No limite

1034 Words
— Tem algo errado com ele — respondeu Pedro, sem desviar o olhar. — Ele tá tentando enganar alguém. Acho que ele sabe mais do que diz. Ele é esperto, Carlinhos. A gente precisa dar um jeito de pressionar mais. Pega ele, faz um interrogatório, mas sem matar. Só pra dar medo. Carlinhos assentiu e se afastou, já traçando a estratégia para pegar o traidor. Mariana estava em sua sala no hospital, tentando se concentrar nas anotações de um novo caso. Mas sua mente estava longe. O encontro com Pedro ainda estava fresco em sua memória, e a sensação de sua boca contra a dela, o toque da mão, a sensação de algo que ela não conseguia definir. Ela sabia que ele era perigoso. Mas o que fazer quando o perigo parecia tão... excitante? O celular vibrou na mesa. Uma mensagem. Pedro: “22h. Laje da Casa Amarela. Não falte.” Ela mordeu o lábio inferior, hesitando por um momento. Sabia que não deveria ir, mas uma parte dela queria estar lá, com ele, de novo. O risco estava presente, mas o desejo era mais forte. Era como caminhar na borda de uma faca afiada. Mariana respondeu rapidamente: “Vou.” Na laje da Casa Amarela, Pedro estava em silêncio, aguardando. O vento forte fazia a fumaça do cigarro que ele estava fumando se espalhar pelo ar. O relógio já marcava 22h e nada. A inquietação tomava conta dele. Não queria admitir, mas sentia falta da presença de Mariana, daquela tensão insana entre eles. Ela havia se tornado uma parte do seu quebra-cabeça, e ele não sabia mais como lidar com isso. Então, ouviu o som do carro subindo a rua estreita e estacionando. Era ela. Mariana. Ele se levantou e se aproximou, o sorriso forçado no rosto. — Você veio. — Ele a cumprimentou com um tom de voz que refletia tanto alívio quanto desconforto. Mariana desceu do carro, o olhar furtivo. Não sabia o que esperar. O que seria agora? Ela sabia que Pedro jogava com fogo, mas até onde ela conseguiria ir sem se queimar? — Eu vim — ela disse baixinho. — E agora? O que você quer de mim? Ele deu um passo em direção a ela, mais perto do que ela imaginava. O ar entre os dois parecia carregado de tensão, e Pedro não conseguiu resistir. Pegou Mariana pela cintura e a puxou para um beijo urgente. O sabor de sua boca a deixou sem palavras, sua mente girava com uma mistura de desejo e medo. Ela não se afastou. Algo dentro dela queria aquilo também, mais do que queria admitir. Mas antes que as coisas tomassem um rumo mais sério, ele a afastou, os olhos sombrios. — Não podemos... não agora. — Ele falou, sua voz grave. — O jogo não permite. Mas você não pode mais negar o que aconteceu entre a gente. Mariana olhou para ele, o coração batendo acelerado, sem saber se estava com raiva ou fascinada. — E o que exatamente aconteceu entre a gente? — Ela questionou, com os lábios ainda queimando pelo beijo. Pedro sorriu com um olhar sombrio. — Você entrou no meu jogo. E você vai ficar nele. Horas depois, Mariana estava de volta ao hospital. Seu corpo estava exausto, mas sua mente não conseguia se desligar do que acabara de acontecer. Pedro... ele era o homem mais perigoso que ela já conheceu, mas ao mesmo tempo, ele a atraía de uma forma que ela não podia controlar. A atração era visceral, animal. Ela se jogou na cadeira e olhou para os prontuários em sua mesa. O telefone tocou. Era um número desconhecido. Ela atendeu com a mão trêmula. — Mariana? — a voz do outro lado da linha era baixa, grave, inconfundível. — Pedro... — ela murmurou, seu coração batendo mais rápido. — Eu sabia que você iria me atender. — Ele falou, a voz carregada de algo que ela não conseguia identificar. — O jogo começou, doutora. E você tem um papel nele. Ela respirou fundo. Não havia volta. O jogo, de fato, tinha começado. — E qual é o meu papel? — Ela perguntou, a curiosidade e o medo se misturando. — Você vai me ajudar, Mariana. Vai salvar a minha vida. E quando isso acontecer, a gente vai ver onde tudo isso vai dar. Mariana sentiu a tensão aumentar em seu corpo. Pedro, ele estava começando a deixá-la sem saída. Não tinha mais como sair daquele jogo. — E o que você quer de mim agora? — Ela perguntou, sabendo que sua voz já havia se entregado ao desejo, sem que ela precisasse dizer nada. — Você vai continuar fazendo o que faz de melhor, doutora. Salvar vidas. E quando for a minha vez, você vai me salvar. Mas tenha cuidado. Porque nesse jogo, quem perde... não sai vivo. Mariana fechou os olhos, sentindo o peso das palavras. Ela estava presa em um jogo sem saída. E a única forma de sobreviver era jogar conforme as regras. Ela estava em seu limite. Mas sabia que o jogo ainda tinha muito a revelar. E, sem querer, ela já estava mais envolvida do que podia imaginar. — Até mais, doutora — ele disse antes de desligar. Mariana ficou em silêncio, a cabeça girando com tudo o que acabara de ouvir. O jogo realmente havia começado. E não havia como voltar atrás. Pedro observava a cidade de seu refúgio. Sabia que o jogo estava em movimento. As peças estavam se movendo, e ele agora tinha o que mais precisava: a doutora. O fator que poderia ser seu trunfo, ou sua queda. O telefone em sua mão vibrou, interrompendo seus pensamentos. Era Carlinhos. — Chefe, encontramos o X9. Ele tentou sair do morro e se embrenhou na favela do lado. A gente pegou ele. O que fazer? — Pedro deu um sorriso frio. — Não faz nada ainda. Me traz ele aqui. Eu quero ver ele com meus próprios olhos. Ele desligou e se recostou na cadeira. A noite estava apenas começando. O jogo era grande, e as consequências ainda estavam por vir. A última carta a ser jogada ainda estava na mesa. E Pedro sabia exatamente como usá-la.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD