Refém do Coração

1127 Words
O sol m*l tinha nascido no Complexo da Maré e Pedro já estava de pé. Sentado na laje da casa segura, tragava um cigarro enquanto observava a cidade despertar aos poucos. A brisa da manhã batia no rosto, mas sua mente estava em ebulição. Dormir ao lado de Mariana havia sido um risco — perigoso, real... e viciante. Mariana, por sua vez, acordava aos poucos, sentindo o cheiro da fumaça misturado ao perfume barato que pairava na casa. O colchão improvisado já não incomodava tanto. O problema era outro: o silêncio que vinha de Pedro. Silêncio carregado, pesado. Ela se levantou, cobriu o corpo com a camisa dele e foi até a laje. Pedro não se virou ao escutá-la, apenas ofereceu o cigarro. Ela recusou. — Você não dormiu? — perguntou, ainda com a voz rouca do sono. — Dormir aqui é luxo — respondeu ele. — Ainda mais agora, com os caveira rondando. Ela se sentou ao lado dele. O céu começava a clarear, e as primeiras vozes do morro ecoavam pelas vielas — o barulho de água sendo puxada do balde, panela batendo, criança chorando. O cotidiano duro da favela. — Pedro... eu tô com medo — ela confessou, baixinho. Ele virou o rosto, finalmente a encarando. Os olhos dele estavam vermelhos, mas não de choro. De tensão. — Medo de mim? Ela negou com a cabeça. — De tudo. De ser pega, de perder meu registro médico, de acabar... sei lá, morta. Eu nunca imaginei que minha vida viraria isso. Pedro ficou em silêncio por um tempo, depois respondeu com a voz firme: — A vida aqui é assim desde sempre. Tu só tá conhecendo o lado que ninguém mostra na TV. Aqui a gente acorda sem saber se vai dormir. Ela respirou fundo, e a pergunta veio quase num sussurro: — Vale a pena? Pedro deu uma risada curta. — Isso depende do que tu tá chamando de “valer”. Vale pelo poder? Vale pra sustentar os nossos? Vale pra não ajoelhar pra polícia? Sim. Agora... se vale o coração da gente? A alma? — ele a olhou fundo. — Isso aí a gente vai perdendo aos poucos. Mariana sentiu o peso das palavras. Pedro não era só o “bandido” que todos pintavam. Ele era parte de uma realidade que ela nunca quis ver de perto. — Eu tô te colocando em risco — ele disse de repente. — E não posso te proteger de tudo. — E mesmo assim você não quer que eu vá embora — rebateu ela. Ele a olhou. Um olhar cru, verdadeiro. — Porque eu já perdi gente demais. E perder você... seria perder um pedaço de mim que eu nem sabia que existia. Mariana sentiu os olhos marejarem, mas segurou. O coração dela doía. E doía de verdade. Não era paixão passageira, era uma ligação irracional, visceral. Pedro era tudo que ela não podia ter, mas era tudo que fazia sentido naquele caos. Antes que pudessem continuar a conversa, o rádio preso na cintura de Pedro chiou. — Chefe, tem viatura civil no beco do Sacolão. Três homem de terno, um com colete. Tão perguntando por uma tal de Mariana. Ela congelou. — Como é que é? — Pedro levantou num pulo. — Repetindo, chefe. Tão perguntando por uma médica. Mariana, morena, trinta e poucos. Já subiram perguntando no bar do China. Pedro desligou o rádio na hora e puxou Mariana pelo braço. — A gente tem que sair daqui agora. Vem comigo. — Pedro, calma, eu... — Mariana, se eles te pegam aqui, acabou. Tu vai presa como cúmplice de traficante. E eu vou ter que botar o morro em guerra pra te tirar. O desespero dele era visível. Ela o seguiu pelas escadas, descendo rápido até a garagem improvisada onde havia uma moto escondida. Pedro entregou um capacete pra ela e disse: — A gente vai até o barraco do Alemão. Lá ninguém entra sem minha ordem. Depois a gente vê o que faz. Ela subiu na garupa, agarrada a ele. Enquanto a moto cortava as vielas da Maré, o coração dela batia mais rápido que nunca. Pela adrenalina. Pelo medo. E por ele. No barraco do Alemão, Mariana foi colocada em um quarto pequeno, mas limpo. Pedro trancou a porta por fora. — É só por umas horas. Vou resolver umas parada e volto. Fica aqui. Ela assentiu. Estava exausta. Se jogou na cama e fechou os olhos. Mas o sono não veio. Veio a lembrança do bilhete anônimo. Da ameaça. Do chefe do hospital. E da pergunta que não saía da cabeça: “Eu já cruzei a linha? Já não tem volta?” Enquanto isso, Pedro estava no topo do morro, reunido com os soldados. — Quero saber quem passou a localização da doutora. Quem abriu a boca. Porque se tem X9 aqui dentro, eu mesmo vou apagar. Carlinhos se aproximou com o celular na mão. — Chefe, olha isso. Mensagem que chegou pro parceiro do Lado A. Parece que tem policial civil vendendo info pra um bando de repórter. Dizendo que tão de olho em médica que anda “curando bandido”. Pedro cerrou os punhos. — Então tão usando a imprensa pra cercar ela. Carlinhos assentiu. — E tão tentando ferrar tua imagem com o povo da Maré. Dizem que tu tá ficando mole. Que tá colocando tudo a perder por causa de mulher. Pedro deu um passo pra trás. Aquilo doeu mais do que qualquer tiro. Seu nome... sua moral... sendo questionados. — Junta os mano. Vamos fazer uma operação hoje à noite. De leve, mas firme. Só pra lembrar quem manda aqui. E espalha a palavra: quem mexer com a doutora, tá mexendo comigo. Horas depois, deitada sozinha, Mariana ouviu batidas na porta. Pedro entrou. Estava suado, cansado, com o rosto tenso. Mas ao vê-la, sorriu de canto. — Desculpa sumir. Mas já tá tudo sob controle. Ninguém encosta mais em você. Ela se aproximou devagar. — E a sua imagem? E o morro? Ele deu de ombros. — Que se f**a minha imagem. Não vou deixar ninguém destruir o que a gente tá construindo aqui. Ela tocou o rosto dele. — E o que é que a gente tá construindo, Pedro? Ele não respondeu com palavras. A resposta veio no beijo. Intenso, urgente, mas carregado de verdade. Dessa vez, não havia luxúria. Havia entrega. A noite avançou, e os dois, deitados no colchão fino, se abraçaram como quem segura um ao outro contra o mundo. Mariana, por fim, murmurou: — Eu tô com medo... mas tô com você. Pedro apertou ela contra o peito. — Então a gente vai até o fim. E ambos sabiam... o fim podia ser qualquer coisa. Menos tranquilo.
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