CAPÍTULO 05 — ELENA RIOS

1976 Words
— Quer saber ? Seu “Protocolo Blindagem” ou destruição sei lá o que é um tédio. Seis horas para reiniciar? — Desabafo, não se passou nem uma hora ainda que estamos presos aqui, graças ao que o relógio analógico do meu pulso diz e eu já estou pensando em quebrar esse vidro e me jogar parede abaixo. — Se você me desse acesso ao seu terminal pessoal e eu tivesse pelo menos um notebook funcionando, eu conseguiria reverter isso em dez minutos. — Em primeiro lugar, eu já disse que a autodestruição não foi ativada, não comece a surtar. Em segundo lugar, eu tenho tecnologia perigosa demais aqui para ficar vulnerável a ataques. Eu não deveria nem ter que explicar isso. — Arthur serviu um segundo copo de Whisky para si, sentado em sua poltrona grande e com a garrafa já sobre a mesa. Ele nunca dá o braço a torcer, mas eu admito em silêncio que ele tem razão. É importante proteger o que ele tem aqui. — Em terceiro lugar, você não iria tocar no meu terminal mesmo com um notebook. Então, relaxe, Rios. Considere isso um exercício de paciência. Você parece precisar. — O que quer dizer com isso? — Franzo o cenho, ofendida. Arthur sorri enquanto serve whisky em outro copo e desliza sobre a mesa, jogando a bebida para mim, que estou sentada do outro lado. — Você entendeu. — Mantém os lábios com uma curva perigosa. — Beba um pouco, vai ajudar. — Whisky... — Aceito o copo. — Então esse é o seu truque, Vane? Você planeja ficar bêbado, tentando me deixar bêbada ou me impressionar? — Eu não tenho truques. E acredite, a última coisa que eu planejaria era ficar bêbado com você. — Também não entendo o que ele quer dizer, mas não sei se é uma boa perguntar o que ele está tentando dizer. — Então é me impressionar? — Retruco. — Se eu quisesse impressionar você, Srta. Rios, acredite, não seria o whisky que eu usaria. Eu não precisaria de álcool para isso. — Suas palavras me fazem congelar por um momento, algo em mim esfriando, percorrendo minha espinha em um frio diferente. Não é físico, é impalpável. Engulo seco , firmando meus olhos para que ele não perceba a interrogação em minha cabeça enquanto me pergunto o que ele usaria, curiosa. — A questão agora é que o prédio está selado. Ninguém entra, ninguém sai, sem Wi-Fi, sem notebooks, sem algoritmos. Estamos em um deserto digital. Viro o copo de whisky, agradecida por ele mesmo ter continuado a falar e sorrio de lado. — Um deserto digital. Acredito que um pesadelo para alguém que não sabe como ter uma conversa humana sem um gráfico de Power Point ou uma planilha do Excel para dar a ele tudo detalhado. — Eu sou perfeitamente capaz de manter uma conversa, Rios. — Arthur retruca, aparentemente ofendido. Ele se recosta na cadeira e me observa com uma intensidade irritante. D.roga, eu descobri algo que odeio nele além do ego alto e a total incapacidade de abaixar esse nariz, esses ma.lditos olhos. Eles são azuis, gélidos, profundos e perigosos. É como se te fizesse sentir que vai melhorar no oceano, mas não qualquer oceano, é como mergulhar no antártico. É frio, você se perde na escuridão, e a qualquer momento pode se bater em um iceberg e mor.rer. — Só acho que, na maioria das vezes, uma conversa não é o melhor uso de tempo, de palavras, nem de raciocínio. Pelo menos dependendo de como quem a gasta. Nem sempre é eficiente. — Eficiência. — Reviro os olhos. — Você deve ser muito divertido em festas, Vane. — Eu não vou a muitas festas, felizmente, a maioria são eventos, jantares de negócios, ou quando eu não posso evitar. Eu normalmente estou ocupado movimentando os próximos dez anos da economia do país. — Pelo amor de Deus, ele realmente se acha um ser onipotente. Sorrio. — Oh, claro. — Fico realmente curiosa com Arthur, o homem iceberg, Deus da lógica e da tecnologia. Muito bom com algoritmos, números e estatísticas, mas péssimo em relações humanas. Me pergunto como alguém realmente pode viver assim. — Você já se apaixonou, Vane? Arthur engasga, tossindo seco, me divirto com a cena. Sorrio, jogando meu copo sobre a mesa e acenando. Ele entende o recado e me serve mais um pouco da bebida, enquanto ainda está com aquela expressão assustada no rosto. Como eu previ, péssimo em qualquer relação ou conversa que envolva humanidade. — Não. Paixão é apenas dopamina. Uma poesia i****a que inventaram para confundir nossos cérebros. — Ele dá de ombros, se achando muito superior para tal sensação. — E você, já se apaixonou ou acredita nessa baboseira? Bebo novamente meu Whisky, então fico de pé, pensativa. Dou uma caminhada na sala, olhando o teto, Arthur me assiste deslizar sobre seu piso em silêncio. Os olhos dele não me abandonam a cada passo, analisando até minha respiração com uma expressão intrigada no rosto. Coloco um sorrisinho nos lábios e caminho até ele, sentando na sua mesa, e o encarando. Arthur engole seco. — Você fala sobre paixão como se fosse um vírus, Vane. — Começo, mantendo a voz baixa e os olhos nos dele. Arthur me olha assustado, o que me incentiva a continuar. Por que ele tem tanto medo de mim? — Para mim, a paixão é perigosa e por isso é tão interessante. Me atrai. Exatamente por isso é que nós somos tão diferentes, Arthur. — Deslizo os dedos pela mesa dele, fazendo-o se mexer inquieto na cadeira. Eu encontro a garrafa de Whisky e dessa vez, eu mesma sirvo nós dois. — Porque enquanto você tem pavor de algo como a paixão apenas porque não pode controla-la, eu a vejo como um desafio delicioso. E se eu já me apaixonei? Bom... — Cruzo as pernas, vendo o olhar dele involuntariamente descer para as minhas coxas. — Já iniciei algumas partidas, mas nunca encontrei um oponente digno. — Quer jogar comigo, Elena? — Arthur fica de pé, me obrigando a olhar para cima e julgo que seja a primeira vez na vida que ele abaixa a cabeça, olhando para baixo, para mim, me encarando no fundo dos meus olhos. Suas mãos param ao meu lado, uma por uma, segurando a borda da mesa. — Você não suportaria, Vane. — Sussurro, o cheiro de whisky caro tomando conta, a escuridão da sala se mistura a led carmesim. Arthur aproxima o rosto do meu, e admito, eu nunca me senti tão viva. Meu coração começa a bater, meu corpo vai amolecendo, ficando dormente, enquanto ele parece ir ficando ainda maior, mais forte. Arthur é um homem grande, ele é exatamente como um arranha céu, 1,95 de altura, com bíceps enormes, barriga e costas tão definidas que o tecido da camisa não pode esconder, e todo o corpo proporcional. Além de tudo, um rosto perfeito com a barba por fazer como moldura. Não importa o quão preparada eu sou para um jogo com um homem como ele, eu ainda sou uma mulher. Mas não importa o quanto ele esteja mexendo comigo, ele não saberá. — Acho que eu te surpreenderia, Rios. — Ele sussurra em meu ouvido, a respiração batendo na minha nuca. Fecho os olhos, controlando a respiração e me mantenho firme, mesmo sentindo meus pelos se eriçarem na hora. — Não se superestime tanto. — Eu o empurro para longe e saio da mesa, voltando a jogar meu corpo sobre a poltrona. Essa história acabou saindo do controle. Eu sei, somos duas pessoas do se.xo oposto, atraentes, que gostam de jogar e disputam controle. Era lógico que isso iria explodir facilmente. Mas ainda assim, é preciso lembrar que há limites que não podemos cruzar aqui, até porque, eu não gosto de me envolver no trabalho. Além disso, eu não sei se posso confiar nas arm.as de Arthur. O tempo vai passando tão lentamente que é quase um martírio, eu deito na poltrona, uma tentativa de ter algumas horas de sono – tenho certeza que não terei folga amanhã e nem quero, preciso continuar de onde parei. Mas não importa o quanto eu tente, não consigo dormir. Não sei se é a ansiedade, a sensação horrível de estar trancada no topo dessa bomba relógio, ou se é apenas a presença de Arthur na mesma sala. Só sei que a minha cabeça se recusa a colaborar comigo e desligar. — Você é sempre assim? — Arthur rompe o silêncio, provavelmente sem conseguir dormir também. Viro a cabeça para ele, esperando que complete a frase. Assim como, eu me pergunto, confusa. — Tão... barulhenta em suas conclusões? — E você? É sempre assim? Tão... metódico? Você parece o tipo de quebra-cabeça que a maioria das pessoas desiste de montar na metade. . — Devolvo. Arthur sorri, realmente de divertindo dessa vez. — Eu deveria usar isso na minha biografia, um quebra cabeça tedioso. — Seria um best-seller — Sorrio. — O problema é que ninguém conseguiria terminar o primeiro capítulo também. A gramática seria perfeita demais, as frases seriam lógicas demais, e o leitor morreria de tédio. — Mulher, você é mesmo perturbada, sabia? De verdade, um problema que eu disse a Julian que seria. — Resmunga. — Então quer dizer que você e Julian andaram conversando sobre mim? E na sua opinião eu sou problema? — Interessante. Mantenho meus olhos nele, mas Arthur está com o pescoço deitado na poltrona, encarando o teto. — Com certeza, dos piores. — Eu passei a vida pensando isso, sabia? Que eu era problema. As meninas da minha idade estavam preocupadas em beber até cair, serem aceitas, suas conversas eram sobre quem era seu idol favorito ou um novo lançamento bombástico de maquiagem. — Admito. Isso nunca me incomodou, mas me fez ver que eu era diferente. Havia algo em mim. — Eu conseguia fazer tudo que elas faziam, ter boas roupas, saltos, beber um pouco, mas eu fazia muito mais. Eu aprendia sobre jogos, números, economia, pessoas, eu era tudo ao mesmo tempo. Eu era... — Cósmica. — Completa. — Isso. — Eu o encaro e dessa vez Arthur está com os olhos em mim, me observando. Gosto da definição dele, era assim que eu me sentia, cósmica. E assim, me tornei quem eu sou hoje. O básico nunca vai conseguir me atrair, e eu gosto de problemas, muito, eu sinto que posso soluciona-los. — Então, se achar como me solucionar, me avise. — Eu não tenho certeza se vale a pena solucionar você, é ótimo assim.— Quando vejo, já estou sorrindo com a sua resposta. — Até porque eu enlouqueceria tentando, e seria uma grande perda para o mundo ficar sem os meus neurônios. Sim, é claro que sim. Gargalho. Me recosto, esticando as pernas em uma posição mais confortável. Vane tem o dom de destruir qualquer fala minimamente agradável que saia da boca dele. — Faltam quatro horas para o lockdown acabar. Se você vai passar o resto do tempo me dando palestras sobre sua função cognitiva, eu prefiro entrar no duto de ventilação. Lá pelo menos tem silêncio e um pouco de calma. — Fique, Elena — Convida. — Se vamos ficar presos, eu gostaria de ouvir mais sobre como você planeja invadir o meu terminal pessoal. Isso é um desafio? Sorrio, os olhos já brilhando. — Prepare-se, Vane. Vai ser uma longa noite. E eu garanto que, até o amanhecer, eu vou te fazer admitir que você precisa de mim. — E quando percebo, não estou mais torcendo para que essas quatro horas passem rápido. Arthur aceita o desafio, erguendo o copo para mim. Algo me diz que até mesmo a Vane Tech em sua grandiosidade se tornará pequena para nos segurar.
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