
Afinal, sejamos realistas, apesar do meu estilo ter evoluído bastante dos suéteres rosa e tranças que eu usava na faculdade para roupas sociais e óculos só para leitura, Arizona Robbins ainda era a multibilionária dona de um império. Nada havia em mim que poderia interessá-la.
Eventualmente, o trânsito voltou a ter fluxo e não demorou mais tanto assim para eu chegar na rua da empresa. Tentei não sofrer por antecipação, pois existia essa possibilidade ínfima de Mrs. Robbins estar mais atrasada que eu. Não custa nada sonhar.
Ao menos tempo, já me preparava mentalmente para uma advertência, tentando me alegrar com o fato de estar com meus cabelos soltos e usando um dos meus vestidos favoritos, presente de Meredith, então nada poderia destruir tanto assim o meu dia.
Oh, como eu gostaria de estar certa disso!
- Pois bem, Srta. Torres, a senhorita planejava chegar ainda no expediente de hoje? - aquele tom impassível foi a minha recepção.
Ela estava em pé na porta de seu escritório que era de frente pra mim, parecendo tão linda e arrogante como sempre. Ela tinha cerca de 1,65, com pernas de dar inveja a qualquer mulher e s***s que... bem, eu não posso comentar, já que evitava olhar para a direção deles a todo custo.
- Desculpe, Mrs. Robbins. Houve um acidente na avenida, e eu cheguei aqui logo que pude. Não vai acontecer outra vez, senhora. - respondi o mais educada possível, batendo os dentes, mesmo que meus dedos estivessem se contraindo com o desejo de arrancar fora os olhos muito azuis dela. Seu tom debochado por algum motivo conseguia me tirar do meu estado normalmente pacífico.
- Você está certa, não vai. - respondeu ela com aquele sorriso arrogante que fez o meu estômago dar voltas e pulos ao mesmo tempo. Se ao menos ela mantivesse sua maldita boca fechada, ela seria perfeita. - E como quero garantir que outro incidente não prejudique sua memória, quero os documentos que coloquei em sua mesa esta manhã preenchidos e finalizados até às seis. E então você irá repor a hora que perdeu esta manhã fazendo sua apresentação na sala de conferências comigo.
Meus olhos se arregalaram quando sua voz me tirou de meus pensamentos há muito esquecidos, e eu vi quando ela se afastou sem dizer mais nada, batendo a porta da sala atrás dela. Mas. Que. p***a. Ela sabia muito bem que para organizar todos aqueles documentos de patente para uma apresentação não poderia ser feito em menos de um dia e uma noite de trabalho, ainda se eu pulasse o meu almoço.
Desgraçada!
Joguei minha bolsa na mesa e me sentei para ligar meu computador resmungando baixinho enquanto eu abri a pasta de arquivo na minha mesa. Bem, pelo menos eram patentes básicas de componentes eletrônicos. Eu sabia que elas faziam parte do novo projeto de nanotecnologia para eliminar células cancerígenas, que agora ela parecia tão interessada, e que parte importante na construção dos componentes eram essas patentes. Ainda assim, ela podia não ser uma completa grossa e usar aquilo como uma espécie de punição para mim.
E apenas incrível como Mrs. Robbins conseguiria ser brilhante e ao mesmo tempo uma total i****a.
"Aviso importante: Haverá uma cena que configura sim assédio e de diversas formas uma relação fundada no abuso. Mas prometo que isso terá impactos futuros relevantes, apesar de parecer no começo que as personagens ignoram isso. De nenhuma forma quero que assédio seja romantizado, mas a questão nessa história toda é que a relação de poder que divide elas tem fundamentos posteriores, por isso, desculpinhas pelo começo (que pode incomodar um pouco), mas que será trabalhado mais a frente. Obrigada pela atenção!(bay laurenuts)"