“Algumas marcas não precisam ser visíveis para doer. Basta a lembrança de onde foram deixadas.”
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Alicia acordou com os primeiros raios de sol atravessando a cortina do quarto. Os lençóis estavam bagunçados, e o cheiro do corpo de Lucas ainda impregnava o ar. Ele dormia profundamente ao lado dela, uma das mãos apoiada em sua cintura como se ainda quisesse mantê-la ali — mesmo inconscientemente.
Ela se virou devagar, observando os traços calmos do rosto dele. Era bonito, gentil, envolvente… Mas não era Rafael.
A memória da noite anterior ainda queimava em sua pele. O jeito como Lucas a tocava era carinhoso, mas sua mente insistia em compará-lo com o professor vizinho, que a dominava com apenas um olhar.
Alicia se levantou devagar e vestiu uma camisola de cetim preto, curta, sem nada por baixo. Foi até a cozinha e encontrou Dona Teresa arrumando a mesa para o café da manhã.
— Bom dia, minha menina — disse a mulher com um sorriso doce. — Dormiu bem?
— Dormi, sim. — Alicia pegou uma xícara de café. — Lucas dormiu aqui.
— Eu percebi. E o vizinho bonitão, sumiu?
Alicia riu baixo.
— Ele continua morando ao lado… e continua me ignorando.
Dona Teresa arqueou uma sobrancelha, curiosa.
— Ignorar você? Duvido muito. Mas tudo bem… vamos ver até quando isso dura.
Alicia deu um gole no café, o olhar perdido na janela que dava para a casa de Rafael. Tinha certeza de que ele a observava às vezes. O que eles haviam vivido… não dava para fingir que nunca aconteceu.
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Na casa ao lado, Rafael encarava uma caixa antiga que encontrou no quarto mais antigo da mansão herdada do tio-avô. Entre papéis amarelados, contratos antigos e fotografias em preto e branco, havia uma carta.
A caligrafia era firme, feminina. Ele a leu com atenção crescente:
“Nunca me arrependi de amar quem amei. Mas quando descobri que estava grávida, soube que meu marido jamais aceitaria. Se ele descobrisse, teria matado o homem que eu amava, ou pior… minha filha. Por isso, entreguei minha pequena à minha irmã, Dolores. Ela a criou como filha, como sua. Sei que Alicia jamais saberá a verdade… Mas se um dia descobrir, espero que entenda: eu só queria salvá-la.”
Assinava: Elena Vasconcelos.
Rafael fechou os olhos. O nome dela. Alicia. Isso explicaria tanta coisa? O vínculo estranho entre eles, o magnetismo incontrolável?
Pegou o celular.
— Silas — disse ao investigador —, preciso que você descubra tudo o que puder sobre Elena Vasconcelos. Ela é irmã de Dolores, mãe da Alicia. Quero saber se está viva, onde está, e qualquer ligação com meu tio-avô. Discrição total.
— Pode deixar, Rafael. Vou começar agora mesmo.
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Mais tarde, Alicia encontrou com Júlia, Pedro, Mel e Caio no shopping. Haviam combinado de sair para dançar à noite.
Durante o intervalo na praça de alimentação, ela soltou um desabafo:
— Eu não sei mais o que pensar — disse Alicia, mexendo no canudo do copo de suco, sem realmente tomar. — O Lucas tem sido incrível, gentil, presente… Mas o Rafael… ele ainda bagunça tudo aqui dentro — ela levou a mão ao peito, os olhos distantes.
Júlia foi a primeira a reagir, como sempre.
— É óbvio que o Lucas é um príncipe, amiga. Mas a gente sabe que você nunca olhou pra ele como olha pro professor. O jeito que você fala do Rafael muda sua voz.
Mel revirou os olhos, rindo.
— É, mas o professor também é um i****a arrogante que parece não saber o que quer. Sabe como se resolve isso? Sexo. Dos bons. Depois disso, a gente vê se ele merece o resto.
Todos riram, e Alicia balançou a cabeça, mas não discordou.
Pedro levantou as mãos como se fosse um juiz.
— Como representante da ala racional da turma, digo que se o Lucas está sendo tudo o que o Rafael não é, talvez você devesse investir em quem te faz bem de verdade.
Caio, que ouvia calado até então, deu um gole no refrigerante e falou sério:
— Mas o problema é que nem sempre quem faz a gente bem é quem faz o coração acelerar. E eu acho que o Rafael ainda bagunça o dela mais do que ela admite.
Alicia soltou um suspiro frustrado.
— Eu só queria que meu coração fosse mais burro.
— Então vai se permitir sentir — disse Júlia, pegando na mão dela. — Mas lembra: quem te ama de verdade, não te deixa em dúvida o tempo todo.
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À noite, Alicia se arrumou com calma. Escolheu um vestido vermelho colado, salto agulha, maquiagem marcada e perfume doce com fundo amadeirado. Estava uma visão.
Lucas a esperava na porta da boate. Quando a viu, seus olhos brilharam.
— Você está… um pecado — ele murmurou, puxando-a para um beijo lento.
Lá dentro, a música pulsava alto. Alicia dançava com os amigos, jogava o cabelo, ria. Beijava Lucas com provocação e olhava para todos os lados — principalmente para onde sabia que ele não estaria. Mas queria que estivesse. Queria que Rafael a visse dançar daquele jeito. Queria que queimasse.
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Ao voltar para casa, já de madrugada, Alicia desceu do carro com os saltos na mão. Lucas a acompanhava. Dona Teresa e Manu já dormiam.
— Quer subir? — ela perguntou com um sorriso de canto.
— Só se você quiser — respondeu ele, prendendo a respiração.
Eles subiram juntos. Na sala escura, ela o beijou com intensidade, e ele a empurrou levemente contra a parede, suas mãos explorando cada curva por debaixo do vestido.
O tecido vermelho caiu no chão em segundos.
O que Alicia não sabia era que Rafael observava da janela do próprio quarto. As luzes da casa dela deixavam tudo visível. Ele viu quando ela se ajoelhou, quando Lucas a deitou no sofá, quando os corpos se fundiram.
A dor no peito foi imediata.
O ciúme queimava como ácido.
Rafael fechou a cortina com força e foi até o banheiro. Ligou o chuveiro gelado. Trincava os dentes, os punhos fechados, o corpo tenso.
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Mais tarde naquela noite, Alicia dançava sozinha no quarto com uma taça de vinho na mão. Estava de calcinha e uma camisa branca larga que caía pelo ombro.
Sabia que Rafael podia estar olhando. E estava.
Ela virou de costas para a janela, ergueu a camisa, rebolou lentamente.
Rafael, do outro lado, estava completamente duro.
Era como uma punição — vê-la com outro, mas desejá-la como se fosse dele.
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Quando ela saiu da varanda e foi acompanhar Lucas até o carro, Rafael surgiu das sombras do jardim, o olhar sombrio e selvagem. Antes que ela pudesse reagir, ele a prensou contra a parede com o corpo quente e tenso.
— Você se diverte abrindo as pernas pra qualquer um agora? — rosnou, o rosto colado ao dela, o hálito quente e carregado de raiva.
— Pelo menos ele me quis. Você só sabe fingir que não sente nada — rebateu com a voz trêmula de raiva e desejo.
— Ele encostar em você já é imperdoável — a voz dele saiu baixa e grave. — Mas você deixar ele entrar… Você não faz ideia do quanto isso me enlouquece.
Antes que ela pudesse retrucar, ele segurou sua nuca, puxando os cabelos com firmeza. O beijo foi brutal, exigente, possessivo. A língua dele invadiu sua boca com fúria contida, como se precisasse marcar território ali.
A mão dele desceu pelas curvas do corpo dela até alcançar o espaço entre as pernas — nu, quente e encharcado.
Ela gemeu contra os lábios dele, tremendo.
Ele não disse uma palavra. Apenas a fez gozar contra a parede da própria casa, com dois dedos e um olhar animalesco.
Ela se contorcia, arfando.
— Tá vendo? — ele murmurou, com os lábios colados ao ouvido dela. — Eu conheço cada milímetro seu. Te fiz gozar em segundos. Porque seu corpo é meu, Alicia. E eu não divido o que é meu.
Ela empurrou o peito dele com força, o olhar ferido e confuso.
— Você não pode aparecer e agir assim como se eu fosse sua.
Ele sorriu de canto, com desprezo e desejo nos olhos.
— Não precisa ser. Já é.
Então virou as costas e desapareceu pelo portão lateral, sem dizer mais nada.
Alicia ficou ali, encostada na parede, tremendo, o corpo ainda pulsando e o coração em guerra. Sabia que aquela história ainda estava longe de terminar. E ela já estava muito envolvida para fugir agora.