O porto de Santa Marina despertava antes do sol.
O cheiro de peixe fresco, óleo e sal impregnava o ar, misturando-se ao som das ondas batendo contra os cascos dos barcos.
Homens gritavam ordens, redes eram jogadas no chão molhado, motores roncavam com impaciência.
Para Caio Moretti, aquele caos controlado era o único lugar onde sua mente conseguia se aquietar , ou pelo menos fingir que conseguia.
Mas naquela manhã, nem o mar o obedecia.
Ele apoiou as mãos no parapeito de madeira, o olhar perdido no horizonte avermelhado.
A imagem de Isadora ainda queimava atrás de suas pálpebras, o beijo, o gosto dela, a forma como o corpo reagira ao dele sem pedir permissão.
Maldição.
Dez anos tentando esquecer.
E bastaram dois dias para tudo desmoronar.
— Moretti.
A voz de Rafael, seu braço-direito, o trouxe de volta.
— O carregamento chega hoje à noite. — continuou.
— Mas tem gente estranha rondando. Não são da cidade.
Caio franziu o cenho.
— Ninguém entra ou sai sem eu saber. — disse, firme.
— Redobre a segurança.
Rafael assentiu, mas antes de se afastar, hesitou.
— E sobre a garota.
Caio virou-se num movimento brusco.
— Não fale dela.
— A cidade inteira fala.
— Rafael suspirou. — Quando ela volta, coisas ruins voltam junto.
Caio não respondeu.
Porque no fundo, ele sabia.
Sempre soube.
******
Isadora caminhava pelo calçadão do porto com passos cautelosos, usando óculos escuros e um vestido simples.
Mesmo assim, sentia os olhares.
Santa Marina nunca esquece. E nunca perdoa.
Cada rosto parecia carregar uma pergunta.
Cada silêncio, um julgamento.
Ela fingiu normalidade, parando em uma pequena barraca de café.
— Um expresso, por favor.
Enquanto esperava, sentiu o arrepio.
Aquela sensação antiga.
Como se alguém a observasse de longe.
Quando virou o rosto, encontrou os olhos dele.
Caio estava do outro lado do porto, parado perto dos contêineres.
O corpo rígido, a postura de quem manda sem precisar dizer uma palavra.
Ele não sorria. Não desviava o olhar.
Apenas a observava.
O estômago de Isadora se contraiu.
O beijo da noite anterior ainda marcava seus lábios como uma promessa perigosa.
Ela pegou o café e seguiu andando, sentindo o olhar dele acompanhá-la.
Não era apenas desejo.
Era vigilância.
Proteção e posse.
Quando ela passou por um corredor estreito entre dois galpões, sentiu a presença dele antes mesmo de ouvi-lo.
— Você não devia estar aqui sozinha.
A voz grave soou atrás dela, próxima demais.
Isadora se virou, o coração acelerado.
— E você não devia me seguir.
Ele se aproximou, encurralando-a contra a parede fria de metal.
— Eu não sigo. Eu cuido.
— Não pedi isso.
— Pediu no momento em que voltou.
O olhar dele desceu lentamente pelo corpo dela, sem disfarçar. Não havia gentileza ali apenas necessidade.
Isadora engoliu em seco.
— A cidade inteira fala que você virou outra pessoa.
Ele inclinou a cabeça, o maxilar tenso.
— A cidade fala demais.
— Fala que você manda aqui.
— Eu mantenho ordem.
— Com medo?
— Com controle.
O silêncio se estendeu.
Caio ergueu a mão e segurou o queixo dela, forçando-a a encará-lo.
— Não volte a me beijar se não souber lidar com o que desperta em mim.
— E você? — retrucou ela, a voz trêmula, mas firme. — Sabe?
Por um segundo, a muralha dele vacilou.
— Não. — admitiu.
— E é isso que me assusta.
Um barulho de passos interrompeu o momento.
Caio se afastou rapidamente, o olhar duro.
Do outro lado do porto, um homem observava.
Alto, magro, usando um boné puxado sobre o rosto. O olhar era atento demais para ser casual.
Isadora seguiu o olhar de Caio.
— Quem é ele?
— Alguém que não devia estar aqui. — respondeu Caio, em tom baixo.
— E agora sabe que você voltou.
O peito dela apertou.
— Eu estou em perigo?
— Desde o momento em que pisou nesta cidade.
Ele se aproximou mais uma vez, dessa vez sem tocar.
— Fique perto de mim.
— Isso não soa como um pedido.
— Não é.
Caio se afastou, caminhando na direção do homem misterioso, que desapareceu entre os barcos antes que pudesse ser alcançado.
Isadora ficou parada, o café esfriando na mão, sentindo o peso daquela verdade.
Ela não estava apenas revivendo um amor antigo.
Estava entrando num jogo que não entendia , onde segredos, poder e desejo se misturavam perigosamente.
E, do alto de um dos galpões, alguém observava os dois com atenção calculada.
Um sorriso lento se formou sob o boné.
Porque algumas histórias não recomeçam por acaso.
Elas voltam para cobrar.