Carolina tinha o costume de acordar cedo.
Não seis horas como agora deveria acordar, mas umas sete e meia era certo que já estava acordada. A única coisa r**m de ter esse novo emprego era acordar mais cedo do que estava acostumada.
O banho quente era rotina, precisava para despertar completamente. E como esperava, seu cabelo estava todo embaraçado. No entanto, não iria lavá-lo novamente em dois dias seguidos. Iria penteá-lo e arrumar um coque bem feito para disfarçar a bagunça — era o que sempre fazia nessas situações.
E mais planejada do que ontem, fez sua marmita de salada para almoçar na editora e umas frutas de lanche, tanto para a manhã quanto para a tarde. Não iria passar necessidade, sendo que já tinha aprendido a lição.
Hoje ela tinha outros planos para fazer com os gêmeos e estava ansiosa para chegar no apartamento do chefe. Seis e quarenta já estava pronta para sair e pegar o inferno de metrô até a Vila Olímpia. Esse horário de pico era um terror, mas, por ser pequena, tinha suas vantagens de poder entrar em qualquer buraquinho que tivesse entre as pessoas.
Carolina apertou o interfone do prédio.
Foi a mesma coisa que ontem, logo logo ela estava subindo de elevador até o décimo segundo andar. Esperando que dessa vez o insuportável não abrisse a porta ou teria um pequeno surto logo cedo.
No entanto, deu de cara com Romeu, bem na hora em que ele estava abrindo a porta.
— Bom dia! — ele saudou animado, um sorriso nos lábios.
Carolina não quis ser indelicada ao observar descaradamente seu chefe com roupa de malhar bem em frente a porta do seu apartamento, mas foi difícil desviar os olhos.
Romeu estava todo suado, da cabeça ao pés — ela tinha certeza disso. Usava uma camiseta azul escura cavada, que mostrava todos os seus músculos e parte da sua barriga travada. Seu short preto era um tanto curto e largo, deixando à mostra suas coxas torneadas.
Tinha ficado quente aqui ou era impressão da loira?
— Bom dia, senh- — Carolina parou de falar assim que viu a careta no rosto do seu chefe. — Romeu.
— Assim é melhor. — Ele sorriu novamente, abrindo a porta para que ela entrasse antes dele. — Vai ter que se acostumar com o meu nome, mocinha.
Carolina corou — um pouquinho mais do que já estava —, parando a alguns passos da porta. Ela ainda se sentia tímida ao entrar em sua casa quando ele continuava ali. Era como se fosse uma visita, só que não era de fato uma, já que trabalhava para ele — duplamente.
— Já tomou café? — ele perguntou, indo para a cozinha e a loira o seguiu. — Posso te fazer uma vitamina, o que acha?
— Agradeço, mas já comi antes de sair de casa.
— Não acredito que vai recusar minha vitamina!
Carolina arregalou os olhos, sem saber como foi se meter nessa situação. Então ela assentiu com a cabeça, concordando com o seu chefe.
— Assim que eu gosto.
E Carolina observou o mais velho trabalhar em sua cozinha, andando de um lado para o outro enquanto buscava os materiais e aparelhos. Uma chance e tanto para ficar olhando os músculos do seu, duplamente, chefe. Era uma ótima vista, se vocês perguntassem a loira. Mas claro que ela tentava disfarçar, já que ele a olhava vez ou outra.
Ela tentava achar algum assunto bom o suficiente para conversar com ele, não sadio de sua parte só ficar olhando como uma pamonha.
— Posso ajudar em algo? — perguntou, mordendo os lábios de nervosismo, indo para mais perto dele.
— Não, senhora. Pode ficar quietinha aí.
Carolina encolheu os ombros, sem saber o que fazer enquanto esperava seu chefe terminar a bendita vitamina. Ela nem mesmo sabia que tipo de vitamina era. Só esperava que não fosse uma daquelas horríveis que todo marombeiro tomava ou teria que arranjar um jeito de mentir muito bem — e de não tomar.
— Ontem eu terminei de revisar aquel- — ela não conseguiu terminar de falar, porque Romeu a interrompeu com uma toalha voando no seu rosto.
— Nada de falar de trabalho!
Carolina ainda estava com a toalha no rosto quando ele disse isso, voltando a mexer no liquidificador como se não tivesse acontecido nada. Enquanto isso, o Paiva ria de alguma coisa, que a loira tinha certeza que era de si.
Quando finalmente tirou o tecido de si, Carolina começou a rir baixinho dos passos de dança que o moreno fazia, improvisando uma cantoria de pagode. Ela não sabia que ele tinha tanto pique logo cedo e, que assim como ela, adorava cantar em qualquer situação. Pereira defendia as cantorias dos filmes da Disney, deixando tudo mais leve e dinâmico ao que eles sentiam. Se ela pudesse transformar sua vida em musical, apostaria que tudo seria mais fácil.
— O sen- você dança muito bem — disse com uma risadinha, aplaudindo a mini apresentação do mais velho.
— Venha dançar comigo, Carolina — cantarolou ele, chamando-a com as mãos. — Venha!
Ela não tinha outra opção que não fosse remexer o esqueleto junto com ele. Não seria tão r**m compartilhar de uma memória tão alegre quanto essa. Por esse motivo, Carolina deixou sua mochila na cadeira da bancada americana da cozinha e se juntou ao chefe, que sorria com os olhos fechados.
Ele continuava a improvisar sua cantoria, deixando tudo mais divertido ainda. Romeu brincava com o liquidificador, aumentando e diminuindo a velocidade de trituração dele, dando assim um ritmo engraçado para que eles dançassem.
No entanto, a alegria durou pouco. Roberta, sua esposa, apareceu de cara fechada na cozinha, repreendendo o marido com os olhos delineados.
— O que está fazendo? — ela praticamente gritou, dispersando a cantoria e os passos de dança. — Quer acordar os meninos?
Carolina, sem ter onde enfiar a cara, parou onde estava e abaixou os olhos. Contudo, Roberta não olhava para ela e sim só para o marido.
— O que acha que está fazendo, Romeu?
— Uma vitamina — ele disse simplesmente, erguendo os ombros para a esposa, que quase bufava de raiva. — Quer?
— Óbvio que não — ela resmungou, jogando o cabelo comprido para trás. — Você sabe que não tomo essas suas invenções.
Carolina voltou a olhar para cima, tentando se mexer o mínimo possível para sair dali o mais rápido que conseguisse, porém Roberta já tinha saído da cozinha. A alegria que se expandiu por seu corpo inteiro tinha se dissipado e a loira voltou para a bancada americana.
— Não liga pra ela — disse Romeu, revirando os olhos. — Ela não acorda de bom humor.
Ele lhe entregou um copo com a vitamina, que tinha a aparência verde clara e Carolina estremeceu com as possibilidades do que seria aquilo. Ela não tinha prestado atenção o suficiente para perceber o que ele pegava, estava mais interessada em observar seu corpo monumental. Pensar nisso a deixou corada de novo.
— É de abacate — murmurou o moreno quando chegou mais perto dela, sentando-se em uma cadeira da bancada. — Minha receita secreta — sussurrou a última parte.
Carolina assentiu e resolveu provar um pouco da bebida. Ela não era muito fã da fruta — nunca tinha tomado vitamina de abacate antes —, gostando de comer apenas como guacamole — onde era uma especialista nessa receita. Não podia ser tão r**m, né?
Com o primeiro gole, ela estava receosa, mas foi a fundo para descobrir se valia a pena mesmo ser uma receita secreta do seu, duplamente, chefe. E não era tão r**m assim, foi o que constatou. Tinha um gosto doce que ela não sabia de onde vinha, porque o abacate não poderia ser tão gostoso desse jeito.
— E aí? Gostou? — ele perguntou, erguendo as sobrancelhas e um sorriso nos lábios finos.
Antes que Carolina pudesse responder, ela terminou de tomar tudo, colocando o copo em cima da bancada.
— Uma delícia — disse, lambendo os lábios.
Romeu riu, daquele jeito que ele sempre fazia — fechando os olhos no processo — e, de repente, abaixou o olhar para a boca da loira, parecendo um tanto hipnotizado. Carolina corou quando percebeu que ele olhava para seus lábios, lambendo-os por instinto. Ela fechou os olhos por alguns segundos, tentando se acalmar — não queria que ficasse na cara que tinha o pegado no flagra.
Mas então ele ergueu a mão, apontando com o dedo indicador à própria boca. Não, na verdade acima do lábio superior. Ele ainda olhava.
Carolina não entendeu de primeira, lambendo os lábios mais de uma vez, mas na última sentiu que tinha espuma da vitamina no rosto, acima da boca para ser mais precisa. Ela limpou rapidamente, sentindo a vergonha salpicar seu rosto inteiro de vermelho.
— Desculpa — ela suspirou a palavra, notando que estavam um pouco próximos. E antes de abaixar a cabeça, olhou diretamente nos olhos verdes, que estavam escuros.
— Não precisa pedir desculpa — ele sussurrou. Era como se estivessem trocando segredos.
E por mais bizarra que fosse a situação, Carolina gostou disso. A proximidade deles era algo novo e bem vindo, pelo menos para a loira.
No entanto, ela não sabia o que vinha acontecendo com ela. Carolina nunca foi de prestar atenção nos seus chefes, ainda mais no Romeu. Era óbvio que ele era lindo e charmoso, mas o que ela esperava que ele fizesse consigo? Ele tinha vinte anos a mais, era casado e tinha três filhos. O que ele poderia querer consigo? Nada, obviamente.
Além disso, porque estava pensando nessas coisas? Não tinha nada demais nisso, Carolina que estava fazendo disso algo maior do que realmente era.
Então porque sentia seu estômago revirar com a distância quase próxima deles? Ou porque suas bochechas ficavam quentes quando sabia que ele ainda olhava seus lábios? Bom, ela não queria uma resposta sobre isso. Preferia mil vezes deixar essa situação de lado e fazer o que tinha vindo fazer: cuidar dos filhos dele.
— Obrigada — ela se viu sussurrando de volta, ao que ele assentiu levemente com a cabeça.
Carolina se afastou, consciente de que estava com as costas um pouco curvadas. Ela levantou, piscando algumas vezes, depois pegou os dois copos e foi para a pia. Nada mais justo que lavar o que ele tinha sujado para fazer a deliciosa vitamina de abacate.
— Não precisa lavar nada — disse ele, ainda sentado na cadeira da bancada. Nem um pouco convincente de que ela não precisava fazer isso. — Deixa que a moça que limpa aqui em casa faz isso.
Romeu também se sentia quente e ele não sabia dizer o motivo dessa repentina sensação. Ele não era de reparar muito nas mulheres, afinal, já era casado e tinha três filhos. Ele nunca tinha traído nenhuma mulher sua, então não via sentido em fantasiar as coisas com outras mulheres. Não era agora que isso ia mudar. No entanto, tinha algo em Carolina que ele sempre se pegava duvidando de suas crenças.
— Carolina — ele chamou de onde estava, mas não sabia realmente o que queria falar, então deixou seu nome no ar.
— Ah, Carol já está aqui? — uma nova voz se fez presente. E a loira se viu retesando todo o seu corpo. — Achei que iria encontrá-la parada na nossa porta como ontem.
— O nome dela é Carolina, Eduardo.
— É mesmo? — o moreno mais novo resmungou, cínico. — Acho que prefiro chamá-la de Carol.
Romeu ergueu a sobrancelha, não gostava dos modos do filho e precisava constantemente repreendê-lo no dia a dia. Ele era impossível quando queria.
— Não é uma escolha sua.
Eduardo revirou os olhos e pegou uma caneca perto de onde a loira estava, pegando o restante da vitamina de abacate que tinha no liquidificador.
— Carolina — ele murmurou perto da orelha da mais nova, rindo baixinho em seguida. — Gostou da vitamina? Meu pai sempre faz nas terças. Devia se juntar a nós nos cafés da manhã.
A loira estremeceu com a proximidade, reparando que já estava comparando as reações que tinha com esses dois homens. Pai e filho. Deus, onde estava se metendo?
— Essa é uma excelente ideia — concordou Romeu, sorrindo de verdade. Ele já tinha ótimas ideias do que fazer de café nos dias seguintes. — Diga que aceita.
Carolina não conseguiu dizer não para os olhos brilhantes do seu, duplamente, chefe. Ele estava tão feliz com a sugestão que era possível que ele insistisse até que ela fosse vencida pelo cansaço. De alguma forma, Romeu a lembrava de uma criança quando ficava alegre ou empolgado com alguma coisa. Isso mostrava o quão parecido era com João, seu filho.
— Posso pensar no assunto? — perguntou, não querendo se comprometer logo de cara.
— Tudo bem, pode me dizer hoje mais tarde na editora.
Droga!
Carolina achou que teria mais tempo para pensar no assunto. Ela teria que se decidir o mais rápido possível — isso se tivesse tempo até lá.
— Ótimo! Romeu disse e saiu da cozinha, indo em direção dos quartos.
Quando ela terminou de lavar os copos e o liquidificador, voltou-se para Eduardo, que analisava todos os movimentos dela. Ele tinha um sorriso sarcástico no rosto.
— O que você quer?
— Nossa, assim você magoa meus sentimentos — ele disse com falsidade, colocando a mão direita no peito. — Achei que já fôssemos amigos.
— Nem no seus melhores sonhos, Edu.
Com isso dito, ela secou as mãos no pano de prato mais próximo, pegou sua mochila e seguiu para o quarto dos gêmeos. Carolina nem esperou para ouvir qualquer outra gracinha que ele estava prestes a falar.
No meio do caminho, conseguia ouvir um gritos no quarto do casal dono do apartamento. Parecia alguma discussão sobre alguma coisa e Carolina esperava que não estivesse relacionado a sua pessoa ou teria problemas.
Chegando no quarto, viu a cena de ontem se repetindo. Bernardo dormia tranquilamente no seu berço, ressonando suavemente. Já João brincava com um ursinho de pelúcia de girafa que estava com ele no berço.
Carolina sorriu para ele, dando um bom dia baixinho para não acordar o outro. E seu sorriso aumentou quando João balbuciou para ela, mordendo a barriga do urso de pelúcia. Hoje ela tinha ótimos planos para fazer com os dois e estava ansiosa para que todo mundo saísse para que pudesse colocar seu plano em prática.
Ela estava ajeitando as roupas que tinha escolhido para o banho deles mais tarde quando Romeu colocou a cabeça para dentro do quarto, anunciando sua presença.
— Tenho alguns avisos para te dar — disse ele, entrando completamente no cômodo. Carolina se virou para o chefe e esperou.
Dessa vez ele vestia seu usual terno preto, todo alinhado no corpo. A barba estava feita e o seu perfume masculino era forte. Carolina ficou com vergonha de passar os olhos no corpo dele, tão descaradamente, então optou por olhar parcelado.
Primeiro viu os cachos perfeitos em cima da cabeça, penteado de forma que ficassem um pouquinho bagunçados. Então olhou para os gêmeos, verificando que Bernardo tinha acordado, abrindo a boca para um bocejo fofo. Depois, reparou que sua gravata estava torta, mas não queria dizer nada, porque isso significaria que ela estava de olho nele, o que ela não queria que ele soubesse. Ela olhou para as roupas que tinha separado, ajeitando as pontas dobradas. E na terceira vez que olhou, ele a olhava de volta, com um sorriso no rosto.
Joana, a moça que limpa aqui em casa chegará as oito e meia, então não estranhe quando ela chegar. Ela ficará responsável pelo almoço, tanto dos gêmeos quanto para você, então não vá para a editora antes de almoçar devidamente.
Carolina piscou algumas vezes, assentindo com a cabeça e imaginando que ele tinha suposto que ela não tinha comido ontem. No entanto, ela realmente não comido nada na casa dele, mas comeu um salgado duvidoso na padaria perto da estação do metrô. Como ele poderia saber disso, ela não tinha ideia.
— Mais tarde, na editora, vou te dar a chave aqui de casa para que entre sem ter que interfonar toda vez, assim vai ficar mais fácil. E, por último, mas não menos importante, tenha uma ótima manhã com meus pimpolhos.
Carolina riu, achando muito fofo a forma como ele se referia aos filhos.
— Pensei em dar uma passeada no parque hoje, acho que seria bom eles tomarem um sol — disse ela, um tanto tímida. Mas Romeu pareceu gostar da iniciativa.
— Perfeito! Eles vão adorar. Qualquer coisa, peça a Joana para ir com você, assim será mais fácil de ir com os dois.
— Vou ver com ela.
Contudo, Carolina não tinha certeza disso. Ela m*l conhecia a mulher e já ia pedindo ajuda? Isso soaria estranho se fosse com ela. Afinal, Joana também tinha um trabalho para fazer.
— No mais é isso. — Ele se aproximou dos gêmeos, dando um beijinho em cada um. — Estou indo trabalhar.
Eles ficaram se encarando por alguns segundos, antes do moreno sorrir e sair pela porta.