Faz tempo que a empresa parece mais distante do funcionamento normal. Todos aqui sabem muito bem o que precisam fazer, é tudo muito certo e coreografado.
Hoje, parece que um furacão está prestes a atingir a empresa e todos sabem disso. A chegada de Marcus Thorne parece deixar todos nervosos.
Pedi que Julian converse um pouco com os funcionários e os tranquilize. Eu estou na sala revisando tudo e treinando meus nervos numa tentativa de não me descontrolar quando as provocações começarem – e elas vão.
— Sr. Vane. — Elena entra na sala, a porta dando espaço a ela. Sua voz sempre calma, macia. Eu subo meu olhar por ela, que logo hoje escolheu um vestido ao invés de um terninho.
— Olá, Rios. — Aceno de volta.
Elena está usando um vestido azul claro, a cor parece combinar perfeitamente com ela e seus cabelos loiros. O vestido é digno de trabalho, midi, justo e sério, há apenas um leve franzido do quadril até sua cintura. A gola ombro a ombro, dando um ar de sensualidade e feminilidade que ela claramente não abre mão. Os cabelos estão com uma parte presa novamente, brilhando, emanando cheiro. Desvio o olhar.
— Pronto? — Senta na frente da minha mesa, em uma das poltronas de couro.
— Claro. — Dou de ombros. — Por que não estaria?
— Seu mentor me parece... um homem perturbado. — Franzo o cenho.Ela nem o conhece.
— Ex mentor. — Lembro. Eu não sou mais um garoto que precisa ser ensinado. — E por que acha que ele é um homem perturbado?
— A tecnologia diz muito sobre ele. — Ela não é muito específica. Eu até penso em prolongar o assunto, tentar entender melhor, o que essa fala significa para a fusão. Mas a porta da minha sala volta a se abrir, e vejo Thorne se aproximando.
Verifico as horas na tela do meu notebook.
Elena olha para trás, também observando Marcus Thorne entrar na minha sala como se fosse dono disso aqui. Em seu olhar, qualquer um consegue perceber o que há naqueles olhos, não é admiração, é inveja, é algo como: “Isso aqui deveria ser meu”.
— Olá, garoto. — Thorne se aproxima de mim, estendendo a mão e colocando um sorriso no rosto. Me mantenho sério, ficando de pé apertando sua mão. Thorne é mais baixo, mais magro, mais velho, mas é um homem arrumado. Sua voz é cheia de uma falsidade profunda que convence os investidores a pularem de penhascos por ele. — Gostei da decoração, um pouco frígida para o meu gosto, mas acho que combina com você.
— E você está adiantado. — Ainda falta quinze minutos para o horário marcado.
— Estou? Eu nem percebi. — Dá de ombros, olhando o relógio preso no pulso como se isso não fosse planejado. Mas eu o conheço bem, eu sei que ele marcou um horário e chegou antes de propósito, tentando me pegar de surpresa fazendo algo contra ele. — Mas a vida é curta demais para nos prendermos a um cronograma, não acha? — E então Thorne vira para o lado, levando os olhos até Elena, que ainda está sentada apenas observando a interação entre nós, acredito que decidindo algo sobre Marcus e eu. — E esta é a Srta. Rios, a mulher que está buscando fantasmas em meus servidores.
— Fantasmas? Não, Sr. Thorne. — Elena ergue a cabeça, mantendo-se calma e as pernas cruzadas. — Estou procurando suas falhas, erros, cada um deles.
— Não há nada para procurar, Srta. Rios, a resposta é simples. Arthur Vane me venceu, pela segunda vez. Se eu não conseguir a fusão, provavelmente vou a falência novamente, e é por isso que estou engolindo meu orgulho para vender minha empresa para um homem como ele. — Tenta convencer Elena, que permanece séria. Ela fica de pé, os olhos franzidos em sua investigação silenciosa.
— Deixe que eu decido isso. — É direta.
— Encantadora. — Marcus sorri, e então olha para mim. — Enfim, vamos ao que interessa, quero ver o seu “berçário” de última geração. Quero ter certeza que estou deixando meu legado em boas mãos.
Aceno para Elena que começa a caminhar ao meu lado, Marcus nos segue até o elevador. O clima é tenso, nós três em silêncio, um olha para o outro como se estivéssemos em um campo de batalha. Elena sempre observadora, analisando nossa postura corporal. Thorne parece tentar entender melhor sobre mim e a minha nova contratação intrigante.
Julian tinha razão eu acho, trazer Elena foi uma boa opção. Eu tive receio no início, a ideia de contratar Elena seria como um tipo de arma secreta para essa fusão, garantir que aconteça e de forma segura. Então pensei, é inteligente colocar a minha arma secreta na mesa?
Eu tive dúvidas de colocar o meu coringa para jogo.
Talvez, joga-lo tenha sido uma boa opção.
A forma que Thorne olha para Elena, como se a temesse, se soubesse o que dizem sobre ela e a forma que ela se comporta, ela o assusta. Ele sabe que eu não estou sozinho nessa. Meu time está pronto. E para completar o time, Julian está esperando na sala dos servidores. Chegando lá, a fileira de servidores brilham com a luz led azul, no centro, isolados por uma parede de vidro à prova de som, está a parte que me foi cedida da Aegis Systems para testarmos.
Elena e eu seguimos da frente, eu estou tenso, admito, como se eu esperasse um golpe físico a qualquer momento. A cena dele me agarrando pelo colarinho, os olhos vermelhos, nervoso, insistindo para lançar uma ar.ma, não sai da minha cabeça. Já Marcus está tranquilo, olhando o que ele chamou de meu “berçário de última geração “.
— Sterling. — Thorne acena para Julian, que apenas dá a ele um sorriso de nojo, sem esconder que não o suporta.
— Seja menos expressivo, meu amigo. — Me aproximo de Julian.
— Cale a boca Vane, estou tentando não m.ata-lo. — Julian se controla realmente, é perceptível, a cara feia, a postura contraída, os pulsos cerrados. Eu prendo o riso, mas paro de achar graça quando vejo Marcus parado ao lado de Elena.
— Srta. Rios... — Thorne começa, olhando através do vidro assim como ela, visivelmente encantada olhando o que tenho aqui. Ele para ao lado de Elena e eu fico de longe, apenas assistindo. — Arthur foi o meu melhor aluno. Ele tinha uma mente que via sucesso onde outros viam lixo. Era incrível o que ele podia construir com o que outros achavam que era descartável, um erro, algo a ser apagado. Mas ele sempre teve um defeito, ele achava que era o mais inteligente de todos nós.
— Talvez ele tenha razão, mais inteligente e mais honesto. — Corta.
Thorne parece ter sentido a resposta, sendo levado para o que aconteceu entre nós. Aquela barreira sempre vai existir e na verdade, é o principal impessilio dessa fusão. Marcus vira para mim, os olhos se tornando escuros, a expressão séria. Eu caminho até eles e paro do outro lado, deixando-o no meio entre Elena e eu. Coloco minhas mãos no bolso, também encarando a frente. Ele vira em minha direção, posso sentir seu olhar, me estudando, amaldiçoando.
— Foi por isso que você me traiu há dez anos? Por honestidade? — Ele não aguenta evitar esse assunto. Respiro fundo, tentando manter a calma e ser profissional do jeito que consigo devido a circunstância. — Você destruiu tudo , me destruiu, porque achou que o seu julgamento era melhor que o meu. E agora, aqui estamos nós... você tentando comprar os restos do que eu criei com o dinheiro que ganhou usando o que eu te ensinei.
Travo. Tudo bem, Thorne me ensinou muito, eu sou grato pelo que ele fez, mas eu não me tornei quem eu sou por causa dele. Eu teria conseguido, de um jeito ou de outro, eu teria chegado no topo. Mas ele faz questão de dizer que não, é o que ele pensa, que eu sou ingrato, traidor, e devo algo a ele. O que ele nunca entendeu é que eu salvei o nosso país, e ele também.
— Sr. Thorne, notei algo estranho nos protocolos de proteção de dados da Aegis. Há um “batimento” recorrente que não muda, fica se repetindo. Poderia nos explicar a função desse número lá? — Quando eu estava prestes a responde-lo, Elena intervém, trazendo a atenção para o verdadeiro motivo dessa visita e o que realmente importa no momento.
Elena evita que isso se torne uma luta entre Thorne e eu e ao mesmo tempo me dá uma informação nova, coisa que ela veio negando durante esses dias, dizendo que precisa de mais tempo antes de ter uma resposta concreta. Thorne vira para Elena, e por um momento, a máscara de mentor bondoso cai, revelando o homem que quase foi preso se eu não tivesse feito alguma coisa.
— É a alma da máquina, minha querida. Algo que o Arthur nunca vai entender. Ele acha que pode simplesmente remover as partes que ele não gosta da minha IA e ficar com o brilho. Mas a Aegis sou eu. Se ele me levar para dentro, ele leva tudo. — Sua resposta não me surpreende.
Eu sei que há coisas obscuras ali, erros, que se não forem corrigidos podem ser um problema. Mas o maior erro de Thorne é achar que eu não posso corrigir esses erros, que eu não vou arrancar cada centímetro dele de dentro do que vier para mim.
— Eu não vou te levar para dentro, Marcus. Você vai receber o seu cheque e vai se aposentar em algum lugar onde não possa mais ferir ninguém com a sua negligência. — Eu o parei uma vez, e vou parar de novo.
— Negligência? — Thorne sorri, irônico e incrédulo. — Eu te dei tudo, Arthur! Eu te tirei da mediocridade! E você me deu as costas quando eu mais precisei.
— Eu te salvei de uma cela de prisão, por.ra! Tenho uma mancha em meu nome por ter te protegido aquela noite, mas eu o fiz, por você, seu idi.ota. — Não consigo controlar o grito, a raiva me descontrolando. O som da minha voz ecoa pelo corredor de metal, silenciando o barulho dos servidores.
O silêncio se torna constrangedor. Elena cresce os olhos, sem entender o que eu quero dizer com isso. Julian, ao fundo, suspira pesado. Só então percebo que pela primeira vez falei em voz alta, na frente de outra pessoa que não Julian e Thorne, o que realmente aconteceu há dez anos. Recuo, evitando falar mais, colocando uma expressão dura no rosto, mas o estrago está feito.
Thorne sorriu, um sorriso lento e triunfante.
— Veja só... o herói. Srta. Rios, tenha cuidado. Arthur tem o hábito de achar que está salvando as pessoas enquanto as leva para um buraco. Continue cavando, senhorita, vai achar informações interessantes sobre seu querido Vane. — Thorne caminha até a saída, parando ao lado de Elena por um segundo antes de sair. Ela nem olha para ele, me encarando, pensativa.
Engulo seco, evitando retribuir seu olhar.
Eu não quero que Elena entre na minha cabeça, não agora. Mas ela é inteligente demais para eu engana-la.