Do mesmo jeito que entender a tecnologia de Vane me ajudou a conhecê-lo e tirar conclusões sobre ele, foi a mesma coisa com Marcus Thorne. Eu o conheci melhor através do que ele criou.
Há coisas escondidas ali, e pela sua resposta, foi proposital para deixá-lo “um passo a frente” dos outros de forma ilegal. Desleixo, raiva, era isso que os sistemas dele me mostraram.
Vê-lo, só reafirmou isso. Ele parecia tranquilo para alguém leigo, alguém que não está acostumado a observar, ou até para mim em algumas situações. Mas se reparar bem, era possível perceber no seu olhar para Vane que na verdade, ele foi consumido por ódio, inveja e rancor. Marcus tentava disfarçar, parecer que era alguém “superado”, mas ficou bem claro que não.
As farpas, os olhares, suas tentativas de provocar e desestabilizar Vane, Thorne é como uma bomba preparada para um homem só.
Sua queda do passado é conhecida. Eu sei que ele era o mentor de Vane, sei que foi assim que o conhecido nome Arthur Vane surgiu. Sei também que quando era mais jovem, ainda começando e sem tanto conhecimento, ele cometeu um erro que custou a carreira de Marcus por um tempo, uma falha no algoritmo.
Mas eu me pergunto, não era Marcus o mentor? Ele não deveria ter conferido antes?
E depois de ver os dois frente a frente, de pegar no ar alguns detalhes como o grito de Vane dizendo que impediu Marcus de ir parar em uma cela de prisão, me faz chegar a outra opção.
Depois que Marcus finalmente nos deixa, Arthur ainda está parado olhando os servidores, mas sei que seus pensamentos na verdade estão bem longe – talvez há uns dez anos de distância. Os meus pensamentos estão... Confusos.
A história não parece mais bater para mim, então, me aproximo dele. A central parece mais fria do que antes.
— Arthur... — Hesito, mas começo.
— Não — Ele me corta sem nem me dar tempo de continuar, sem virar em minha direção. Ele parece ter vestido uma armadura ainda pior do que usava no dia que o conheci, completamente fechado, trancado, gelado. — A visita acabou. Volte para o seu andar, Elena. Julian, acompanhe-a.
— Arthur, o que você quis dizer com “cela de prisão”? — Insisto, dando um passo em sua direção. — Se houve algo há dez anos que muda a avaliação de risco dessa fusão, eu preciso saber. Como sua consultora, eu...
Arthur se vira bruscamente. Seus olhos não estão mais frios, eles estão em chamas de uma raiva contida e uma dor que ele tenta sufocar aparentemente há uma década. Eu paro de falar apenas de olhar para ele, de assisti-lo queimando em minha frente como se pudesse colocar esse prédio abaixo com suas próprias mãos.
— Você é minha consultora para a fusão atual, Rios. Não para avaliar o meu passado. O que aconteceu há dez anos não importa para mais nada agora, está m.orto e enterrado. Deixe o passado onde ele está, não há nada que possa ser feito. — É tudo que diz, cuspindo as palavras com o rosto perto demais do meu, até a veia do seu pescoço piscando alterada, os olhos ainda pegando fogo e grandes.
Engulo seco, assistindo Vane dar passos largos para longe de mim, longe dessa sala, me deixando sozinha com Julian entre os servidores. Julian, que apenas assistia, aproxima-se de mim, o semblante também cansado como se alguns segundos dessa visita tivesse sugado suas energias.
— Ele não vai te contar, Elena. Nem hoje, nem nunca.
— Ele protegeu o Thorne? — A pergunta escapa, sem filtro, pela primeira vez há essa outra opção na minha cabeça. Encaro Julian, se Vane não vai me contar, eu terei que descobrir. — O Arthur assumiu a culpa pela falha da Aegis para salvar o mentor da cadeia?
Julian respira fundo, encarando as luzes LED azuis piscando, na direção dos servidores da Aegis. É como um sinal, um sinal de Marcus que está dentro da Vane Tech, da cabeça do próprio Vane.
— O Arthur é o homem mais leal que eu já conheci. O problema é que ele é leal a pessoas que não merecem. E Marcus Thorne sabe exatamente como usar essa lealdade contra ele, sempre soube. — Julian não diz com todas as letras, mas suas palavras me dizem exatamente o que eu preciso saber.
Arthur não errou naquele dia.
Ele estava protegendo seu antigo mentor, por uma lealdade cega.
É a primeira vez que alguém me surpreende acho que por toda a minha vida, qualquer um se surpreenderia conhecendo Vane. Sua postura fria, sua total distância das pessoas e falta de desejo de conviver com elas como se as odiasse, a aparência dele, suas palavras, ninguém nunca olharia para ele e pensaria que ele estaria levando essa única mancha em seu nome por causa de outra pessoa.
Ninguém nunca poderia imaginar que ele abriria mão da sua tediosa perfeição, por outra pessoa. E ainda mais, uma pessoa que não vale a pena, que está usando isso contra ele. Encaro a porta que Arthur acabou de sair, incrédula, a aparência de choque. O quebra-cabeça que era Arthur Vane acabara de ganhar uma peça nova, escura e complexa.
Eu não estou fazendo a auditoria comum de uma empresa, estou auditando o sacrifício de um homem. E para salvar a Vane Tech, me parece que terei que desenterrar a verdade que Arthur prefere sem jogar do penhasco a revelar.
•••
Eu já tenho uma resposta para Arthur, terminei a análise detalhada de todos os dados da Vane Tech e também da Aegis. Conheço as duas tecnologias, suas falhas, e as possíveis consequências do que pode acontecer quando as duas de fundirem caso a compra realmente aconteça. O trabalho que fui contratada para fazer, está acabando.
Não terei mais que me preocupar com Arthur Vane e a empresa dele. O que eu preciso fazer e que tenho responsabilidade é passar a verdade para ele. Mas eu sei que minha resposta não vai agrada-lo, em nada, é bem distante do que ele gostaria de ouvir. Pelo certo, essa fusão não pode acontecer.
Mas tendo feito meu serviço, se ele vai abrir a cabeça dura que ele tem e me ouvir, não é problema meu.
Reúno todas as informações principais em um arquivo e me preparo para encontrar Arthur em sua sala. Logo depois da visitação eu fui para o horário de almoço, e quando retornei vim para minha sala terminar tudo. Já passa das 16h agora e eu vou até o 60° andar. Mas quando passo pela porta vejo a sala vazia.
Vane não está aqui.
O homem que fica aqui até quase 23h trabalhando, não está aqui às 16h. O que aconteceu com esse homem?
Isso realmente mexeu muito com ele. O homem impenetrável tem uma fraqueza, uma fraqueza chamada Marcus Thorne.
Eu já entendi que Arthur assumiu um erro que não existe. Agora por que? O que Thorne fez de tão r**m que Vane teve que passar por cima até mesmo de sua lealdade inegociável? Isso eu ainda não entendi. Dez anos atrás eu não estava no mercado ainda, e depois, nunca se houve uma suspeita de que havia algo por trás daquilo. Vane tinha cometido um erro amador, Thorne faliu, e isso foi a única verdade por muito tempo.
Para alguém que trabalha com números, códigos, algoritmos, cometer um erro é inaceitável, uma mancha. Mesmo o menor dos números, apenas um deles, se colocado na ordem errada pode ser um erro simples de resolver, mas ainda é um erro, algo que está atrapalhando, impedindo de chegar ao objetivo.
Mas se o erro for grande a ponto de apagar todo um projeto, sem chances de recupera-lo, de consertar o que está quebrado, isso é uma vergonha que o acompanhará para sempre.
Essa é a vergonha que Arthur carregará para sempre.
E além disso, seu erro resultou em mais que a destruição de um projeto importante, resultou na destruição da vida corporativa de alguém que era importante para ele e sua falência.
Não posso imaginar a culpa que ele carrega.
E nesse momento, me preocupo.
Por isso, pego meu celular e faço uma ligação para Julian imediatamente. Ele precisa saber que Arthur sumiu, e espero que saiba para onde, assim pode garantir que o amigo esteja em segurança.
Ligação on ~
— Julian? Sou eu, Elena. — Respiro aliviada quando ele atende.
— Olá, Rios. Que surpresa agradável... Aconteceu algo? — Sua voz é tranquila por enquanto, apenas prestativa.
— Vane não está na empresa. Sabe se ele tinha alguma reunião ou compromisso importante que precisou sair mais cedo?
— Não sou eu que cuido da agenda dele, então, não sei de todos os compromissos. Mas, acredito que se fosse algo realmente importante a ponto de tira-lo da empresa, eu saberia. — Pensa.
— Então é realmente estranho ele ter ido embora?
— Com certeza, Arthur mora nessa empresa. Mas não se preocupe, Elena, ele ficará bem. Com certeza só precisa de um pouco de tempo. Fazia um tempo desde o último encontro com Thorne, as negociações estavam em andamento a distância. — Sua voz se torna pesada agora, como se sentisse muito pelo amigo mas fosse a dura realidade onde não podemos fazer nada. — Foram anos difíceis no passado, ver Thorne traz todas essas lembranças.
— Por isso temos que encontrá-lo. Não podemos deixa-lo sozinho agora, Julian, é arriscado. — Pessoas costumam fazer coisas idi.otas quando estão tristes ou quando não estão pensando direito. — Você tem ideia de onde ele possa ter ido?
— Eu não, Vane não é muito de sair para noitadas, não sei exatamente que bares frequenta... — Tenta pensar. — Ele costumava encontrar... bom...
— Diga, Julian. — Incentivo, sem paciência para vê-lo enrolar.
— Ele tinha uma amiga, ela nos conhece desde a época do...
— Meu Deus, Julian! — Grito, perdendo a paciência.
— Não importa a época, mas faz muito tempo. As vezes ele precisava gastar energia e distrair a mente, ele a chamava para um hotel. O relacionamento deles nunca passou disso, Vane liga, ela vai. — Explica. Oh, entendi o que quer dizer.
Então ele está com uma mulher em um hotel, uma que larga tudo por ele. E eu aqui, preocupada. Devo estar realmente virando uma idi.ota.
Fico em silêncio por um tempo, tentando assimilar as informações. Eu não sei dizer porque a ideia me deixa irritada, parece que há algo amargo na minha garganta a ponto de fazer um nó difícil de engolir. Não é nada além de uma sensação de que eu fui uma burra mesmo, achando que ele estava triste, sozinho, sem apoio.
— Entendi, faz sentido. — Sou seca. — Acho que ele já tem o apoio que precisa então.
— É uma teoria, apenas isso. Ninguém consegue entender a mente de Arthur. Talvez ele nem esteja lá, talvez esteja, mas sozinho, eu não sei ... — Faz uma pausa, eu engulo seco, engolindo junto o ódio que eu nem entendo o porquê estou sentindo. — Caso queira conferir, te mandei o endereço por mensagem.
— Obrigada, mas não será necessário. — Forço a voz. — Obrigada pelas notícias, Julian, fico mais tranquila. Acho que meu expediente acabou também por hoje então.
— Sim, descanse. Nosso dia foi difícil hoje. Até amanhã, Rios.
— Até, Julian.
Ligação off ~
Quando desligo o telefone, encaro a cadeira vazia de Vane. Normalmente essa poltrona está sempre preenchida, a sala inteira está, com a sua presença forte, seus olhos poderosos e marcantes, seu cheiro que é como uma dr.oga que me entor.pecesse. Respiro fundo, dou as costas, e vou embora da Vane Tech.
Entro no meu carro e começo a dirigir, uma música tocando, o celular no banco do carona, que alguns minutos depois acende com a notificação. Desvio o olho por alguns segundos da estrada e estreito os olhos, lendo.
“Vá, Elena.” — Julian.