A casa estava silenciosa demais depois da festa.
O eco distante da música ainda parecia vibrar na pele de Isadora, misturado ao medo, à adrenalina e à presença esmagadora de Caio ao seu lado.
Assim que a porta se fechou atrás deles, o mundo lá fora deixou de existir.
O silêncio entre os dois não era vazio.
Era carregado.
Caio largou as chaves sobre a mesa com mais força do que pretendia.
O maxilar travado, os ombros tensos, como se ainda estivesse pronto para lutar.
Isadora o observava em silêncio, sentindo o próprio corpo reagir àquela energia bruta.
— Aquilo foi um aviso. — ele disse, finalmente. — E eu odeio avisos.
— Você ficou diferente lá fora. — ela respondeu, a voz baixa. — Mais, intenso.
Ele virou-se lentamente. O olhar escuro encontrou o dela como um choque.
— Porque quase te perdi de vista por um segundo.
Isadora engoliu em seco.
— Eu estava ao seu lado.
— Não importa. — ele se aproximou um passo. — Um segundo basta.
O espaço entre eles diminuiu. O ar pareceu mais pesado.
Isadora sentiu o coração acelerar, cada batida ecoando nos ouvidos.
— Você não pode me proteger de tudo, Caio.
— Posso tentar. — respondeu. — E vou.
Ela ergueu o queixo, desafiadora.
— Isso não te dá o direito de me controlar.
— Não. — ele murmurou.
— Mas me dá o direito de sentir.
O toque veio sem aviso.
Não invasivo.
Não apressado.
A mão dele pousou em sua cintura, quente, firme, como se marcasse território , não para o mundo, mas para si mesmo. Isadora sentiu o arrepio subir pela espinha.
— Caio — o nome dele saiu quase como um pedido.
— Se me disser pra parar. — ele começou, a voz rouca.
Ela colocou a mão sobre o peito dele, sentindo o coração acelerado sob os dedos.
— Eu não quero que pare.
O olhar dele se incendiou.
Caio aproximou o rosto lentamente, dando-lhe tempo para recuar. Isadora não recuou.
Quando os lábios se tocaram, não foi um beijo desesperado. Foi profundo. Intencional. Carregado de tudo que fora negado por anos.
O beijo tinha memória.
Tinha culpa.
Tinha saudade.
As mãos dele subiram pelas costas dela com cuidado contido, como se lutasse contra o próprio impulso. Isadora sentiu-se presa e segura ao mesmo tempo , uma contradição que só existia com ele.
— Isso é perigoso — ela murmurou entre um beijo e outro.
— Sempre foi. — ele respondeu, a testa encostada na dela.
— Você sempre foi.
Ele a conduziu até o sofá, sentando-se e puxando-a para perto, sem pressa.
Isadora sentou-se entre as pernas dele, sentindo o corpo dele por trás, sólido, protetor.
O toque dele agora era lento. Deliberado.
Como se quisesse gravar cada sensação.
— Eu pensei em você todos esses anos. — ele confessou, a voz baixa junto ao ouvido dela.
— Em cada decisão errada. Em cada noite sem dormir.
Ela fechou os olhos, sentindo o peso daquelas palavras.
— Então por que nunca voltou?
A mão dele apertou levemente sua cintura.
— Porque eu sabia que, se voltasse, nunca mais conseguiria te deixar ir.
O silêncio se instalou, denso.
Isadora virou-se, ficando de frente para ele.
— E agora?
Caio a encarou por longos segundos.
— Agora eu não quero mais resistir.
O beijo voltou, mais lento, mais profundo, carregado de promessa. Não havia pressa para despir corpos , apenas para despir defesas.
Quando se afastaram, as respirações estavam descompassadas.
Caio apoiou a testa na dela.
— Isso não é só desejo, Isa. É uma linha que, se cruzarmos muda tudo.
Ela sorriu de leve, os olhos brilhando.
— Algumas linhas foram feitas pra serem cruzadas.
Ele a puxou para um abraço apertado, quase possessivo, como se quisesse protegê-la do mundo inteiro , e de si mesmo.
Naquela noite, não houve mais do que toques lentos, beijos demorados e promessas silenciosas.
Mas Isadora soube.
O toque dele não era apenas proibido.
Era inevitável.
E quando finalmente se deitou ao lado dele, envolvida pelos braços firmes, sentiu algo diferente crescer dentro de si.
Não era só desejo.
Era o começo de algo que mudasse tudo.
Lá fora, o mar continuava a bater contra as rochas.
Paciente.
Observando.
Como se soubesse que algumas tempestades começam assim, Com um único toque.