Sangue nas Mãos, fogo no Coração e entre dois mundos

1284 Words
O rádio chiava de novo, mas dessa vez Pedro não atendeu de imediato. Sentado na beirada da cama no barraco do Alemão, ele encarava Mariana dormindo. O rosto dela estava sereno, como se o caos lá fora não pudesse alcançá-la. Mas Pedro sabia que aquilo era só ilusão. Eles estavam no olho do furacão. Ele se levantou devagar, cobriu o corpo dela com o lençol rasgado e saiu sem fazer barulho. Na sala, Carlinhos o esperava, nervoso. — Chefe, deu r**m. O caveira invadiu o ponto do Lado A. Três mano preso e um foi baleado. Pedro cerrou os punhos. — Quem? Quem caiu? — Tizil, Binho e o Nando. Tizil tá no chão, foi no peito. Dizem que foi execução, sem papo. Pedro olhou pela janela. O céu começava a se encobrir, pesado, refletindo o clima da favela. — Já dei papo pra vocês — ele disse com a voz firme. — Eles tão querendo guerra. Vamo dar guerra. Enquanto Pedro descia pra reunião com os líderes do tráfico, Mariana acordava com o som abafado de tiros ao longe. Seu coração disparou. Se levantou e vestiu a roupa que tinha. Ao sair do quarto, encontrou o barraco vazio. Desceu correndo pelas escadas improvisadas e foi até a entrada do beco. Uma criança passou correndo e gritou: — Tia, volta! Tá tendo tiro lá embaixo! Ela congelou. Sabia que Pedro estava envolvido. Sabia que aquilo era consequência direta da noite passada. Do amor deles. Da fragilidade dele diante de um sistema brutal. Mas ela era médica. E onde havia sangue, ela precisava estar. No meio do beco, Pedro chegava com cinco homens armados. O chão estava manchado de vermelho, o corpo de Tizil coberto com um lençol furado. A mãe do rapaz chorava em um canto, desesperada. Pedro olhou a cena e sentiu o peso nas costas. Aquela guerra não era só dele. Era de famílias. De histórias. — Eles tão achando que nós é o****o — resmungou. — Mas hoje a favela vai falar alto. Carlinhos se aproximou com o celular na mão. — Chefe, tua mina tá lá embaixo, querendo passar. Diz que quer ajudar. Pedro bufou. — Ela é maluca... Mas no fundo, ele entendia. Ela era diferente. Tinha coração. Mesmo com medo, voltava. Sempre voltava. Mariana ajoelhou ao lado do corpo baleado. Não era Tizil — era Binho, ainda com pulso fraco. A bala tinha atravessado o abdômen. Ela não tinha nada além de um kit improvisado que pegou na mochila. Pedro chegou logo atrás. — Que p***a cê tá fazendo aqui, Mariana?! — Salvando vida, Pedro! Ele ainda tá vivo! Os olhares se cruzaram. Ela com as mãos sujas de sangue. Ele com a alma em brasas. Ali, a linha entre o certo e o errado se desfez. Ele se ajoelhou ao lado dela e segurou a mão trêmula. — Me ensina, então. Se é pra salvar... vamo salvar junto. E naquele instante, sob o olhar desconfiado dos soldados, Pedro, o dono do morro, virou aprendiz da médica que o amava. Com as mãos sujas de sangue, ele segurou o pano enquanto ela estancava o ferimento. Era guerra lá fora. Mas ali... era só amor tentando sobreviver. Horas depois, com Binho estabilizado e levado de moto por dois comparsas até um ponto seguro, Mariana e Pedro se esconderam novamente. O morro estava fervendo. A polícia preparava nova incursão. E o nome dela já circulava em grupos fechados de denúncias. — Eles tão dizendo que você é “cúmplice”. Que tá acobertando bandido — Pedro disse, jogando o celular na cama. — Eu tô. Mas não porque quero. É porque você não é só isso. Ele se aproximou. — E você? Cê ainda acha que é só médica? Ela hesitou. — Eu acho... que virei refém do meu coração. Pedro a puxou pela cintura e sussurrou: — Então vamo fazer essa prisão durar. E quando os dois se beijaram naquela noite, não foi mais por desejo, nem por loucura. Foi por sobrevivência. E amor, naquele lugar, era o maior ato de rebeldia. O sol nasceu tímido no Complexo da Maré, como se soubesse que aquele não seria um dia comum. Mariana, ainda com os cabelos bagunçados e o corpo dolorido da noite anterior, encarava o teto do pequeno quarto. O lençol cheirava a pólvora e perfume barato, uma mistura que agora era parte da rotina dela. Pedro já havia saído. Não deixava rastros quando partia, mas ela sabia: estava tentando manter o controle do morro enquanto o cerco apertava. As operações da polícia estavam mais frequentes, e os rumores de traição dentro da própria facção deixavam o clima tenso. Qualquer passo em falso seria fatal. Mariana se levantou, vestiu a calça jeans surrada e amarrou os cabelos num coque apressado. O celular vibrava com mensagens de colegas do hospital. “Dra. Mariana, sua ausência está sendo notada. Precisamos conversar.” Ela suspirou. Como poderia explicar que estava escondida, ajudando o homem mais procurado da zona norte do Rio, sem destruir a própria carreira? Do outro lado da favela, Pedro batia na porta de uma casa modesta. Um velho senhor abriu a porta, surpreso. — Pedro? Aconteceu alguma coisa? — Preciso de um papo reto, Seu Alfredo. Só o senhor pode me ajudar agora. Seu Alfredo era uma lenda silenciosa da Maré. Ex-miliciano aposentado, sobrevivente de muitas guerras, agora vivia do pequeno comércio e do respeito que conquistara. Era um dos poucos que Pedro ouvia sem levantar o tom de voz. — Essa guerra tá longe de acabar, meu filho. Cê tá no olho do furacão. E essa médica... vai ser tua cruz ou tua salvação. Pedro passou a mão no rosto, cansado. — Eu não tô conseguindo pensar. Quando ela tá perto, eu quero sair dessa p***a. Mas quando olho pro meu povo... pros irmão que morreram... eu quero sangue. — Vai ter que escolher, Pedro. Ninguém consegue viver com um pé no asfalto e outro no barro sem afundar. No hospital, Mariana reapareceu após três dias sumida. Foi chamada na chefia quase imediatamente. — Doutora, a senhora entende a gravidade da situação? Está envolvida com criminosos? — o diretor perguntou, encarando-a com olhos desconfiados. Ela engoliu seco. — Eu só ajudei um ferido. Estava na Maré a trabalho voluntário. — Temos denúncias. Fotos. Se continuar, podemos abrir processo administrativo. Está preparada pra perder o CRM? Mariana saiu da sala com o coração acelerado. Pela primeira vez, percebeu que o abismo entre sua vida e a de Pedro não era só moral — era legal. Era institucional. Mas algo dentro dela gritava que desistir não era uma opção. Naquela noite, os dois se encontraram no esconderijo. Pedro chegou machucado, com um corte no braço e sangue na camisa. Mariana arregalou os olhos. — O que aconteceu? — Acerto com um traíra. Quis me passar pra trás. Eu fui cobrar. Ela limpou o ferimento com cuidado, em silêncio. O rosto dele estava mais sombrio do que nunca. — Isso vai acabar te matando, Pedro. Ele segurou a mão dela. — Se for pra morrer... que seja sabendo que alguém de verdade me viu como homem. E não só como bandido. Ela engoliu o choro. A voz saiu quase num sussurro: — E se eu te disser que tô disposta a ir até o fim com você? Pedro a olhou como se nunca tivesse escutado aquelas palavras antes. No mundo dele, promessas não valiam nada. Mas ali, naquela hora, aquela mulher era a única verdade que ele ainda acreditava. E quando se deitaram juntos naquela noite, não foi só corpo. Foi alma. Foi destino. Dois mundos colidindo em silêncio, construindo um segredo impossível de carregar — e ainda assim, inegável.
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