Depois das cinco da manhã a Vane Tech religou os computadores, os servidores reiniciaram, as luzes voltaram, e as persianas subiram de volta.
Tudo estava no seu lugar. Depois de uma noite em claro bastante interessante, voltei para casa para tomar um banho, trocar a roupa, tomar um café da manhã reforçado e uma aspirina antes de retornar para a empresa.
Pela primeira vez na minha vida eu tenho mais que algoritmos em minha cabeça. Eu não consigo parar de pensar naqueles olhos castanhos, na língua afiada me convidando para um desafio, na mente intrigante que essa mulher tem. E para completar, eu me lembro dos dedos dela deslizando na minha mesa antes de segurarem a garrafa de whisky, a respiração, a voz calma, a forma que ela cruzou as pernas.
Tiro os pensamentos da minha cabeça como se eu estivesse cometendo um pecado, terminando de estacionar meu carro na vaga privada, antes de ir para o elevador que me leva até o topo da empresa. Tudo é feito para otimizar o meu tempo, e eu preciso aproveitar, não ficar distraído com coisas tão... desnecessárias.
Quando entro na minha sala parece que algo está diferente, olho os quatro cantos, penso um pouco e fecho os olhos tentando lembrar. O cheiro.
O cheiro aqui está diferente.
Inspiro, enchendo meus pulmões de ar.
É o cheiro dela.
— Problema. — Resmungo, caminhando até minha mesa e já abrindo o computador. Ainda há muito que preciso organizar para a apresentação da semana que vem.
Vou para a Itália, apresentar minha tecnologia a alguns compradores que querem adquiri-la, serão alguns dias fora, longe dela. É bom para colocar a cabeça no lugar. Logo em seguida, terei uma reunião importante com os acionistas – até lá, acredito que a mulher problema já terá encontrado a solução para mim.
Aproveito o silêncio para pensar, calcular, brincar com meus algoritmos usando o teclado do notebook. Eu estou na minha área, estou em paz. Até que...
— Você não tira folga mesmo, não é? — Julian entra na minha sala, como sempre, com aquele sorriso insuportável no rosto.
Minha cabeça ainda dói da noite em claro, apesar da aspirina. Estou com a paciência menor do que costuma ser, mas trabalhando sem parar para que tudo funcione como deve ser. Mas ainda assim, Julian acha que é uma boa ideia encher a por.ra do meu saco.
— Vá embora, Julian. — Eu sei que não sairá nada que preste da boca dele, e sei também sobre o que ele quer falar.
— É assim que você recebe o seu amigo? Vamos lá, Vane, você consegue fazer melhor do que isso.
— Julian, você não pode pelo menos um dia na sua vida não vir testar a minha paciência logo pela manhã? Você tem sua própria sala, e com certeza, trabalho a fazer. — Retruco, sem me dar ao trabalho de olhar para ele novamente.
— Eu tenho, mas queria vir ver como você está depois do lookdown. — Aí está, chegamos onde ele queria. — A sala está com cheiro de whisky caro e perfume feminino. Vamos Vane, o que você fizeram a noite inteira? Ficaram com o papo chato e sem sentido da Aegis ou jogaram “Verdade ou desafio “?
O que tem na cabeça desse idio.ta? Por Deus, o homem já passou dos trinta. Reviro os olhos. Se eu o conheço bem, Julian não vai me deixar em paz até eu dar ao menos um pouco do que ele quer.
— Nós conversamos e só, Julian. — Mantenho a voz calma, mostrando que não tenho nada a esconder. — Por sinal, Elena tem teorias bastante peculiares ligados ao comportamento humano.
— Peculiar... — Comenta pensativo, mais para si mesmo. — Eu te conheço desde que éramos moleques em um abrigo de órfãos. Você nunca usou essa palavra para definir ninguém, nem mesmo seu adorado mentor, Thorne. Isso quer dizer que eu tinha razão, não é? Ela entrou na sua cabeça.
— Ninguém entrou na minha cabeça, Julian, meu cérebro está ocupado demais com coisas realmente úteis. — Retruco.
— O que ela disse? — E claro, Julian ignora, como se nem tivesse ouvido. Engulo seco, olhando para a parte da mesa onde Elena esteve sentada, bem ao lado do notebook, e tão perto de mim.
Lembro do sorriso dela, das minhas mãos ao lado do seu corpo e de quando me aproximei. Me lembro dos olhos castanhos me encarando, cheios de certeza. Ergo uma sobrancelha e levanto a cabeça, dando de cara com Julian me encarando com uma expressão estranha, investigativa.
— Que a minha vida é chata que eu sou um livro que ninguém leria. — Será que isso é o bastante agora? Eu o encaro, vendo o choque misturado a um certo divertimento nos olhos dele.
Desg.raçado.
— Ela não está totalmente errada, mas... Ela realmente acabou com você, Vane. Parece que você está perdendo feio esse jogo. — Provoca.
— Eu juro por Deus que vou te demitir se não sair da por.ra da minha sala, agora — Rosno, sentindo a veia da minha têmpora latejando de tanta raiva. Isso também é novo para mim, certas emoções como descontrole também não é algo que eu costumo experimentar. A forma que Julian me encarando mostra que ele também sabe disso.
— Tudo bem, eu vou. — Julian volta por onde entrou, caminhando despreocupado em direção a saída. — Antes de ir, me lembrei porque eu vim aqui. Thorne ligou, ele antecipou a visita aos nossos servidores, ele estará aqui na empresa amanhã às 11h.
Conserto minha postura, assumindo novamente um comportamento de CEO, sem distrações. É nisso que preciso focar. Eu estou prestes a chegar em um patamar inigualável com essa fusão, e ao mesmo tempo, consertar as coisas que aconteceram no passado.
— Nenhuma piadinha, nem insistência para que eu desista?
— Quer destruir seu império, tudo bem. Vá em frente, Vane. — Dá de ombros. — Mas lembre-se, Marcus Thorne é um homem inteligente, ele sabe que algo mudou. A contratação de Elena Rios já deve estar correndo por aí. Talvez, devesse usar um contra ataque.
— Contra ataque?
— Ele sabe o que desestabiliza você, mas agora, você tem algo que pode desestabiliza-lo de volta. Ou melhor, alguém. — Entendo o que ele quer dizer. Julian sai da sala, me deixando sozinho com meus neurônios que espero que não estejam danificados logo agora que preciso deles.
Além da preparação com a viagem, mais essa, Marcus Thorne estará aqui na Vane Tech amanhã. Isso não me deixa inseguro por ele ter sido meu mentor, é claro, eu superei o mestre há muitos anos atrás, muito antes de rompemos. Marcus é desleixado, desconhece lógica, não se atualiza, eu não tenho nada para me preocupar.
Mas por conta do que aconteceu entre nós, vê-lo é sempre um incomodo e traz um nó em minha garganta. Respiro fundo.
•••
É tanto trabalho que passei o dia a base de café e aspirinas. Mas nada que eu já não tenha feito antes – com muita frequência – ou que eu não esteja acostumado.
Mas vez por outra minha mente me levava a alguns andares abaixo. Eu não a vi hoje.
Será que Elena veio a empresa?
Depois da noite em claro eu a liberei, disse que poderia tirar o dia de folga. Mas ela me perguntou se eu tiraria folga. Como faria isso? Essa empresa depende de mim para funcionar.
Isso quer dizer que ela também está trabalhando hoje apesar do cansaço?
Pego no telefone, mas paro antes de digitar o número do celular da empresa que fica na sala dela. Que dia.bos eu estou fazendo?
Tento deixar os pensamentos de fora.
Mas lá estão eles, sempre a um fio de voltar até ela.
Fico algumas vezes pegando no celular, tentado, desistindo. Umidifico os lábios secos, pensando seriamente em acessar as câmeras pelo notebook e ver se ela está aqui, mas me acho tão patético por estar fazendo isso que tento evitar. Eu fujo, focado em completar meus ajustes na tecnologia, mas eu me convenço que conferir nas câmeras é melhor do que ligar diretamente para ela.
O que eu diria?
Abro as câmeras. Eu sou o dono essa empresa, tenho total direito de saber se meus funcionários vieram trabalhar ou não. Isso não é nada demais.
Quando acesso a sala de Elena, eu a encontro lá, sentada na poltrona e tão concentrada que uma ruga se forma eu sua testa e ela segura uma caneta tinteiro entre os lábios. Ela está com outro terno hoje, também milimetricamente alinhado, de cor rosa claro, uma blusa branca em decote “V” por dentro. Seus cabelos estão totalmente soltos, brilhando até pela câmera.
Engulo seco e fecho a tela do notebook.
Preciso pensar em outra coisa, sim, os servidores. Preciso verificar como estão os servidores para a verificação com Thorne amanhã. Por isso, saio da sala e vou até o elevador, mas quando dou por mim, estou descendo e saindo pela porta ainda no andar 57.
Faz muito tempo que eu não venho aqui, por isso, quando passo em direção a sala de Elena eu sinto todos os olhos em mim, mas sigo caminho como se não percebesse.
Quando o sensor da porta ativa Elena me encara antes mesmo de eu entrar, trazendo os olhos até os meus.
— Bom dia, Rios. — Aceno para ela.
— Sr. Vane. — Cumprimenta, mas a expressão mostra que não entende a minha visita, mesmo assim, Elena não pergunta.
O clima se torna estranho com o silêncio que sucede, eu mesmo não sei o que estou fazendo aqui e nem por onde começar. Eu tento chegar a uma desculpa rápido, mas não tenho nenhuma ideia mirabolante, apenas o básico.
— Eu te dei folga. — Isso era algo que exigia descer até aqui para vê-la? Não sei, mas é alguma coisa.
— Eu tenho bastante trabalho, não precisava de folga, você e eu tivemos o mesmo tempo e você está aqui. Por que eu deveria estar descansando?
— Faça como quiser. — Tudo bem, desisto.
Percebo mais ainda o grande erro que cometi quando vejo o sorriso nos lábios dela.
Desconfortável, cerro os punhos, olhando para a parede atrás dela e pensando se seria melhor sair em silêncio e fingir que isso não aconteceu, ou ficar aqui parado em silêncio como um idi.ota.
— O que quer, Vane? — Com um sorrisinho curioso, ela finalmente pergunta, e eu ainda não tenho uma resposta.
— Amanhã Marcus Thorne estará na empresa para verificar os servidores principais, você irá descer até lá comigo. — Aviso, aceitando a sugestão de Julian que nem sei se é uma boa ideia, mas é um bom motivo para ter vindo até aqui.
— Que? Por que? Por que eu tenho que acompanhar? Eu não fui contratada para lidar com servidores.
— Mas irá. — Afirmo. — Esteja na minha sala amanhã antes das 11h.
Também não precisarei arrumar uma desculpa para vê-la amanhã.