O Sangue da Favela

1017 Words
A madrugada caiu sobre o Complexo da Maré com uma respiração pesada. A tensão pairava como uma névoa, cobrindo os becos, as vielas, as lajes e até o coração de quem vivia ali. A cidade dormia, mas o morro vigiava. Pedro estava de pé na laje do QG da Boca do Parque União, fuzil no peito, cigarro apagado nos lábios e o olhar perdido na direção das luzes distantes da ponte Rio-Niterói. Ao seu lado, Carlinhos girava uma latinha de energético, impaciente. — Tá sinistro demais hoje — murmurou Carlinhos. — Sabe quando o morro cala e a gente sente que vem merda grossa? Pedro não respondeu. Apenas apertou o rádio preso ao colete. — Base, responde. Movimentação? A voz do menor da contenção respondeu rápido: — Nada por enquanto, chefe. Mas vi uns caras de roupa estranha entrando na Vila do João. Sem ser da nossa cara. Pedro franziu a testa. — Fica na escuta. Se der qualquer merda, bota geral no rádio e chama reforço. Ele desligou, virou-se pra Carlinhos e falou firme: — Vai pegar o Fumaça. Quero saber quem são esses caras. Se for invasão, a gente responde. Se for espião, vaza na bala. Carlinhos assentiu e sumiu no escuro. Enquanto isso, no hospital, Mariana tentava esconder os olhos vermelhos e a alma pesada. Passara o dia todo pensando em Pedro. Aquele homem era um paradoxo c***l: um traficante, sim. Mas também um sobrevivente. Um homem que, por um instante, mostrara humanidade crua. — Mariana — chamou Érica, entrando na sala. — Tem uma mulher querendo falar contigo lá na recepção. Diz que é tua parente. — Minha parente? Quem? — Tá nervosa. Diz que é urgente. Mariana largou os papéis e foi até lá. Quando chegou, deu de cara com uma senhora de chinelo, vestido de malha e olhar desesperado. — Doutora! Pelo amor de Deus... me ajuda. É o meu filho. Ele foi baleado na favela. Tão escondendo ele. Disseram que a senhora já salvou um deles... por favor... O coração de Mariana disparou. — Onde ele tá? — Na Vila do Pinheiro. Num barraco perto da quadra. Tá sangrando, tá m*l. Se for pro hospital, morre ou é preso. Mariana olhou pros lados, sentiu a garganta secar. A última vez que ajudou alguém assim, foi Pedro. Agora, outra vez... Ela hesitou, depois respondeu: — Eu vou. Me leva até ele. No beco estreito da Vila do Pinheiro, Mariana entrou escondida, de jaleco escondido na mochila. O cheiro de sangue e umidade impregnava o ar. No quarto escuro, um jovem gemia, com um tiro no abdômen. Ela agiu rápido: estancou o sangramento, improvisou curativo, aplicou morfina. Não poderia operá-lo ali, mas deu tempo. Quando terminou, uma voz grossa ecoou atrás dela: — Tá ficando corajosa demais, doutora. Ela virou, e lá estava Pedro, encostado na parede, braço cruzado, expressão sombria. — Como você sabia que eu tava aqui? — ela sussurrou, surpresa. — Eu sei de tudo que acontece nesse morro, Mariana. E quando me disseram que tu desceu sozinha pra atender um cria... eu vim ver com meus olhos. Ela se levantou, encarou ele de frente. — Se fosse outro, tu deixava morrer, né? Pedro balançou a cabeça, olhando pro chão. — Se fosse antes de tu me salvar... talvez. Mas depois daquela noite... não sei mais o que é certo ou errado. Ela respirou fundo. — E o que a gente tá fazendo agora, Pedro? Ele se aproximou, parando a centímetros dela. — Tu tá entrando num jogo perigoso, doutora. Tá arriscando tua carreira, tua liberdade... tua vida. — E você? Não arrisca nada? Pedro encostou a testa na dela, os olhos carregados de conflito. — Eu arrisco me apaixonar por alguém que não é desse mundo. Ela não recuou. Nem ele. O silêncio entre eles era como pólvora, pronta pra explodir. Mas naquele instante, nada mais importava. — Me beija — ela sussurrou. Pedro a segurou pela cintura e a puxou de vez. O beijo foi quente, urgente, cheio de tudo que eles não podiam dizer em voz alta. Ali, entre paredes sujas e o risco de morte, o amor encontrou seu caminho. Horas depois, Pedro voltou ao QG. Encontrou Carlinhos à sua espera. — Fumaça confirmou. O TCP tá tentando aliciar Neguinho. Cê quer que elimine? Pedro pensou por um segundo. — Não. Quero que a gente finja que acredita nele. Vamos usar isso a nosso favor. Se tão achando que ele é deles, que continue sendo... até a hora certa. — Cê vai usar o próprio X9 como isca? — Exatamente. Carlinhos deu um sorriso sinistro. — Tu tá ficando frio, chefe. Pedro respondeu sem emoção: — Não tem espaço pra sentimento nesse jogo... exceto quando a doutora entra em cena. Mariana chegou em casa no início da manhã. Tomou banho, tentou dormir, mas a mente girava. Estava envolvida. Não só com Pedro, mas com tudo aquilo. Os becos, o sangue, a dor... e uma parte dela, por mais que negasse, sentia que ali era onde ela realmente fazia diferença. Seu celular vibrou. Uma nova mensagem. Pedro: “Amanhã. Laje da Casa Amarela. 22h. Preciso de você.” Ela digitou lentamente: “Eu vou.” E com isso, Mariana cruzava mais uma linha. O jogo só estava começando. O sol estava se pondo sobre a cidade, pintando o céu de tons alaranjados. A favela, como sempre, não dava trégua. As ruas continuavam agitadas, o som das motos cortando o ar, a risada alta dos meninos, a música ecoando pelos becos. No QG de Pedro, o clima era tenso. O jogo estava prestes a mudar. Pedro estava no centro da laje, observando o horizonte, com o celular na mão. A mensagem de Mariana ainda queimava em sua mente. Ele sabia que algo estava errado, que ela estava se entregando a esse jogo de uma forma que poderia custar caro, tanto para ela quanto para ele. A porta se abriu. Carlinhos entrou, com um sorriso nos lábios e a expressão confiável. — O que você acha do X9, chefe? — perguntou, jogando a lata de cerveja para Pedro.
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