Capítulo 19

1427 Words
“Algumas marcas não precisam ser visíveis para doer. Basta a lembrança de onde foram deixadas.” ⸻ Alicia acordou com os primeiros raios de sol atravessando a cortina do quarto. Os lençóis estavam bagunçados, e o cheiro do corpo de Lucas ainda impregnava o ar. Ele dormia profundamente ao lado dela, uma das mãos apoiada em sua cintura como se ainda quisesse mantê-la ali — mesmo inconscientemente. Ela se virou devagar, observando os traços calmos do rosto dele. Era bonito, gentil, envolvente… Mas não era Rafael. A memória da noite anterior ainda queimava em sua pele. O jeito como Lucas a tocava era carinhoso, mas sua mente insistia em compará-lo com o professor vizinho, que a dominava com apenas um olhar. Alicia se levantou devagar e vestiu uma camisola de cetim preto, curta, sem nada por baixo. Foi até a cozinha e encontrou Dona Teresa arrumando a mesa para o café da manhã. — Bom dia, minha menina — disse a mulher com um sorriso doce. — Dormiu bem? — Dormi, sim. — Alicia pegou uma xícara de café. — Lucas dormiu aqui. — Eu percebi. E o vizinho bonitão, sumiu? Alicia riu baixo. — Ele continua morando ao lado… e continua me ignorando. Dona Teresa arqueou uma sobrancelha, curiosa. — Ignorar você? Duvido muito. Mas tudo bem… vamos ver até quando isso dura. Alicia deu um gole no café, o olhar perdido na janela que dava para a casa de Rafael. Tinha certeza de que ele a observava às vezes. O que eles haviam vivido… não dava para fingir que nunca aconteceu. ⸻ Na casa ao lado, Rafael encarava uma caixa antiga que encontrou no quarto mais antigo da mansão herdada do tio-avô. Entre papéis amarelados, contratos antigos e fotografias em preto e branco, havia uma carta. A caligrafia era firme, feminina. Ele a leu com atenção crescente: “Nunca me arrependi de amar quem amei. Mas quando descobri que estava grávida, soube que meu marido jamais aceitaria. Se ele descobrisse, teria matado o homem que eu amava, ou pior… minha filha. Por isso, entreguei minha pequena à minha irmã, Dolores. Ela a criou como filha, como sua. Sei que Alicia jamais saberá a verdade… Mas se um dia descobrir, espero que entenda: eu só queria salvá-la.” Assinava: Elena Vasconcelos. Rafael fechou os olhos. O nome dela. Alicia. Isso explicaria tanta coisa? O vínculo estranho entre eles, o magnetismo incontrolável? Pegou o celular. — Silas — disse ao investigador —, preciso que você descubra tudo o que puder sobre Elena Vasconcelos. Ela é irmã de Dolores, mãe da Alicia. Quero saber se está viva, onde está, e qualquer ligação com meu tio-avô. Discrição total. — Pode deixar, Rafael. Vou começar agora mesmo. ⸻ Mais tarde, Alicia encontrou com Júlia, Pedro, Mel e Caio no shopping. Haviam combinado de sair para dançar à noite. Durante o intervalo na praça de alimentação, ela soltou um desabafo: — Eu não sei mais o que pensar — disse Alicia, mexendo no canudo do copo de suco, sem realmente tomar. — O Lucas tem sido incrível, gentil, presente… Mas o Rafael… ele ainda bagunça tudo aqui dentro — ela levou a mão ao peito, os olhos distantes. Júlia foi a primeira a reagir, como sempre. — É óbvio que o Lucas é um príncipe, amiga. Mas a gente sabe que você nunca olhou pra ele como olha pro professor. O jeito que você fala do Rafael muda sua voz. Mel revirou os olhos, rindo. — É, mas o professor também é um i****a arrogante que parece não saber o que quer. Sabe como se resolve isso? Sexo. Dos bons. Depois disso, a gente vê se ele merece o resto. Todos riram, e Alicia balançou a cabeça, mas não discordou. Pedro levantou as mãos como se fosse um juiz. — Como representante da ala racional da turma, digo que se o Lucas está sendo tudo o que o Rafael não é, talvez você devesse investir em quem te faz bem de verdade. Caio, que ouvia calado até então, deu um gole no refrigerante e falou sério: — Mas o problema é que nem sempre quem faz a gente bem é quem faz o coração acelerar. E eu acho que o Rafael ainda bagunça o dela mais do que ela admite. Alicia soltou um suspiro frustrado. — Eu só queria que meu coração fosse mais burro. — Então vai se permitir sentir — disse Júlia, pegando na mão dela. — Mas lembra: quem te ama de verdade, não te deixa em dúvida o tempo todo. ⸻ À noite, Alicia se arrumou com calma. Escolheu um vestido vermelho colado, salto agulha, maquiagem marcada e perfume doce com fundo amadeirado. Estava uma visão. Lucas a esperava na porta da boate. Quando a viu, seus olhos brilharam. — Você está… um pecado — ele murmurou, puxando-a para um beijo lento. Lá dentro, a música pulsava alto. Alicia dançava com os amigos, jogava o cabelo, ria. Beijava Lucas com provocação e olhava para todos os lados — principalmente para onde sabia que ele não estaria. Mas queria que estivesse. Queria que Rafael a visse dançar daquele jeito. Queria que queimasse. — Ao voltar para casa, já de madrugada, Alicia desceu do carro com os saltos na mão. Lucas a acompanhava. Dona Teresa e Manu já dormiam. — Quer subir? — ela perguntou com um sorriso de canto. — Só se você quiser — respondeu ele, prendendo a respiração. Eles subiram juntos. Na sala escura, ela o beijou com intensidade, e ele a empurrou levemente contra a parede, suas mãos explorando cada curva por debaixo do vestido. O tecido vermelho caiu no chão em segundos. O que Alicia não sabia era que Rafael observava da janela do próprio quarto. As luzes da casa dela deixavam tudo visível. Ele viu quando ela se ajoelhou, quando Lucas a deitou no sofá, quando os corpos se fundiram. A dor no peito foi imediata. O ciúme queimava como ácido. Rafael fechou a cortina com força e foi até o banheiro. Ligou o chuveiro gelado. Trincava os dentes, os punhos fechados, o corpo tenso. — Mais tarde naquela noite, Alicia dançava sozinha no quarto com uma taça de vinho na mão. Estava de calcinha e uma camisa branca larga que caía pelo ombro. Sabia que Rafael podia estar olhando. E estava. Ela virou de costas para a janela, ergueu a camisa, rebolou lentamente. Rafael, do outro lado, estava completamente duro. Era como uma punição — vê-la com outro, mas desejá-la como se fosse dele. — Quando ela saiu da varanda e foi acompanhar Lucas até o carro, Rafael surgiu das sombras do jardim, o olhar sombrio e selvagem. Antes que ela pudesse reagir, ele a prensou contra a parede com o corpo quente e tenso. — Você se diverte abrindo as pernas pra qualquer um agora? — rosnou, o rosto colado ao dela, o hálito quente e carregado de raiva. — Pelo menos ele me quis. Você só sabe fingir que não sente nada — rebateu com a voz trêmula de raiva e desejo. — Ele encostar em você já é imperdoável — a voz dele saiu baixa e grave. — Mas você deixar ele entrar… Você não faz ideia do quanto isso me enlouquece. Antes que ela pudesse retrucar, ele segurou sua nuca, puxando os cabelos com firmeza. O beijo foi brutal, exigente, possessivo. A língua dele invadiu sua boca com fúria contida, como se precisasse marcar território ali. A mão dele desceu pelas curvas do corpo dela até alcançar o espaço entre as pernas — nu, quente e encharcado. Ela gemeu contra os lábios dele, tremendo. Ele não disse uma palavra. Apenas a fez gozar contra a parede da própria casa, com dois dedos e um olhar animalesco. Ela se contorcia, arfando. — Tá vendo? — ele murmurou, com os lábios colados ao ouvido dela. — Eu conheço cada milímetro seu. Te fiz gozar em segundos. Porque seu corpo é meu, Alicia. E eu não divido o que é meu. Ela empurrou o peito dele com força, o olhar ferido e confuso. — Você não pode aparecer e agir assim como se eu fosse sua. Ele sorriu de canto, com desprezo e desejo nos olhos. — Não precisa ser. Já é. Então virou as costas e desapareceu pelo portão lateral, sem dizer mais nada. Alicia ficou ali, encostada na parede, tremendo, o corpo ainda pulsando e o coração em guerra. Sabia que aquela história ainda estava longe de terminar. E ela já estava muito envolvida para fugir agora.
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