Caio
A raiva de Caio não era barulhenta.
Era silenciosa.
Densa.
Letal.
Ele estava no porto quando o telefone vibrou no bolso.
Uma mensagem curta, enviada de um número desconhecido.
Ela voltou.
Bonita como sempre.
Ainda não sabe com quem está lidando.
O mundo perdeu o som por um instante.
Caio fechou os dedos ao redor do celular com tanta força que sentiu a pressão na palma da mão.
Os homens ao redor continuaram trabalhando, rindo, vivendo alheios ao fato de que algo havia acabado de despertar dentro dele.
— Desgraçado — murmurou.
Não precisou perguntar quem era.
O cheiro na casa, a porta aberta, o aviso silencioso tudo agora fazia sentido.
Aquilo não tinha sido curiosidade.
Tinha sido marcação de território.
E Isadora era o alvo.
Ele se afastou do cais, passos firmes, o rosto fechado.
Cada memória enterrada começou a emergir como um corpo que o mar devolve à praia quando decide não guardar mais segredos.
Promessas quebradas.
Dívidas de sangue.
Uma noite que nunca terminou de verdade.
Caio entrou no carro e arrancou, ignorando o som do motor protestando.
A cidade parecia pequena demais, estreita demais para a fúria que crescia dentro dele.
*****
Isadora estava sentada na sala quando ele chegou.
Sentiu antes de ver.
A casa pareceu encolher quando Caio atravessou a porta.
O olhar dele estava diferente mais escuro, mais frio.
Não havia traço de ternura ali.
— O que aconteceu? — ela perguntou, levantando-se.
— Eles sabem que você voltou. — ele respondeu, direto.
O coração dela acelerou.
— Eles quem?
Caio caminhou até ela, parando perto demais.
As mãos cerradas ao lado do corpo.
A respiração pesada, controlada à força.
— Pessoas que não sabem perder. — disse.
— E que acham que tudo tem dono.
— Inclusive você? — ela provocou, tentando esconder o medo.
Foi um erro.
O olhar dele se fechou como uma lâmina.
— Inclusive você. — respondeu, a voz baixa, perigosa.
— Mas a diferença é que eu não deixo ninguém tocar no que é meu.
O silêncio que se seguiu foi sufocante.
— Você não pode falar assim comigo. — Isadora disse, firme, mesmo com o coração disparado.
— Posso quando tentam te usar pra me atingir. — ele rebateu.
— Posso quando invadem a minha casa, respiram o seu cheiro e acham que isso não vai ter consequência.
Ela sentiu um arrepio descer pela espinha.
— Você vai fazer alguma loucura? — perguntou.
Caio deu uma risada curta, sem humor.
— A loucura foi achar que o passado ia me deixar em paz.
Ele se afastou, andando pela sala como um animal enjaulado.
Passou a mão pelos cabelos, respirou fundo, tentando conter algo que claramente queria escapar.
— Eu avisei que essa cidade não esquece. — disse.
— E agora eles estão testando até onde podem ir.
— E até onde você vai? — ela perguntou.
Ele parou.
Virou-se devagar.
— Até onde for preciso. — respondeu.
— Mas você não vai pagar por isso.
— Eu já estou pagando. — ela retrucou.
— Estou com medo. Estou sendo vigiada. Estou no meio de algo que você não me conta.
Caio fechou os olhos por um instante.
Quando abriu, a raiva tinha dado lugar a algo ainda mais perigoso: decisão.
— Eu tentei te manter fora. — disse.
— Mas não dá mais.
Ele se aproximou outra vez, segurando o rosto dela com as mãos firmes, obrigando-a a encará-lo.
— Escuta bem, Isadora. — falou.
— Se alguém chegar perto de você, se alguém ousar te ameaçar eu vou acabar com essa pessoa.
— Isso não é amor. — ela sussurrou.
— Não. — ele concordou.
— Isso é sobrevivência.
As palavras pesaram.
Ele a soltou com cuidado, como se tivesse medo do próprio toque.
— Você não sai sozinha. — continuou.
— Não atende números desconhecidos. E se sentir qualquer coisa fora do lugar, você me chama. Não importa a hora.
— Você está tentando me controlar de novo. — ela disse.
— Estou tentando te manter viva. — respondeu.
O olhar dele suavizou por um segundo, traindo tudo o que tentava esconder.
— Eu já perdi você uma vez. — murmurou.
— Não vou perder de novo.
Isadora sentiu algo apertado dentro do peito.
Um misto de medo, compaixão e uma ligação impossível de quebrar.
— Caio — começou.
— Não discuta comigo agora. — ele pediu, mais baixo.
— Hoje não.
Ele se afastou, indo até a porta.
— Onde você vai? — ela perguntou.
Caio parou sem se virar.
— Lembrar algumas pessoas de quem eu sou. — respondeu.
A porta se fechou atrás dele.
Isadora ficou parada no meio da sala, sentindo o coração bater forte demais.
Levou a mão ao ventre novamente, o mesmo gesto inconsciente de antes, como se buscasse equilíbrio.
Lá fora, o mar rugia.
E em algum lugar da cidade, alguém estava prestes a descobrir que provocar Caio Moretti tinha um preço.
Alto demais para pagar.