Capítulo Oito

2083 Words
Carolina apertou a campainha. Não demorou nem dez segundos para que Roger abrisse a porta com um sorriso no rosto. Ele tinha uma taça de vinho na mão esquerda. — Lina! — cantarolou ele, risonho. — Finalmente você chegou! A loira riu, seu amigo já estava levemente bêbado. Queria ela estar assim em pleno começo da semana. Se ela não tivesse que trabalhar cedo na manhã seguinte, com certeza já estaria na terceira taça. — Desculpa a demora, peguei o metrô assim que consegui — ela explicou, dando um abraço breve no moreno. — Brenda já está aqui? Roger assentiu com a cabeça, abrindo espaço para que a amiga entrasse em seu apartamento. E, como sempre, o lugar estava todo organizado, tirando a mesa de centro na sala, que tinha batata frita, hambúrgueres artesanais — era uma especialidade do anfitrião — e um vinho. Brenda estava sentada no sofá, uma taça equilibrada na mão direita e o controle da TV na outra, enquanto passava as opções de filme em qualquer plataforma de streaming. Era o dia oficial em que eles se reuniam para jogar conversa fora, assistir filmes, beber e comer até dizer chega — Carolina sempre fazia essas duas últimas coisas com muito empenho. — Carolina! — gritou a amiga, mais feliz e risonha do que o normal. — Você chegou! — Cheguei! — Ela correu para abraçar a ruiva, que quase derrubou o vinho no cabelo dela. — Por favor, não me molhe. — Vou pensar no seu caso — disse Brenda com um sorriso malicioso nos lábios vermelhos. Ela deveria ter vindo direto da faculdade, onde sempre ia tão arrumada quanto se fosse sair depois das aulas — o que fato ela fez, só que para a casa do melhor amigo. Roger tinha suas aulas pela manhã, sobrando o resto do dia para trabalhar como garçom no restaurante perto do centro. — Finalmente algo bom para comer — disse ela com água na boca. — Esperei o dia inteiro por esse hambúrguer dos deuses. — Passou o dia com fome, foi? — Roger perguntou, sentando-se ao lado da ruiva, que se entreteve na TV novamente. — Quase isso. — Ela riu de alguma piada interna que só ela sabia. — Só comi umas frutas no lanche. Ele aproveitou para servir a amiga de vinho, que recusou de primeira, alegando que precisava acordar cedo no dia seguinte, mas Roger Philipe da Silva não desistia fácil. — Só uma taça não vai fazer m*l. — Você fala isso porque não precisa trabalhar com dois bebês logo cedo, né? O amigo fez um beicinho, como se fosse um cachorrinho pidão. Carolina ainda não sabia resistir muito bem aos olhos azuis do melhor amigo. — Só uma taça e nada mais — disse decidida, pegando o objeto com a mão esquerda. Roger encheu a taça com uma quantidade generosa de vinho. A loira riu, dando um gole grande da bebida. — Obrigada — agradeceu, voltando sua atenção para os hambúrgueres no meio da mesa de centro. — Como você sabia que eu estava desejando comer exatamente isso? — Eu te conheço, né, Lina — murmurou ele, comendo da batata frita. — E você também pediu na votação. — Ah, é verdade. — Ela riu, totalmente alheia do que tinha feito nos últimos dias. Tanta coisa aconteceu que sua memória só lembrava o básico. — Tinha esquecido. — Afinal, como está o novo emprego? — ele perguntou interessado. — O seu chefe lindo — Roger olhou para a ruiva, que ainda estava entretida na TV e continuou: — está dificultando as coisas? Carolina pensou por um segundo, selecionando o que falaria para o amigo. Não tinha nada de errado no que tinham feito até então. No entanto, a carona que recebeu hoje mais cedo a deixou abalada e, de certa forma, não queria compartilhar com ninguém o que tinha descoberto. Não era seu segredo, se é que podia se chamar assim, para contar, mas era mais que isso. Ela sentiu uma conexão diferente. E era bom. — Ah, os gêmeos são umas gracinhas — disse ela, sentindo o rosto queimar com as memórias de hoje mais cedo naquele carro gelado. — Já os amo mais do que tudo nesse mundo. — Vai nos trocar fácil assim? — Brenda se fez presente na conversa, deixando o controle da TV de lado. — Por crianças que nem sabem falar ainda? A ruiva parecia um tanto revoltada e Carolina não pôde segurar a risada que surgiu em sua garganta. Era engraçado, para dizer o mínimo, que a melhor amiga estivesse com ciúmes de dois bebês. — São bebês, Brenda — disse a loira, como se só isso explicasse tudo. — Não sei porque está se sentindo ameaçada por eles. — Ela é louca — Roger murmurou, abanando a mão. — E deve estar bêbada. Isso podia ser verdade. Branda sempre se sentia inferior e insegura quando estava bêbada. Não tinha explicação melhor do que isso. Carolina e Roger tinham que reafirmar que a amavam praticamente o tempo todo. Ela até que era forte pra bebida, mas vinho era o seu ponto fraco, bebendo como se fosse água. — Eu 'tô bêbada — afirmou a ruiva, levantando-se com os braços abertos para a amiga. — Por favor, não me abandone. Eu te amo. Muito. Carolina riu levemente, desviando seu olhar do amigo para a ruiva, que sentou em seu colo e a abraçou muito apertado. — Eu também te amo, Bê! — a loira disse calmamente, tentando tranquilizar a amiga. — Eu nunca vou te abandonar, disso pode ter certeza. Pereira, tirou o cabelo dela do rosto, fixando seus olhares. Brenda pareceu se acalmar e sorriu. Tinha tempo que ela não se sentia desse jeito, mesmo bêbada. O que tinha acontecido para que isso acontecesse? Será que seu novo trabalho com os gêmeos realmente tinha mexido com ela? Carolina achava que não, era outra coisa. — Pede pro Roger também não me abandonar. — Não tinha sido uma pergunta e a loira trocou olhares com o amigo, que estava praticamente ao seu lado. — Gosto muito dele. Mas ele me ignora. Carolina não sabia o que dizer ou fazer. Roger ficou em silêncio, sentindo o coração disparar dentro do peito. Ele sabia que viviam em pé de guerra, mas nunca deixou de gostar da amiga. Eles eram amigos havia cinco anos e nada tinha os separado, não seria agora que começariam a brigar de verdade. — Ele não vai te abandonar — disse a loira, afagando o cabelo ruivo da amiga enquanto a abraçava de volta com o outro braço. — Promete? — indagou a outra com um biquinho nos lábios. — Promete? — Prometo! — Carolina pegou a taça vazia dela e colocou na mesa de centro, impedindo-a de beber qualquer coisa que não fosse água. — Agora vem comer, você precisa de comida. Roger observou Brenda sair do colo da loira para sentar no chão. Ela pegou o primeiro hambúrguer que viu e mordeu, emitindo um gemido de satisfação no processo. Ele não tinha entendido o que tinha acabado de acontecer e ao olhar para Carolina, viu que ela também não fazia ideia do que foi aquilo. Silva viu o quanto a ruiva tinha bebido, chegando muito mais cedo do que o combinado. Não era atoa que já estivesse bêbada. Tudo o que ela precisava agora era comer, tomar bastante água e descansar. O filme teria que ficar para outro dia. Carolina aproveitou para comer também, estava faminta. E não deixou o vinho de lado, assim como a batata frita. Estava tão delicioso que ela tinha até esquecido do que eles falavam antes da Brenda os interromper. — Tudo certo com os gêmeos? — ele perguntou novamente, com uma sobrancelha arqueada. — Mesmo? — Sim — disse simplesmente, abanando a mão para dispensar as perguntas dele. — Só se passaram dois dias, não deu tempo de acontecer muita coisa. Roger pareceu pensar por um momento, cedendo um pouco das perguntas que queria fazer, comendo uma ou outra batata frita. Ele sempre foi muito sensitivo, captando alguma coisa na amiga que ele não conseguia identificar direito o que era. Então deixou passar. Talvez nem a loira soubesse ainda. — E em relação aos seus chefes? São gente boa? — Ele tentou mais uma vez, no entanto, ainda estava tentando entender o que tinha acontecido com a Brenda. — Por que se não forem, avisa que vou lá dar um jeito neles. Carolina gargalhou, tampando a boca com as mãos. Era engraçado imaginar essa imagem. Roger era muito alto — quase do tamanho do Romeu —, musculoso e grande. Tudo nele gritava macho alfa — o que não deixava de ser —, no entanto, ele era um doce de pessoa. Sempre se preocupando com os outros, assistindo filmes de romance com as amigas. — Romeu é querido até mesmo se não quisesse ser — disse a loira, evitando olhar nos olhos do amigo. Falar do seu chefe enquanto estivesse tomando vinho era uma combinação que Carolina tentava evitar. — Sua esposa, pelo contrário, parece ser mais reservada. Hoje mesmo ela nem olhou na minha cara. E olha que eu estava dançando com seu marido. Roger deixou o queixo cair, querendo saber mais dessa história. Mas antes, ele serviu um pouco mais de vinho para os dois. Carolina nem percebeu ou fingiu não notar, pegando a taça logo em seguida para tomar mais um gole da bebida. — Naaão — ele arrastou a palavra, sem acreditar. — Como assim? Carolina riu da resposta física do amigo, ele era doido por uma fofoca. — Ele quis porque quis fazer uma vitamina de abacate, que eu só descobri depois — continuou ela, gesticulando com as mãos. — E inventou uma dança maluca com o som do liquidificador. Ele me chamou para acompanhá-lo e eu fui. — Simples assim? — Simples assim. — Uau. — Ele estava admirado com tudo isso, imaginando a cena em sua cabeça. — E aí? — E aí que a Roberta apareceu do nada, brigando com ele, mas não disse nada para mim e quando eu vi, ela já tinha ido embora. Carolina reviveu a cena, sentindo a felicidade de mais cedo enquanto dançava na batida improvisada do seu chefe. Era uma coisa muito simples, porém divertida. Ela viu, novamente, o sorriso aberto que chegava até os olhos do seu chefe, irradiando a cozinha inteira. Pereira se reprimiu por não ter aproveitado melhor aquela cena e, de repente, tudo se foi com a chegada da sua esposa brigando. — Foi horrível, para dizer o mínimo — murmurou ela, odiando a si mesma por ter gostado de ter o sorriso do chefe só para si. — Ela é bem grossa. Espero nunca ter que ficar sozinha com ela naquela casa enorme. — A casa é enorme? — Roger mudou a direção do assunto, curioso com outra coisa. — Ah, sim. Um casarão em forma de apartamento. Carolina riu da careta que seu amigo fez, ele adorava uma fofoca. Ele sempre chegava com assuntos interessantes de onde trabalhava, contando tudo para as amigas. Como se isso não bastasse, Silva ouvia as brigas dos seus vizinhos com um pote de pipoca e uma taça de vinho. Enquanto isso, Brenda já tinha terminado de comer e praticamente dormia sentada. Com isso, a loira entrou em uma discussão saudável de caretas com o amigo para saber quem iria lavar a louça e quem iria levar Brenda para deitar na cama. Ambos queriam levar a amiga para dormir, porque nenhum dos dois queria lavar a louça. — A regra é clara, Lina — disse ele, a voz tão baixa quanto sua vontade de mexer com água gelada. — Quem cozinha não lava a louça. — Essa regra é nova. Nunca ouvi falar dela antes. Era engraçado como ambos sussurravam com certa raiva no tom de voz, gesticulando nervosamente. No entanto, a briga encerrou quando uma Brenda sonolenta ficou de joelhos e se jogou no corpo do Roger. Ela estava com o rosto na curvatura do pescoço dele, os braços a sua volta. Era uma cena linda, na humilde opinião de Carolina. Roger ficou tão surpreso que sua única reação foi segurar a ruiva pela cintura para que ela não caísse de cara no chão. E com um sorriso vitorioso, ele pegou a amiga no colo e foi para o seu quarto. Ali estava decidido, Carolina tinha perdido. A louça era dela.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD