A madrugada caiu sobre o Complexo da Maré com uma respiração pesada. A tensão pairava como uma névoa, cobrindo os becos, as vielas, as lajes e até o coração de quem vivia ali. A cidade dormia, mas o morro vigiava.
Pedro estava de pé na laje do QG da Boca do Parque União, fuzil no peito, cigarro apagado nos lábios e o olhar perdido na direção das luzes distantes da ponte Rio-Niterói. Ao seu lado, Carlinhos girava uma latinha de energético, impaciente.
— Tá sinistro demais hoje — murmurou Carlinhos. — Sabe quando o morro cala e a gente sente que vem merda grossa?
Pedro não respondeu. Apenas apertou o rádio preso ao colete.
— Base, responde. Movimentação?
A voz do menor da contenção respondeu rápido:
— Nada por enquanto, chefe. Mas vi uns caras de roupa estranha entrando na Vila do João. Sem ser da nossa cara.
Pedro franziu a testa.
— Fica na escuta. Se der qualquer merda, bota geral no rádio e chama reforço.
Ele desligou, virou-se pra Carlinhos e falou firme:
— Vai pegar o Fumaça. Quero saber quem são esses caras. Se for invasão, a gente responde. Se for espião, vaza na bala.
Carlinhos assentiu e sumiu no escuro.
Enquanto isso, no hospital, Mariana tentava esconder os olhos vermelhos e a alma pesada. Passara o dia todo pensando em Pedro. Aquele homem era um paradoxo c***l: um traficante, sim. Mas também um sobrevivente. Um homem que, por um instante, mostrara humanidade crua.
— Mariana — chamou Érica, entrando na sala. — Tem uma mulher querendo falar contigo lá na recepção. Diz que é tua parente.
— Minha parente? Quem?
— Tá nervosa. Diz que é urgente.
Mariana largou os papéis e foi até lá. Quando chegou, deu de cara com uma senhora de chinelo, vestido de malha e olhar desesperado.
— Doutora! Pelo amor de Deus... me ajuda. É o meu filho. Ele foi baleado na favela. Tão escondendo ele. Disseram que a senhora já salvou um deles... por favor...
O coração de Mariana disparou.
— Onde ele tá?
— Na Vila do Pinheiro. Num barraco perto da quadra. Tá sangrando, tá m*l. Se for pro hospital, morre ou é preso.
Mariana olhou pros lados, sentiu a garganta secar. A última vez que ajudou alguém assim, foi Pedro. Agora, outra vez...
Ela hesitou, depois respondeu:
— Eu vou. Me leva até ele.
No beco estreito da Vila do Pinheiro, Mariana entrou escondida, de jaleco escondido na mochila. O cheiro de sangue e umidade impregnava o ar. No quarto escuro, um jovem gemia, com um tiro no abdômen.
Ela agiu rápido: estancou o sangramento, improvisou curativo, aplicou morfina. Não poderia operá-lo ali, mas deu tempo.
Quando terminou, uma voz grossa ecoou atrás dela:
— Tá ficando corajosa demais, doutora.
Ela virou, e lá estava Pedro, encostado na parede, braço cruzado, expressão sombria.
— Como você sabia que eu tava aqui? — ela sussurrou, surpresa.
— Eu sei de tudo que acontece nesse morro, Mariana. E quando me disseram que tu desceu sozinha pra atender um cria... eu vim ver com meus olhos.
Ela se levantou, encarou ele de frente.
— Se fosse outro, tu deixava morrer, né?
Pedro balançou a cabeça, olhando pro chão.
— Se fosse antes de tu me salvar... talvez. Mas depois daquela noite... não sei mais o que é certo ou errado.
Ela respirou fundo.
— E o que a gente tá fazendo agora, Pedro?
Ele se aproximou, parando a centímetros dela.
— Tu tá entrando num jogo perigoso, doutora. Tá arriscando tua carreira, tua liberdade... tua vida.
— E você? Não arrisca nada?
Pedro encostou a testa na dela, os olhos carregados de conflito.
— Eu arrisco me apaixonar por alguém que não é desse mundo.
Ela não recuou. Nem ele. O silêncio entre eles era como pólvora, pronta pra explodir. Mas naquele instante, nada mais importava.
— Me beija — ela sussurrou.
Pedro a segurou pela cintura e a puxou de vez. O beijo foi quente, urgente, cheio de tudo que eles não podiam dizer em voz alta.
Ali, entre paredes sujas e o risco de morte, o amor encontrou seu caminho.
Horas depois, Pedro voltou ao QG. Encontrou Carlinhos à sua espera.
— Fumaça confirmou. O TCP tá tentando aliciar Neguinho. Cê quer que elimine?
Pedro pensou por um segundo.
— Não. Quero que a gente finja que acredita nele. Vamos usar isso a nosso favor. Se tão achando que ele é deles, que continue sendo... até a hora certa.
— Cê vai usar o próprio X9 como isca?
— Exatamente.
Carlinhos deu um sorriso sinistro.
— Tu tá ficando frio, chefe.
Pedro respondeu sem emoção:
— Não tem espaço pra sentimento nesse jogo... exceto quando a doutora entra em cena.
Mariana chegou em casa no início da manhã. Tomou banho, tentou dormir, mas a mente girava. Estava envolvida. Não só com Pedro, mas com tudo aquilo. Os becos, o sangue, a dor... e uma parte dela, por mais que negasse, sentia que ali era onde ela realmente fazia diferença.
Seu celular vibrou. Uma nova mensagem.
Pedro: “Amanhã. Laje da Casa Amarela. 22h. Preciso de você.”
Ela digitou lentamente:
“Eu vou.”
E com isso, Mariana cruzava mais uma linha.
O jogo só estava começando.
O sol estava se pondo sobre a cidade, pintando o céu de tons alaranjados. A favela, como sempre, não dava trégua. As ruas continuavam agitadas, o som das motos cortando o ar, a risada alta dos meninos, a música ecoando pelos becos. No QG de Pedro, o clima era tenso. O jogo estava prestes a mudar.
Pedro estava no centro da laje, observando o horizonte, com o celular na mão. A mensagem de Mariana ainda queimava em sua mente. Ele sabia que algo estava errado, que ela estava se entregando a esse jogo de uma forma que poderia custar caro, tanto para ela quanto para ele.
A porta se abriu. Carlinhos entrou, com um sorriso nos lábios e a expressão confiável.
— O que você acha do X9, chefe? — perguntou, jogando a lata de cerveja para Pedro.