CAPÍTULO 04 — ELENA RIOS

1953 Words
Só preciso de um pouco de tempo e um notebook para ter acesso e começar a ler mais que só algoritmos e dados, para começar a ler quem Arthur Vane é. Tenho mesmo bastante coisa para se ler aqui. E e eu fosso afirmar algo é que as pessoas tem razão sobre o que falam dele, não é apenas bajulação barata. Vane é mesmo muito bom no que faz, sua tecnologia é incrível. Tem motivos de sobra pra ele ser considerado o Deus da tecnologia. Eu não encontro falhas no sistema dele, nem o mínimo bug. Isso deixa claro o tipo controlador que ele é. Me mostra que Arthur Vane não tolera falhas e não espera dos outros nada menos do que a perfeição, pelo menos daqueles que trabalham com ele. O homem é obcecado por números, algoritmos. É como se ele dormisse e acordasse respirando códigos, atualizações, futuro, não há outra explicação para alguém conseguir algo assim. Ergo a cabeça quando noto a porta abrindo, vendo o homem que julgo ser Julian Sterling. Eu tive pouco contato com ele, apenas trocamos mensagem quando ele me procurou para a colaboração. Não preciso de muito para entender a diferença entre os dois, Vane e Sterling. Sterling tem cabelos castanhos e olhos claros, se veste de forma mais despojada, uma expressão descontraída e divertida, é exatamente como imaginei com a troca de mensagens. Julian já entra na sala com um sorriso nos lábios. — Srta. Rios, é bom finalmente conhece-la. Admito que estava ansioso. — Me estende a mão, eu devolvo a ele o sorriso e aperto sua mão. — E por que a ansiedade? — Sua reputação lhe precede. Além disso, só de ver a reação de meus colegas, eu pude ter certeza que os comentários fazem jus. — Ele senta na cadeira em minha frente, totalmente em casa. Franzo o cenho. Como ele e Vane podem ser amigos? — O que quer comigo, Julian? — Cruzo os braços, até me divertindo. — Como adivinhou que era eu? Ah, esqueci, todas as pessoas são previsíveis para você e você tem todas as respostas. — Isso não é verdade, eu não tenho todas as respostas. — Sorrio. — Ainda. — Acha que vai ter? — Estou trabalhando para isso. — Até lá, pode me dizer o que acha? — Não sei a que se refere, sobre o que quer minha opinião assim tão cedo. Julian não é nada discreto, ele nem me conhece mas age como tal. Eu gosto disso, sem aquele drama inicial. — Sobre o que exatamente? — Sobre o que foi contratada para fazer. Eu te falei um pouco sobre os meus questionamentos sobre a fusão, as minhas dúvidas, o que acha sobre isso? Já conseguiu ter uma ideia sobre quem está certo? — O homem está mesmo apressado. — Você saberão quando eu tiver uma conclusão sólida. Eu não trabalho com achismo, Sr. Sterling. Trabalho com fatos, então quando eu tiver todos esses fatos e uma conclusão solida sobre eles para passar, então você saberá minha opinião. E saiba, que eu serei imparcial. Vou ser sincera mesmo tendo sido você que me procurou, não vou dizer nada que você quer ouvir se não for a mais pura verdade.— Eu o garanto. — Eu não esperava menos. — Ele dá de ombros, felizmente, sem se sentir ofendido. — Se precisar de mim, sabe onde me encontrar. — Obrigada, Julian, digo o mesmo. — Aceno de volta para ele assistindo-o ir embora. Eu não vi a hora passar, enterrada em tantos arquivos digitais da Vane Tech que quase fritei meu próprio cérebro, não porque estou confusa e não entendo o que estou lendo, mas porque eu li tão rápido e buscando tantas coisas que parece que meus neurônios estão fazendo ligação direta. São 22.45h da noite. Meus olhos ardem de tanto olhar para a tela. Por mais forte que seja minha mente, meu corpo cede ao cansaço. Mesmo assim, há tanta coisa que encontrei aqui que não posso parar, não agora. Há um tipo de assinatura dentro dos arquivos da Aegis que a Vane Tech tem acesso para pesquisa. Isso fica se repetindo, parece que vai em frente e depois... volta ao mesmo número de antes. — Thorne, seu doente, o que você...— Antes que eu possa sequer entender, todas as telas da sala brilham em uma luz branca por um milésimo de segundo. Seja o celular da empresa, o meu, o notebook, até a televisão na parede. Então piora, persianas blindadas de liga de titânio cobrem as imensas paredes de vidro, deixando a sala em escuridão. Percebo que Arthur tem um dos únicos escritórios do mundo construído como um bunker contra ataques de guerra eletrônica, ótimo. A porta começa a se abrir sozinha. Mas quando a porta inteligente chega no meio, vem um estalo seco parecendo que saiu das paredes. A porta para. O mundo se torna escuro. As luzes de apagam, todos os eletrônicos apagam, e eu fico no escuro geral dentro desse arranha céu se sessenta andares quase 23h da noite. O pior é que isso não foi uma queda de energia comum, foi um vácuo eletrônico. — Um EMP? — Se for isso, todos os equipamentos eletrônicos pifaram. Elevadores, ar condicionado, portas, tudo está travado. Apenas as luzes de emergência se acendem em um vermelho carmesim, me fazendo conseguir enxergar um pouco. Eu preciso de respostas do que realmente aconteceu, do porque o prédio se fechou inteiro, e só uma pessoa pode me dar essas respostas. Tiro o blazer do terno e saio pela porta aberta pela metade e vou rápido até o elevador, descobrindo que realmente, não funciona. Já começo a ficar nervosa, trancada nesse prédio escuro e todo lacrado, sem poder pedir ajuda a ninguém e sabendo que ninguém deve nem imaginar que estou aqui. Mas entrar em desespero não vai resolver meus problemas, então controlo minha respiração e busco uma solução. Olho ao redor e busco a saída de emergência. Elevadores podem ter mo.rrido como qualquer outro meio eletrônico, mas a boa e velha escada, não. Quando acho a porta com a placa vermelha anunciando a saída, corro até lá, e felizmente, essa não abre por tecnologia então consigo abrir normalmente. Assim que passo, a porta trava, uma trava manual que não me permite voltar pelo menos lugar. — Dro.ga. — Amaldiçoo, torcendo para essa ter sido uma boa ideia. Sigo caminho por um corredor que mais parece uma caixa de aço e logo a frente está a porta com a seta em dois sentidos. Abro, e atrás dela está a escada, andar 58 acima, 56 abaixo. Eu não demoro em subir. Eu não sei o que me espera nos andares de baixo então prefiro ir atrás do homem que pode me dar a resposta do que está acontecendo, porque, e se realmente estamos trancados. Não vou mentir, eu preciso voltar a frequentar o Pilates. No primeiro hall de escadas eu já estou ofegante, com minha respiração forte, meu coração acelerado, começando a suar, afinal não há mais ar condicionado por aqui. Minhas pernas começam a doer no segundo hall e no último estou me arrastando. Até que finalmente vejo que estou no 60° andar. Obrigada, Deus. Quando passo pela porta, ela volta a travar para impedir que eu volte pelo mesmo lugar. Olho ao redor, estou numa sala de reuniões, a mesa oval de mármore n***o, tudo de muita elegância e escolhido a dedo – com certeza o dedo de Arthur Vane. É um bom lugar para colocar a porta desse andar, onde mais pessoas estão reunidas do que na sala de Vane – e falando na sala dele, lá está ela. A porta também travou na metade, e eu vou até lá o mais rápido que posso. A cena que vejo parece que saiu de um filme de guerra, tudo escuro, apenas a luz carmesim saindo do teto. Vane está com uma lanterna direcionada a um mapa que ele observa tão atentamente que nem me percebe aqui, na outra mão, há uma espécie de walk talk que não é nada obsoleto mas com certeza não se parece em nada com o seu smartphone do ano. — O deus da tecnologia usando um mapa de papel, uma lanterna e um walk talk. Por essa eu não esperava. Acho que você não é tão previsível assim, Sr. Vane. — Eu chamo sua atenção. Arthur também tirou seu terno, aqui até tem ventilação que foi ativada na falta ar condicionado mas é bem diferente dos 16°C que ele está acostumado. Ele também arregaçou as mangas e abriu os primeiros botões da camisa, sem gravata mais. Os cabelos, antes impecáveis, agora estão bagunçados. Eu também não posso falar muito, meu cabelo já despenca pelo meu rosto, eu respiro ofegante e suada, sem blazer. — Elena? O que faz aqui? — Franze o cenho, apertando o botão para desligar o walk talk. Eu apostaria uma fortuna que Julian está do outro lado. — Eu trabalho aqui, esqueceu? — Caminho até ele, parando do seu lado e encarando o mapa na mesa. O mapa da empresa. — O que aconteceu? Por que seu prédio se cobriu como se estivesse com medo? — São mais de 23h, Elena, trabalhando ou não, isso não é hora de você estar aqui. — Mas eu estou, então responda minha pergunta. — Ignoro. — As telas apagaram, meu notebook morreu, preciso de explicações. — Um transformador de alta tensão no canteiro de obras da rua ao lado explodiu. Isso gerou um pulso eletromagnético que fritou tudo num raio de três quarteirões. Meu prédio reagiu fechando as cortinas de titânio para salvar nossos servidores principais. — Exatamente o que pareceu. — Meu prédio não está com medo, está reagindo. — Reagindo, a que exatamente? — Qualquer tentativa de invadir de forma remota. Mesmo que seja nos tirar daqui, ninguém pode fazer nada agora ou ele entrará com o protocolo de autodestruição. — AUTODESTRUIÇÃO? Ficou maluco? Por que Dia.bos tem um protocolo de autodestruição no prédio inteiro e não apenas na tecnologia? Isso é um arranha céu.— Não estamos em um bunker, estamos em um cofre gigante e explosivo. — É na tecnologia, Elena, mas tudo aqui dentro é tecnologia se você não percebeu ainda. E se eu estiver pensando bem, você nem deveria estar aqui. — Não é só o prédio que está armado, Vane também. Ele está com as veias do braço tensas, mesmo que eu só consiga ver as sombras delas. Ele parece ainda maior agora, sem o terno, os músculos quase rasgando o tecido da camisa branca e com os olhos brilhando de raiva. Arthur parece furioso com tudo isso. — E não tem porque se preocupar, a autodestruição não vai ser ativada se não mexermos no lugar errado. Estamos seguros. — Estamos presos? — Me aproximo mais, dando um passo para mais perto como se ele me atraísse. Vane prende os olhos nos meus, depois parece analisar cada traço do meu rosto em silêncio, como se eu fosse um mistério para ele. Um doce mistério. — Por pelo menos seis horas — Seis horas, contando de agora o dia já terá amanhecido. Arthur joga o rádio sobre a mesa. — O sistema precisa reiniciar inteiro antes de liberar as portas. Se abrirmos agora, a parte que tiver iniciado novamente pode entender como um ataque e pode apagar os cérebros da Vane Tech e também o acesso da Aegis, por proteção. Tudo isso além de nós também explodirmos junto com toda a tecnologia. É, isso é o bastante para me convencer a não fazer nada. Pelo jeito, seremos eu e Vane aqui pelo resto da noite.
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