Isadora
O silêncio depois que Caio foi embora foi pior do que a discussão.
A casa parecia grande demais, vazia demais.
Cada rangido, cada sopro de vento que entrava pelas frestas soava como um aviso.
Eu caminhei até a janela e vi o carro dele desaparecer na curva da estrada, levando consigo a única sensação de segurança que eu odiava admitir que precisava.
Ele disse que ia lembrar algumas pessoas de quem era.
E isso me assustou mais do que qualquer ameaça anônima.
Encostei a testa no vidro frio, respirando fundo.
A cidade estava iluminada por uma lua pálida, quase doente.
O mar, ao longe, parecia inquieto ondas quebrando com força, como se soubessem que algo estava prestes a se romper.
Caio sempre foi assim.
Quando prometia algo, o mundo ao redor sentia o impacto.
E eu sabia, aquela promessa tinha sido feita com fogo.
****
Voltei para a sala, tentando ocupar a mente.
Arrumei coisas que não precisavam ser arrumadas.
Lavei uma xícara que já estava limpa.
Qualquer coisa para não pensar no olhar dele antes de sair aquele olhar que misturava amor, fúria e um passado que eu ainda não conhecia por inteiro.
Sentei no sofá e abracei os próprios joelhos.
— Em que você se meteu, Isadora — sussurrei.
Não era só o perigo externo que me atormentava.
Era o que Caio despertava em mim.
A forma como minha razão enfraquecia perto dele.
Como uma parte minha ainda acreditava nas promessas antigas, feitas na beira do mar, quando éramos jovens demais para entender o peso das palavras.
Lembrei-me de nós dois, anos atrás.
“Eu volto.”
“Eu espero.”
Promessas simples. Ingênuas.
Promessas que o tempo queimou sem piedade.
Agora, tudo o que ele prometia vinha carregado de consequências.
****
O telefone vibrou na mesa.
Meu coração quase saltou do peito.
Peguei o aparelho com mãos trêmulas.
Era uma mensagem de Caio.
Não sai de casa, Não abre a porta pra ninguém, Eu volto.
Li e reli aquelas palavras como se fossem um escudo frágil.
Ele não disse fica calma.
Não disse vai ficar tudo bem.
Ele disse eu volto.
Fechei os olhos, sentindo um aperto estranho no peito e um incômodo sutil no corpo.
Um enjoo leve.
Atribuí ao nervosismo, ao medo, à tensão acumulada.
Nada mais fazia sentido ultimamente.
Levantei-me e caminhei até o quarto.
Ao passar pelo espelho, parei.
Meu reflexo parecia diferente.
Mais pálido, Mais cansado.
Levei a mão ao ventre de novo, aquele gesto automático que vinha se repetindo sem que eu percebesse.
— É só estresse — murmurei.
Mas algo dentro de mim sussurrou que não era só isso.
****
As horas passaram devagar demais.
Quando finalmente ouvi o som do carro, já era madrugada.
Corri até a porta antes mesmo de pensar.
Abri.
Caio estava ali.
O rosto está marcado.
O maxilar tenso.
Os olhos escuros como a noite.
Havia algo nele que parecia, mais pesado. Mais decidido.
E perigosamente calmo.
— Você está bem? — perguntei, a voz saindo fraca.
Ele assentiu, entrando e fechando a porta atrás de si.
— Agora estou. — respondeu.
O silêncio que se seguiu era diferente.
Não era vazio.
Era carregado de algo irreversível.
— Você fez alguma coisa? — perguntei.
Caio me encarou por longos segundos.
O olhar intenso, profundo, quase doloroso.
— Fiz uma promessa. — disse.
Um arrepio percorreu meu corpo.
— Que tipo de promessa?
Ele se aproximou devagar, parando a poucos passos de mim.
— Que ninguém mais vai te usar pra me atingir. — respondeu.
— Nunca mais.
Havia algo definitivo naquelas palavras.
Algo queimado. Como se uma linha tivesse sido cruzada.
— Caio — sussurrei.
— Promessas assim cobram um preço.
— Eu sei. — ele disse, sem desviar o olhar.
— E eu pago.
A forma como falou me fez entender que aquela promessa não tinha volta.
Não era um juramento bonito.
Era um aviso.
Senti medo.
Mas também senti algo ainda mais assustador: confiança.
— Eu não quero ser a razão de você se perder. — falei, a voz embargada.
Ele se aproximou mais um pouco, mas não me tocou.
— Você é a razão de eu ainda não ter me perdido completamente. — respondeu.
As palavras me atingiram em cheio.
O silêncio caiu entre nós, pesado, íntimo, perigoso.
Não houve beijo. Não houve toque. Apenas a certeza de que algo tinha mudado.
A promessa de Caio estava feita.
Queimada no passado.
Selada no presente.
E eu tinha a sensação de que no futuro, o meu futuro já estava sendo escrito sem que eu tivesse controle total sobre ele.
Lá fora, o mar continuava agitado.
E dentro de mim, algo novo parecia despertar silencioso, delicado e impossível de ignorar.