CAPÍTULO 4

973 Words
O vento uivava no alto do penhasco como um aviso. Isadora parou o carro à beira da estrada estreita e desceu devagar, sentindo o vestido colar às pernas por causa da brisa fria do mar. O céu estava cinza, pesado, e as ondas se chocavam violentamente contra as rochas lá embaixo, como se a própria natureza estivesse inquieta. Ela não sabia por que tinha vindo ali. Só sentia. Desde o porto, a sensação de estar sendo observada não a abandonara. Um peso constante na nuca, um arrepio insistente que nenhum raciocínio conseguia afastar. O penhasco sempre fora o lugar de Caio. Ali eles se encontravam quando eram jovens, longe dos olhos da cidade. Ali trocaram promessas que o tempo não cumpriu. aAli tudo começou e talvez tudo tivesse terminado. — Você nunca soube ficar longe daqui. A voz masculina surgiu atrás dela, baixa, carregada de algo que não era apenas saudade. Isadora se virou num sobressalto. Caio estava alguns passos atrás, usando uma jaqueta escura, o rosto sério, os olhos atentos ao redor antes de se fixarem nela. Ele parecia parte da paisagem perigoso, firme, indomável. — Está me seguindo agora? — perguntou ela, tentando esconder o nervosismo. — Estou garantindo que ninguém mais esteja. Ele se aproximou da beira do penhasco, olhando para o mar revolto. — Tem alguém nos observando desde ontem. O coração dela disparou. — O homem do porto? Caio assentiu. — E não é a primeira vez que o vejo. Ele voltou para Santa Marina antes de você. Isadora sentiu o frio se espalhar pelo peito. — Voltar de onde? — Do passado. O silêncio que se instalou foi pesado. O vento levantava os cabelos dela, e Caio estendeu a mão, segurando um dos fios com cuidado quase contraditório à dureza do olhar. — Você não devia andar sozinha. — murmurou. — Não posso viver com medo. — Pode viver. — ele corrigiu. — Desde que me escute. Ela o encarou, sentindo o conflito interno crescer. — Desde quando você manda na minha vida, Caio? Ele deu um passo à frente, encurtando o espaço entre eles. — Desde sempre. Só demorou pra perceber. Antes que pudesse responder, um movimento no topo do penhasco chamou a atenção deles. Uma silhueta. Um homem parado a poucos metros de distância, imóvel, observando o mar e a eles. Usava um sobretudo escuro e mantinha as mãos nos bolsos. O rosto não era visível, mas a postura. A postura denunciava i********e demais com aquele lugar. Isadora sentiu o estômago revirar. — Tem alguém ali. Caio ficou tenso instantaneamente, o corpo se colocando sutilmente à frente dela. — Fique atrás de mim. — Você o conhece? — sussurrou. — Infelizmente. O homem se virou lentamente, revelando um rosto anguloso, marcado pelo tempo e por um sorriso torto que não chegava aos olhos. — Caio Moretti. — a voz ecoou contra o vento. — Ainda gosta de olhar o mar como se ele fosse te dar respostas? Caio cerrou o maxilar. — Achei que tivesse ido embora para sempre, Henrique. O nome caiu como um peso. Henrique deu uma risada curta. — Santa Marina sempre chama de volta quem deve algo a ela. O olhar dele se moveu para Isadora, avaliando-a sem pudor. — Então você é a menina que fugiu. Isadora sentiu a mão de Caio fechar em torno do braço dela, firme demais para ser apenas proteção. — Não fale com ela. Henrique arqueou a sobrancelha. — Ainda tão possessivo. Imagino que ela não saiba metade do que aconteceu aqui. — Não é da sua conta. — Caio respondeu, frio. Henrique deu alguns passos, aproximando-se perigosamente da beira. — Nada aqui deixa de ser minha conta. Não depois do incêndio. Não depois do que o pai dela fez. O sangue de Isadora gelou. — O que você sabe sobre o meu pai? Caio se virou para ela, o olhar alertando silenciosamente, não agora. Mas Henrique sorriu, satisfeito. — Sei que heranças não são apenas casas e terras. Às vezes, são dívidas. Segredos. Culpa. Caio avançou um passo. — Dê o fora daqui antes que se arrependa. — Sempre foi assim. — Henrique suspirou. — Você apagando incêndios que não começou. Protegendo quem não merece. O vento aumentou, as ondas rugiram. Henrique recuou um pouco, mas antes de se virar, deixou a ameaça no ar: — A verdade vem à tona, Caio. E quando isso acontecer ela vai saber quem você realmente é. Ele se afastou, desaparecendo pela trilha estreita que levava ao outro lado do penhasco. O silêncio que ficou era sufocante. Isadora se virou para Caio, o olhar cheio de perguntas e medo contido. — Você me deve explicações. Ele fechou os olhos por um instante, como se reunisse forças. — Eu te devo proteção. E isso vai ter que bastar… por enquanto. — Ele falou do meu pai. Do incêndio. — Eu sei. — Então me diga a verdade! — a voz dela falhou. Caio segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a encará-lo. O toque era firme, quase desesperado. — Se eu te contar tudo agora, você vai querer fugir de novo. E desta vez, não haverá para onde ir. O coração dela martelava no peito. — E se eu já estiver presa? O olhar dele escureceu, intenso. — Então eu vou te manter viva. O beijo veio rápido, urgente, como se ambos precisassem daquilo para não desmoronar. O vento, o mar, o perigo tudo desapareceu por um instante. Quando se afastaram, Caio encostou a testa na dela. — Prometa que vai confiar em mim. Isadora hesitou. — Não sei se consigo. — Prometa mesmo assim. Ela respirou fundo. — Eu prometo tentar. Ao longe, escondido entre as rochas, Henrique observava. Os olhos frios brilhavam com antecipação. Porque o jogo tinha começado. E desta vez, ninguém sairia ileso.
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