Capítulo 6

972 Words
O silêncio no escritório de Rafael Calderon foi quebrado apenas pelo som da campainha. Era incomum alguém aparecer sem avisar. Ainda mais com um envelope de papel timbrado nas mãos. — Boa tarde. Rafael Calderon? — disse o homem engravatado. — Sim. — Estou aqui para entregar isso. É relacionado a um testamento. Rafael franziu o cenho. Pegou o envelope pesado, fechou a porta e rasgou o lacre com agilidade. Seus olhos percorreram cada linha com frieza habitual… até que algo o fez parar. “Último testamento e desejo de Adelmo Toscani, tio-avô materno, sem herdeiros diretos.” Rafael sequer sabia que esse homem existia. Nunca o ouvira mencionar na família. Mas o conteúdo era claro: o velho havia deixado tudo para ele. Casa, terras, contas, antiguidades, investimentos. O mais curioso? A exigência de que Rafael visitasse pessoalmente a propriedade, como forma simbólica de aceitação. — Uma perda de tempo — murmurou ele. Mas algo dentro dele… curvou-se à curiosidade. Dois dias depois, Rafael dirigia seu Audi preto por uma estrada particular cercada de pinheiros altos e espessos. Ao final dela, surgiu a mansão Toscani. Era antiga, imponente, de pedra e madeira nobre, cercada por um muro de trepadeiras e jardins abandonados, mas ainda belos. A estrutura parecia saída de um romance gótico — ou de uma lembrança enterrada no tempo. Ele foi recebido por um advogado idoso e educado. — Senhor Calderon. Sinto muito pela perda, embora o senhor não o conhecesse. Seu tio-avô Adelmo era… reservado. Mas muito rico. E muito tradicional. — Isso explica essa casa — murmurou Rafael, observando os vitrais coloridos da entrada, o mármore no hall e o cheiro forte de história antiga. — Ele não teve filhos. Nunca casou. E dizia que o sangue precisava continuar em mãos “inteligentes e impiedosas”. Usou essas palavras. Rafael ergueu a sobrancelha. — Então ele me conhecia melhor do que eu imaginava. Foram horas de documentos, assinaturas e formalidades. Quando finalmente ficou sozinho, Rafael decidiu explorar o lugar. Subiu a escadaria de madeira, com os dedos deslizando pelo corrimão entalhado. A casa era grande demais para um homem só. Mas havia algo nela que… o atraía. Ela o fazia lembrar de algo que ele nunca viveu, mas parecia reconhecer. Passou por dois corredores até chegar a um quarto com cortinas leves balançando. A janela estava aberta. Ele se aproximou, distraído. E então, congelou. No prédio vizinho, a menos de vinte metros de distância, uma garota dançava com os olhos fechados e a alma exposta. Alicia. Ele a reconheceu de imediato. Os cabelos vermelhos soltos. As sardas discretas nos ombros. O corpo jovem, apenas de calcinha preta e sutiã de renda. Ela girava lentamente, tirando a camiseta com calma, como se ninguém estivesse vendo. Mas ele via. E o corpo dele respondeu de forma selvagem. Sua respiração ficou pesada. O coração acelerou. Os músculos do maxilar se contraíram. Cada movimento dela era um convite silencioso ao inferno. Alicia parou, inclinou a cabeça para o lado e desapareceu da vista ao entrar no banheiro. Rafael afastou-se da janela como se tivesse sido flagrado. Passou as mãos nos cabelos, caminhou pelo quarto como um animal enjaulado. Ele precisava daquela casa. Precisava daquela vista. Precisava… dela. E agora, queria aquilo mais do que qualquer outra coisa. ⸻ ALICIA — Você vai mesmo sair com esse vestido? — perguntou Mel, arregalando os olhos. — Você quer ser expulsa do curso? Alicia sorriu, girando em frente ao espelho. — O evento é formal. Não significa que eu não possa parecer deliciosa. — Rafael Calderon vai estar lá. Sabe disso, né? — disse Júlia, jogando um sapato no sofá. — E ele parece já querer te devorar sem vestido nenhum. — Ótimo. Hoje ele vai engasgar — respondeu Alicia, aplicando batom vermelho escuro com precisão. — Eu vou causar. Ela estava cansada de fingir. Estava farta de lutar contra o que sentia desde a primeira aula: desejo. Bruto. Quente. Perigoso. E se ele não agia… talvez ela devesse provocar até ele quebrar o próprio controle. — Mais cedo, ela estivera com Sofi e Lígia, cozinhando torta de frango e assistindo desenhos. Mas assim que ficou sozinha, decidiu dançar. Colocou uma música lenta no fone, tirou a camiseta e deixou a luz da tarde invadir seu quarto. Ela sentia a presença dele em sua mente, mesmo sem saber que, naquele instante, estava em sua mira. — No evento, Alicia entrou como uma deusa caída da noite. Vestido preto justo, f***a lateral, salto agulha, cabelo solto com ondas leves. E Rafael Calderon, do outro lado do salão, parou de respirar. Ele estava de terno escuro, a gravata levemente afrouxada, o olhar indecifrável. Conversava com o reitor, mas olhava só para ela. Alicia sentiu o sangue ferver sob a pele. Aquela noite ia mudar tudo. — RAFAEL Ele estava furioso consigo mesmo. Desde que viu Alicia pela janela, não conseguiu pensar em outra coisa. E agora, ali, ela estava real. Linda. Selvagem. Pronta para ser pecado. Mas ele não podia. Não devia. E mesmo assim… se aproximou. No final da noite, a encontrou sozinha no jardim lateral, bebendo vinho branco. — Srta. Alicia — disse, com a voz rouca. Ela virou-se lentamente, sem se assustar. — Professor Calderon. — Está tentando me enlouquecer? Ela riu. — E se eu estiver? — Cuidado — ele disse, se aproximando mais. — Eu nunca perco. Ela o olhou como se pudesse despí-lo ali mesmo. — Talvez eu goste de perder. O ar ficou mais denso. O silêncio entre eles pulsava. Rafael ergueu a mão, tocou o cabelo dela, deslizou os dedos pela nuca exposta. E então, se afastou. — Boa noite, Alicia. Ela ficou ali, o corpo tremendo com um toque que não foi beijo, mas foi quase pior. A guerra estava declarada. E os dois estavam em chamas..
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