O silêncio no escritório de Rafael Calderon foi quebrado apenas pelo som da campainha. Era incomum alguém aparecer sem avisar. Ainda mais com um envelope de papel timbrado nas mãos.
— Boa tarde. Rafael Calderon? — disse o homem engravatado.
— Sim.
— Estou aqui para entregar isso. É relacionado a um testamento.
Rafael franziu o cenho. Pegou o envelope pesado, fechou a porta e rasgou o lacre com agilidade. Seus olhos percorreram cada linha com frieza habitual… até que algo o fez parar.
“Último testamento e desejo de Adelmo Toscani, tio-avô materno, sem herdeiros diretos.”
Rafael sequer sabia que esse homem existia. Nunca o ouvira mencionar na família. Mas o conteúdo era claro: o velho havia deixado tudo para ele. Casa, terras, contas, antiguidades, investimentos. O mais curioso? A exigência de que Rafael visitasse pessoalmente a propriedade, como forma simbólica de aceitação.
— Uma perda de tempo — murmurou ele. Mas algo dentro dele… curvou-se à curiosidade.
Dois dias depois, Rafael dirigia seu Audi preto por uma estrada particular cercada de pinheiros altos e espessos. Ao final dela, surgiu a mansão Toscani.
Era antiga, imponente, de pedra e madeira nobre, cercada por um muro de trepadeiras e jardins abandonados, mas ainda belos. A estrutura parecia saída de um romance gótico — ou de uma lembrança enterrada no tempo.
Ele foi recebido por um advogado idoso e educado.
— Senhor Calderon. Sinto muito pela perda, embora o senhor não o conhecesse. Seu tio-avô Adelmo era… reservado. Mas muito rico. E muito tradicional.
— Isso explica essa casa — murmurou Rafael, observando os vitrais coloridos da entrada, o mármore no hall e o cheiro forte de história antiga.
— Ele não teve filhos. Nunca casou. E dizia que o sangue precisava continuar em mãos “inteligentes e impiedosas”. Usou essas palavras.
Rafael ergueu a sobrancelha.
— Então ele me conhecia melhor do que eu imaginava.
Foram horas de documentos, assinaturas e formalidades. Quando finalmente ficou sozinho, Rafael decidiu explorar o lugar.
Subiu a escadaria de madeira, com os dedos deslizando pelo corrimão entalhado. A casa era grande demais para um homem só. Mas havia algo nela que… o atraía.
Ela o fazia lembrar de algo que ele nunca viveu, mas parecia reconhecer.
Passou por dois corredores até chegar a um quarto com cortinas leves balançando. A janela estava aberta. Ele se aproximou, distraído. E então, congelou.
No prédio vizinho, a menos de vinte metros de distância, uma garota dançava com os olhos fechados e a alma exposta.
Alicia.
Ele a reconheceu de imediato. Os cabelos vermelhos soltos. As sardas discretas nos ombros. O corpo jovem, apenas de calcinha preta e sutiã de renda. Ela girava lentamente, tirando a camiseta com calma, como se ninguém estivesse vendo.
Mas ele via.
E o corpo dele respondeu de forma selvagem.
Sua respiração ficou pesada. O coração acelerou. Os músculos do maxilar se contraíram.
Cada movimento dela era um convite silencioso ao inferno.
Alicia parou, inclinou a cabeça para o lado e desapareceu da vista ao entrar no banheiro.
Rafael afastou-se da janela como se tivesse sido flagrado. Passou as mãos nos cabelos, caminhou pelo quarto como um animal enjaulado.
Ele precisava daquela casa. Precisava daquela vista. Precisava… dela.
E agora, queria aquilo mais do que qualquer outra coisa.
⸻
ALICIA
— Você vai mesmo sair com esse vestido? — perguntou Mel, arregalando os olhos. — Você quer ser expulsa do curso?
Alicia sorriu, girando em frente ao espelho.
— O evento é formal. Não significa que eu não possa parecer deliciosa.
— Rafael Calderon vai estar lá. Sabe disso, né? — disse Júlia, jogando um sapato no sofá. — E ele parece já querer te devorar sem vestido nenhum.
— Ótimo. Hoje ele vai engasgar — respondeu Alicia, aplicando batom vermelho escuro com precisão. — Eu vou causar.
Ela estava cansada de fingir. Estava farta de lutar contra o que sentia desde a primeira aula: desejo. Bruto. Quente. Perigoso.
E se ele não agia… talvez ela devesse provocar até ele quebrar o próprio controle.
—
Mais cedo, ela estivera com Sofi e Lígia, cozinhando torta de frango e assistindo desenhos.
Mas assim que ficou sozinha, decidiu dançar. Colocou uma música lenta no fone, tirou a camiseta e deixou a luz da tarde invadir seu quarto.
Ela sentia a presença dele em sua mente, mesmo sem saber que, naquele instante, estava em sua mira.
—
No evento, Alicia entrou como uma deusa caída da noite. Vestido preto justo, f***a lateral, salto agulha, cabelo solto com ondas leves.
E Rafael Calderon, do outro lado do salão, parou de respirar.
Ele estava de terno escuro, a gravata levemente afrouxada, o olhar indecifrável. Conversava com o reitor, mas olhava só para ela.
Alicia sentiu o sangue ferver sob a pele.
Aquela noite ia mudar tudo.
—
RAFAEL
Ele estava furioso consigo mesmo.
Desde que viu Alicia pela janela, não conseguiu pensar em outra coisa.
E agora, ali, ela estava real. Linda. Selvagem. Pronta para ser pecado.
Mas ele não podia.
Não devia.
E mesmo assim… se aproximou.
No final da noite, a encontrou sozinha no jardim lateral, bebendo vinho branco.
— Srta. Alicia — disse, com a voz rouca.
Ela virou-se lentamente, sem se assustar.
— Professor Calderon.
— Está tentando me enlouquecer?
Ela riu.
— E se eu estiver?
— Cuidado — ele disse, se aproximando mais. — Eu nunca perco.
Ela o olhou como se pudesse despí-lo ali mesmo.
— Talvez eu goste de perder.
O ar ficou mais denso. O silêncio entre eles pulsava.
Rafael ergueu a mão, tocou o cabelo dela, deslizou os dedos pela nuca exposta.
E então, se afastou.
— Boa noite, Alicia.
Ela ficou ali, o corpo tremendo com um toque que não foi beijo, mas foi quase pior.
A guerra estava declarada.
E os dois estavam em chamas..