Capítulo Um
Todo mundo tinha um sonho.
Seja em casar, ter filhos, comprar um carro, comprar uma casa, viajar ou qualquer outra opção. As pessoas se sentiam realizadas de tal forma que a próxima etapa era acrescentar mais um na lista. E o de Carolina, no momento, era se formar em Letras - Português. E o próximo era conseguir um trabalho como tradutora na Editora Foz, a maior editora de São Paulo.
Carolina Pereira tinha vinte e nove anos e cursava o seu último ano do curso que mais se identificava, o de Letras. Era o momento mais caótico, mas também feliz. Por mais que as matérias estivessem mais focadas no TCC, suas noites de sono eram escassas e a dose de cafeína era muito maior do que costumava tomar, Carolina sabia que todo o seu esforço seria muito bem recompensado no final. Ela só precisava focar na recompensa a longo prazo.
E era isso que ela fazia.
Naquele exato momento, Carolina corria o mais rápido que podia contra a multidão de dentro do metrô para chegar na sala onde seu orientador esperava por ela. Era o rascunho final para ser avaliado que ela precisava entregar e assim, com sorte, ter um pouco de paz até o semestre acabar, pelo menos nessa matéria.
Ela não costumava se atrasar nos seus compromissos, porém, teve um contratempo com o dono do apartamento no qual vivia de aluguel. Ele decidiu fazer a reforma que precisava no único banheiro da casa justamente naquele dia — o único dia em que ela deixou bastante claro que não poderia estar em casa — e o senhor que iria trabalhar se atrasou, fazendo com que ela se atrasasse. E o pior de tudo, Carolina o deixou trabalhando lá, só não sozinho porque Brenda, sua melhor amiga, chegou para lhe salvar e vigiar tudo.
O metrô de São Paulo era o melhor do Brasil, no entanto, era o mais cheio também e o fluxo de alunos que teriam aula no período da tarde saíam em fluxo constante da estação. Era uma luta constante, de segunda à sexta, andar naquela estação, o horário que fosse.
Seria muito mais fácil se ela só mandasse o artigo por email, mas Carolina gostava do feedback presencial. As dúvidas eram melhor respondidas quando se estava frente a frente com seu orientador. E por mais que fosse complicado — no momento — chegar no prédio principal de Letras, onde era esperada, suas pernas se mexiam o mais rápido que conseguia. Era quase uma afronta consigo mesmo sentir todas aquelas dores nos músculos inferiores por esse esforço, sendo que se dedicava todo dia a fazer uma corrida pela manhã antes de ir para as aulas. Seu corpo devia estar acostumado, mas talvez seja apenas os sapatos inapropriados do qual usava, que não ajudava em nada. Tinha que se lembrar de usar um de seus tênis próprios para corrida, caso estivesse atrasada de novo — e não uma rasteirinha.
Era tão bom estar em casa e com o banheiro consertado que Carolina demorou um pouquinho mais no banho depois de voltar da faculdade.
Graças a Deus, seu TCC estava praticamente pronto, sem muitas coisas para acrescentar, só apenas uma ou duas citações que precisava arrumar e estaria pronto para — dessa vez — mandar o artigo para o orientador.
Sua corrida, afinal, tinha sido recompensada — o que fazia as pequenas dores em seus pés um pouco mais bem recebidas, tinha valido a pena o esforço. E um lembrete de nunca mais usar rasteirinha em um dia em que estivesse atrasada estaria sempre em sua mente.
Agora, sentada no sofá da sala, embrulhada no seu cobertor fofo, vestindo seu pijama preferido e uma xícara de café na mão, Carolina olhava os boletos que precisava pagar. Hoje era aquele dia em que todo adulto temia, onde todo o seu dinheiro iria embora e quase não sobrava nada.
Com tudo pago, a loira percebeu que, de fato, não lhe tinha sobrado muito dinheiro. Aquela quantia daria para fazer as compras do mês e praticamente só isso. Ela definitivamente precisava de um outro emprego urgente.
Carolina trabalhava como estagiária de tradução e revisão na Editora Culta, vinculada com a faculdade, onde os professores indicavam seus melhores alunos — sorte dela que seu orientador a tinha ajudado no seu currículo e com a carta de indicação para Romeu, seu atual chefe, que a acolheu com muito carinho.
E enquanto sua mente trabalhava em como conseguir outra fonte de renda, uma parte de sua mente pensava em sua mãe, que podia e iria ajudá-la sem pensar duas vezes caso pedisse. No entanto, Carolina não poderia, e nem queria, isso. Em seus vinte e nove anos, não daria mais esse trabalho para a progenitora, já que desde os vinte e um aprendeu a se virar sozinha.
Ela passou por perrengues muito piores do que esse e não era por isso que voltaria com o r**o entre as pernas direto para a mãe. Não que fosse uma opção r**m, ajudaria até demais, mas Carolina se recusava a ceder em qualquer dificuldade que tivesse, voltando para a proteção dos braços da sua tão amada mãe. A Pereira tinha e iria conseguir sair dessa sozinha.
Disso ela tinha certeza.
E, talvez, virar atendente na cafeteria do tio não seria de todo r**m. Afinal, estaria se esforçando para de fato trabalhar e não apenas pegando dinheiro emprestado. Tio Júnior a tinha ajudado desde que se mudara para a grande São Paulo.
Era a opção mais óbvia na qual conseguia pensar para sair daquele buraco. Além de sair entregando e mandando currículo nos lugares e empresas de tradução. Não poderia ser tão difícil assim, né?
Carolina esperava que não.
Saindo da faculdade depois do horário de almoço, para conversar com um professor, Carolina foi direto para a Editora. Era melhor chegar adiantada e almoçar depois do que atrasada e sem comer. Ela nunca sentia muita fome pela manhã, então uma salada era mais do que suficiente para lhe dar toda a energia que precisava.
Teria tempo o bastante para ir de metrô até o trabalho, onde entrava uma e meia. Esse tempo de intervalo entre uma atividade e outra era, também, mais do que suficiente para começar a ler qualquer texto no qual precisava para alguma outra aula, economizando tempo.
— Chegou cedo, querida — Dona Regina, sua outra chefe, comentou ao ver que Carolina entrava na pequena cozinha do escritório. — Não sei nem porque falo isso toda vez que te vejo aqui a uma hora.
A mulher mais velha riu da própria atitude, indo até a geladeira pegar sua marmita. E Carolina se juntou à ela, era sempre muito bem vinda no ambiente de trabalho. Ela correu para dar um abraço na morena grisalha, que apertou as bochechas um pouco avantajadas da mais nova.
— É sempre uma honra ouvir tais palavras — disse a loira, soltando a senhora. — Odeio chegar atrasada em qualquer lugar que for.
— É um hábito saudável, querida — respondeu a outra, colocando sua comida no microondas, escolhendo o tempo exato para esquentar direitinho. — Eu quando era da sua idade, chegava atrasada até mesmo para jantar em família.
Carolina fez uma careta, pensando nas broncas que seus pais lhe dariam se isso acontecesse com ela.
— Minha mãe arrancaria minha cabeça — comentou a loira, sentindo um arrepio só de imaginar.
— Exatamente o que minha mãe fazia toda vez — disse Dona Regina, balançando a cabeça em negação como se tivesse acabado de ver a careta furiosa da mãe em sua frente. — Até que criei vergonha e me disciplinei na marra.
As duas riram como se compartilhassem um segredo.
— Deve ter sido difícil. Não consigo nem me imaginar chegando atrasada, sinto arrepios só de pensar.
— Ah, foi muito complicado. Comecei a acordar muito mais cedo do que o de costume — murmurou a senhora, um pouco indignada. — Isso me deixava super estressada.
— Imagino que sim — concordou Carolina, abrindo sua própria marmita.
— Foi um período muito difícil, mais ainda para as pessoas ao meu redor — disse a outra dando de ombros. — Até que me acostumei e nunca mais cheguei atrasada.
— Que história linda, Dona Regina — uma nova voz disse, da porta da cozinha. — Eu deveria fazer o mesmo.
— É um milagre que tenha chegado tão cedo... — a morena murmurou, um sorriso nos lábios. — Chefinho.
Romeu riu, aproximando-se para abraçar a senhora, que era mais velha que ele. Carolina esboçou um sorriso, enquanto comia sua salada de vegetais.
— Carolina, essa mulher é uma superação por si só — disse ele, apertando os ombros da loira. — Deveria ouvir as outras histórias dela. Ela era um caos quando nos conhecemos.
Pereira arregalou os olhos, instigada a saber mais da sua, também, chefe. A curiosidade dela sempre falava mais alto em histórias como essa — ou essas.
— Se não fosse por mim, não sei o que seria dela.
— Deixe de ser dramático. Eu não era tão r**m assim.
— Sua mãe me agradece até hoje, sabia? Mandando aquele bolo de mandioca que eu amo.
— Ora, que exagerado. Não acredite nele, Carolina, querida.
A loira balançava a cabeça em negação, rindo das alfinetadas dos dois. E por um momento se sentia sortuda por ter um ambiente tão agradável, ainda que fosse temporário. Uma tristeza a acometeu ao pensar que um dia não estaria mais ali, provavelmente no final do próximo semestre.
O microondas apitou e Dona Regina, sorridente, pegou sua marmita quente, sentando-se ao lado da Carolina para almoçarem juntas. E se sentou também, mas sem marmita nenhuma. Ele tinha almoçado em casa com a esposa e os gêmeos.
Como ela sabia disso? Bem, porque nas terças-feiras ele só começava a trabalhar uma e meia e, por ter vindo de casa, era óbvio que tinha comido antes de vir. E sobre a família, bom, ele falava bastante deles.
Carolina sabia que Romeu tinha dois lindos e fofos filhos bebês, João e Bernardo, e um mais velho chamado Eduardo. Uma vez a esposa dele trouxe os gêmeos para uma visita rápida e a loira teve a chance de conhecer esses anjos. Ela só não conhecia o filho mais velho do chefe, que era de outro casamento.
Pereira perdeu um pouco da conversa que os outros dois presentes estavam tendo, absorvida até demais em seus próprios pensamentos, mas ouviu bem a segunda parte dela.
— Roberta vai voltar a trabalhar e precisamos de uma babá urgentemente.
— Ah, eu adoraria ficar com esses lindinhos... — Dona Regina disse sonhadora. Ela já tinha terminado de comer boa parte da marmita.
— Se conhecer alguém de confiança, me avise. Beta volta na segunda que vem. — Romeu murmurou, um sorriso nos lábios.
— Você sabe que sim. — A senhora gesticulou um joinha e voltou a comer enquanto o chefe saía da cozinha.
— Até daqui a pouco — ele murmurou, sumindo pelo portal da cozinha.
O silêncio reinou por alguns minutos. A mente de Carolina trabalhando a mil. Era uma nova chance de ganhar dinheiro como ela bem precisava. Seria a oportunidade perfeita. E enquanto Carolina pensava nas possibilidades de isso dar certo, Dona Regina falava praticamente sozinha, mas ela não se importava nem um pouco.
— ... Dá vontade de apertar as bochechas gordinhas. E o pé? Dá vontade de morder ele todinho.
Carolina piscou os olhos, tentando se situar na conversa unilateral. De repente se lembrou que Dona Regina tinha tido uma neta recentemente, achando que seria dela de quem ela falava.
— Sua netinha, Maria Júlia? — perguntou, esperando fielmente que fosse isso.
— A própria. — Ela riu, os olhos se fechando no processo. — Passei esse final de semana com ela... Nossa caçulinha já é mimada até demais.
Carolina sorriu, sem saber muito o que falar com a senhora sonhadora. A loira ficou pensando quando tivesse um filho, se ficaria do mesmo jeito. E na hora a resposta positiva, de que sim, seria a mais fã do bebê, chegou em sua mente. Ela era louca para ser mãe, mas por não ter encontrado alguém que a desejasse para ter um futuro juntos, ainda ficava na esperança do seu dia finalmente chegar ou se, de repente, acontecesse por meio do destino. Não seria de todo r**m, em nenhuma das opções.
— Deve ser muito bom ser avó, né? — perguntou a Pereira, comendo a última garfada de sua salada. — Não vejo a hora de ser mãe.
— Ah, querida, sua hora vai chegar no momento certo — disse a senhora, segurando a mão repousada na mesa da loira. — E, sim, é maravilhoso ter netos. Parece que amamos mais os netos. — E ela riu, como se contasse um segredo.
Carolina imitou o gesto, tampando a boca com uma mão. Não queria que Dona Regina visse sua boca cheia de alface ou os dentes todos vermelhos de beterraba — não que estivesse tudo sujo, mas preferia evitar tal visão.
— Ainda estou longe de ter meus netos.
— Quando menos você esperar, já estará com a idade de vó. Acredite.
Pereira assentiu, balançando a cabeça e, depois de verificar os dentes com a própria língua, decidiu sorrir abertamente. Ela esperava que pudesse aproveitar bem os momentos com os filhos — sua vontade de ter dois, no máximo —, cada pequeno aspecto novo que desbloqueasse quando fosse mãe.
— Sua vez vai chegar, querida. Não apresse nada.
Dona Regina falou com uma convicção tão forte que Carolina ficou pensando se talvez isso fosse uma previsão do futuro. Ela até mesmo sentiu um friozinho arrepiar todo o seu corpo com essa fala.
Bom, se esperar era o que ela tinha que fazer, então Carolina esperaria.