Isadora
O perigo muda o ar.
Não é algo que se vê , é algo que se sente.
Ele se infiltra na pele, no cheiro da casa, no jeito que o silêncio pesa mais do que deveria.
Desde que Caio entrou aqui como uma tempestade, nada parecia no lugar.
Nem eu.
Meu corpo ainda tremia, mesmo depois de ele ter conferido cada canto da casa.
Mesmo depois de trancar portas, janelas como se isso fosse suficiente para manter o passado do lado de fora.
Eu tentava parecer calma.
Tentava ser forte.
Mas a verdade era simples e assustadora.
Eu estava com medo.
E Caio percebeu.
— Senta um pouco. — ele disse, a voz mais baixa agora, quase controlada à força.
Obedeci sem discutir.
Não porque ele mandou mas porque, naquele momento, discutir parecia exigir uma força que eu não tinha.
Ele trouxe um copo d’água, observando cada detalhe meu como se eu pudesse desaparecer se ele piscasse.
— Você não devia ter vindo sozinha pra cá hoje. — ele falou.
— Eu não posso viver com você me escoltando o tempo todo. — respondi, tentando manter a firmeza.
— E eu não posso fingir que isso foi só imaginação. — rebateu.
O silêncio caiu entre nós de novo.
Mas era diferente.
Não era vazio.
Estava cheio demais.
Cheio do que quase aconteceu.
Cheio do que ainda podia acontecer.
— Quando senti aquele cheiro — comecei, a voz falhando — foi como se alguém tivesse invadido mais do que a casa. Foi como se tivesse invadido a minha pele.
Caio se aproximou devagar.
Não como antes, impulsivo.
Agora havia cuidado. Controle.
Um controle que parecia prestes a se romper.
— Ninguém tem esse direito. — disse ele, firme.
— Ninguém além de mim.
As palavras deveriam ter me irritado.
Mas não irritaram.
Meu coração acelerou, traindo tudo o que eu tentava manter sob controle.
Ele estava perto demais.
O cheiro dele familiar, perigoso
misturava-se ao medo, criando uma confusão absurda dentro de mim.
— Caio… — sussurrei.
— Isso não é certo.
— Eu sei. — respondeu de imediato.
Os olhos dele desceram para meus lábios.
Foi involuntário.
Ou talvez não.
O tempo desacelerou.
Eu deveria ter me afastado.
Deveria ter dito qualquer coisa.
Mas meu corpo não acompanhou a razão.
O silêncio entre nós era tão carregado que parecia gritar.
— A gente prometeu — comecei.
— Eu sei. — repetiu.
Mas saber não foi suficiente.
O beijo aconteceu como um erro consciente.
Rápido. Um segundo apenas.
Os lábios dele tocaram os meus com uma urgência contida, como se fosse a coisa mais perigosa que já fizemos e talvez fosse.
Não havia profundidade, nem tempo para mais.
Apenas o choque.
O reconhecimento.
A confirmação de que nada estava enterrado de verdade.
Foi o suficiente para me tirar o fôlego.
Caio se afastou imediatamente, como se tivesse tocado fogo.
— Não. — ele disse, rouco.
— Não assim.
Minha mão ainda tremia quando levei os dedos aos lábios, como se pudesse apagar o que sentia.
— Isso não devia ter acontecido. — murmurei.
— Não. — ele concordou.
— Mas aconteceu.
O olhar dele estava diferente.
Não houve triunfo.
Havia luta, Culpa e Desejo reprimido.
— O perigo faz a gente esquecer regras. — ele disse.
— Faz a gente querer segurar o que ama antes que seja tarde.
Meu peito apertou com aquela palavra.
— Amar. — repeti, quase sem voz.
Ele não respondeu.
Apenas respirou fundo, se afastando mais um passo, como se estivesse impondo distância a si mesmo.
— Você precisa descansar. — falou, voltando ao tom controlado.
— Eu vou ficar aqui fora. Qualquer coisa você chama.
Assenti.
Quando ele se afastou, a casa pareceu maior.
Mais vazia.
Mais fria.
Levei a mão ao ventre sem perceber, um gesto instintivo, estranho.
Uma sensação diferente atravessou meu corpo não medo, não desejo.
Algo novo.
Algo silencioso.
Talvez fosse só nervosismo.
Ou talvez fosse o começo de algo que eu ainda não sabia nomear.
Fechei os olhos, sentindo o eco daquele beijo rápido breve demais para satisfazer, intenso demais para esquecer.
Um beijo que não deveria ter acontecido.
E que, mesmo assim, mudou tudo.