CAPÍTULO 18

830 Words
Caio A raiva de Caio não era barulhenta. Era silenciosa. Densa. Letal. Ele estava no porto quando o telefone vibrou no bolso. Uma mensagem curta, enviada de um número desconhecido. Ela voltou. Bonita como sempre. Ainda não sabe com quem está lidando. O mundo perdeu o som por um instante. Caio fechou os dedos ao redor do celular com tanta força que sentiu a pressão na palma da mão. Os homens ao redor continuaram trabalhando, rindo, vivendo alheios ao fato de que algo havia acabado de despertar dentro dele. — Desgraçado — murmurou. Não precisou perguntar quem era. O cheiro na casa, a porta aberta, o aviso silencioso tudo agora fazia sentido. Aquilo não tinha sido curiosidade. Tinha sido marcação de território. E Isadora era o alvo. Ele se afastou do cais, passos firmes, o rosto fechado. Cada memória enterrada começou a emergir como um corpo que o mar devolve à praia quando decide não guardar mais segredos. Promessas quebradas. Dívidas de sangue. Uma noite que nunca terminou de verdade. Caio entrou no carro e arrancou, ignorando o som do motor protestando. A cidade parecia pequena demais, estreita demais para a fúria que crescia dentro dele. ***** Isadora estava sentada na sala quando ele chegou. Sentiu antes de ver. A casa pareceu encolher quando Caio atravessou a porta. O olhar dele estava diferente mais escuro, mais frio. Não havia traço de ternura ali. — O que aconteceu? — ela perguntou, levantando-se. — Eles sabem que você voltou. — ele respondeu, direto. O coração dela acelerou. — Eles quem? Caio caminhou até ela, parando perto demais. As mãos cerradas ao lado do corpo. A respiração pesada, controlada à força. — Pessoas que não sabem perder. — disse. — E que acham que tudo tem dono. — Inclusive você? — ela provocou, tentando esconder o medo. Foi um erro. O olhar dele se fechou como uma lâmina. — Inclusive você. — respondeu, a voz baixa, perigosa. — Mas a diferença é que eu não deixo ninguém tocar no que é meu. O silêncio que se seguiu foi sufocante. — Você não pode falar assim comigo. — Isadora disse, firme, mesmo com o coração disparado. — Posso quando tentam te usar pra me atingir. — ele rebateu. — Posso quando invadem a minha casa, respiram o seu cheiro e acham que isso não vai ter consequência. Ela sentiu um arrepio descer pela espinha. — Você vai fazer alguma loucura? — perguntou. Caio deu uma risada curta, sem humor. — A loucura foi achar que o passado ia me deixar em paz. Ele se afastou, andando pela sala como um animal enjaulado. Passou a mão pelos cabelos, respirou fundo, tentando conter algo que claramente queria escapar. — Eu avisei que essa cidade não esquece. — disse. — E agora eles estão testando até onde podem ir. — E até onde você vai? — ela perguntou. Ele parou. Virou-se devagar. — Até onde for preciso. — respondeu. — Mas você não vai pagar por isso. — Eu já estou pagando. — ela retrucou. — Estou com medo. Estou sendo vigiada. Estou no meio de algo que você não me conta. Caio fechou os olhos por um instante. Quando abriu, a raiva tinha dado lugar a algo ainda mais perigoso: decisão. — Eu tentei te manter fora. — disse. — Mas não dá mais. Ele se aproximou outra vez, segurando o rosto dela com as mãos firmes, obrigando-a a encará-lo. — Escuta bem, Isadora. — falou. — Se alguém chegar perto de você, se alguém ousar te ameaçar eu vou acabar com essa pessoa. — Isso não é amor. — ela sussurrou. — Não. — ele concordou. — Isso é sobrevivência. As palavras pesaram. Ele a soltou com cuidado, como se tivesse medo do próprio toque. — Você não sai sozinha. — continuou. — Não atende números desconhecidos. E se sentir qualquer coisa fora do lugar, você me chama. Não importa a hora. — Você está tentando me controlar de novo. — ela disse. — Estou tentando te manter viva. — respondeu. O olhar dele suavizou por um segundo, traindo tudo o que tentava esconder. — Eu já perdi você uma vez. — murmurou. — Não vou perder de novo. Isadora sentiu algo apertado dentro do peito. Um misto de medo, compaixão e uma ligação impossível de quebrar. — Caio — começou. — Não discuta comigo agora. — ele pediu, mais baixo. — Hoje não. Ele se afastou, indo até a porta. — Onde você vai? — ela perguntou. Caio parou sem se virar. — Lembrar algumas pessoas de quem eu sou. — respondeu. A porta se fechou atrás dele. Isadora ficou parada no meio da sala, sentindo o coração bater forte demais. Levou a mão ao ventre novamente, o mesmo gesto inconsciente de antes, como se buscasse equilíbrio. Lá fora, o mar rugia. E em algum lugar da cidade, alguém estava prestes a descobrir que provocar Caio Moretti tinha um preço. Alto demais para pagar.
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