2-George

1010 Words
Me levanto logo depois de ouvir o despertador tocar, desligo e sigo até o banheiro fazer minha higiene antes de sair para correr. Essa é a minha rotina de todos os dias, desde o dia que completei quinze anos. Naquela época, saia pra correr com meu pai e meu irmão. Augusto desistiu da corrida na rua, prefere a academia. Meu pai, com o passar dos anos foi diminuindo seu rítmo, até ficar somente nas caminhadas. Mas cá estou eu, cinco ou seis vezes na semana, faça chuva ou faça sol. Gosto das sensações que a corrida me traz, ouvir meus próprios passos enquanto estou mergulhado nos meus pensamentos. Ver a escuridão da noite, se tornar dia a cada passo que eu dou. Isso me faz estar preparado para o longo dia que vou enfrentar. Enquanto penso isso, me lembro que hoje não terei mais dona Olga comigo. Talvez a corrida não me prepare para tudo, não é mesmo? Balanço a cabeça e decido voltar para casa. —Bom dia, mamãe. Falo, assim que encontro ela na sala. —Bom dia, meu filho. Dou um beijo em sua testa, antes de seguir até meu quarto e tomar um banho, me preparando para o novo dia que tenho pela frente. Ainda moro com meus pais, na mesma casa em que cresci. Ao contrário de Augusto, que na época da faculdade já procurou seu próprio canto, eu permaneço aqui e não tenho planos de sair daqui tão cedo. Tomo um banho e com a toalha enrolada na cintura, sigo até o closet e começo a me vestir. Enquanto coloco minha boxer, vou me lembrando de minha nova secretária. Olga que esta comigo desde o início, está me abandonando, está indo para o interior, ficar com sua filha. Suspiro e termino de me vestir. Camisa social, gravata, terno, relógio, sapato social. Certa vez, ouvi de um colega de profissão que não precisava estar apresentável socialmente em dias que não tinham audiências no fórum. Bom, minhas audiências começam em meu escritório e eu quero mostrar isso aos meus clientes. Todo dia, é dia de resolver os problemas que eles arrumaram, todos os dias, preciso mostrar que é para isso que estou ali. E é exatamente assim que eu encaro o meu trabalho. Profissionalismo e seriedade. Me olho no espelho, quando já estou finalizando o nó da gravata e sigo para a cozinha, onde mamãe já está preparando o café da manhã. Cumprimento papai e tomamos juntos nossos cafés. —Bom, vou indo nessa. —Mas já? Hoje você está com pressa de trabalhar? Papai pergunta, enquanto olha no relógio de pulso. —Sim, hoje minha nova secretária começa a trabalhar. Quero já estar no escritório, Deus me livre de algo errado acontecer enquanto eu não estou lá. Ele sorri. —Está certo, bom trabalho. —Obrigado, amo vocês. Digo enquanto dou um beijo em cada um e sigo para o meu carro, pensando em minha nova secretária. Até agora eu não consegui entender muito bem o porquê eu contratei ela. Mas por alguma razão ela foi contratada. —Olhe bem onde você vai se enfiar, George! Nunca se esqueça de suas regras. Falo pra mim mesmo. —Em hipótese alguma, se envolver com alguém do trabalho. Muito menos com sua secretária. E por que eu estou pensando nisso? Talvez, seja por que você andou pensando naquele sotaque o fim de semana inteiro. Minha consciência me fala, zombando de mim. —Vá a merda, consciência chata. O que tem, eu achei aquele sotaque... Uma delícia de ouvir. Não posso ficar pensando? O quê, vai me dizer que imaginar, arranca pedaços agora!? Falo, esquecendo por um breve segundo que estou falando comigo mesmo. —Deixa pra lá... Digo, quando finalmente estaciono o carro na minha vaga. Desligo, pego minha pasta e saio, seguindo o caminho até o elevador. Aperto o botão do meu andar e vou cantarolando. Assim que as portas do elevador se abrem, sinto o cheiro de uma fragrância feminina invadir minhas narinas. —Bom dia. Falo passando por ela. —Bom dia, Doutor. Ouço ela responder, com aquele sotaque. Entro, sento em minha cadeira e enquanto meu computador inicia, pego o telefone e ligo para ela. —Senhor Ribeiro? Ouço ela falar. —Venha até minha sala. É tudo que eu falo e desligo. Não demora muito, ouço as leves batidas na porta. —Entre. —Com licença. Ela fala entrando. —Como esta minha agenda do dia? Pergunto e ela para, olhando para a agenda em sua mão. —Sente-se Eliza. Digo e ela estreita os olhos. —Elouisa. Ela diz, frizando o "Lou" e fazendo um pequeno biquinho com os lábios. —O que disse? Pergunto, fingindo que não entendi sobre o que ela falou. —Meu nome, o senhor sempre fala "Eliza" mas é Elouisa. Ela fala, se explicando. —E você não entende quando eu falo Eliza? não percebe que falo com você? Ela dá de ombros. —Imagino que seja para mim, mas preferia que o senhor me chamasse pelo meu nome. Dou de ombros. —Certo, vamos ao que interessa? Olga te passou tudo que você precisa fazer? Percebo que ela morde o lábio inferior. —Sim, ao menos o que seria ee mais importante. —Ótimo, minha primeira reunião é com o senhor Alves, não é mesmo? Ela abre a agenda em seu colo. —Isso mesmo, daqui a quinze minutos. —Ótimo, pode voltar ao seu lugar e quando ele chegar me avise. —Com licença. Ela fala se levantando e sai de minha sala. Balanço a cabeça e sorrio. É claro que eu sei que o nome dela é Elouisa. Mas percebi já lá no primeiro dia que ela não gostou. —O que me custa, brincar com a paciência dela? Meu telefone toca e fecho meu sorriso pra atender a ligação. Ela me informa que senhor Alves acabou de chegar e peço pra ela liberar sua entrada. Ela faz isso e deixo todos os pensamentos sobre ela de lado e foco em minha reunião.
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