42. Onze Dias

1211 Words
Dante fechou a porta do apartamento, deixando uma trilha de poças de água atrás de si. O silêncio imediato o abraçou. Esse era totalmente diferente e reconfortante, comparado com o que o seguiu até ali depois de deixar sua assistente em casa. Ele balançou a cabeça para tirar tais pensamentos, nem se importando se estava molhando a sua volta. Era curioso como aquele lugar parecia sempre exatamente igual. Organizado, limpo e grande demais para apenas uma pessoa. Por ter vivido a maior parte da sua existência na mansão Valenor, estar cercado de empregados o tempo todo era cansativo. No entanto, a solidão às vezes era c***l consigo. Ele deixou as chaves sobre o aparador, o celular ao lado. O paletó... Parou. Olhou para o próprio braço vazio e um pequeno suspiro escapou. Ainda estava com Cassandra. Lembrava-se dela saindo grogue do carro com o paletó ao redor da cabeça, cambaleando de sono até a entrada do prédio. Sorriu de lado. — Ótimo. Sabia que a encontraria amanhã, mas era mais um motivo. Mais uma conversa. Dante passou a mão pelos cabelos completamente úmidos antes de deixar o sapato ao lado da porta e seguir para o quarto. O banho quente demorou poucos minutos, porém, mais do que o costume. Ficar tanto tempo com roupas molhadas parecia ter deixado seu corpo um tanto dormente e esse tempo foi o suficiente para afastar o frio da chuva, mas não para apagar as lembranças da noite. Ela rindo. Ela discutindo com ele na recepção. Ela correndo atrás dele com seu paletó sobre a cabeça. A boca quase arroxeada de frio. O quase desastre com o macarrão. Sua destreza para segurá-la e seus corpos colados. E, principalmente... A forma como ela falava de um livro como se estivesse descrevendo um velho amigo. O Valenor vestiu uma camiseta escura e uma calça de moletom cinza. Foi até a cozinha descalço e preparou um chá. Ele tentava tomar chá preto apenas enquanto estivesse no trabalho, mas precisava de algo quente para lhe esquentar ainda mais e também para distrair sua mente. No entanto, enquanto a cafeteira fazia sua parte, pegou o celular e abriu a conversa com Cassandra. O polegar permaneceu suspenso sobre o teclado. Não faziam nem vinte minutos desde que a deixara no apartamento dela. Porém... Algumas ideias de mensagens que poderia enviar lhe passou pela cabeça, mas nenhuma parecia ser boa o suficiente. Parecia invasivo. Ridículo. Ele tinha acabado de vê-la entrando no prédio, era óbvio que tinha chegado bem. Então guardou o celular novamente. Melhor esperar até amanhã. O moreno pegou a caneca cheia e caminhou até o escritório do apartamento. Já estava abrindo o notebook quando seus olhos encontraram o envelope pardo que seu pai tinha lhe entregado dois dias antes. Permanecia exatamente onde tinha deixado. Intocado. Dante ficou alguns segundos apenas o encarando. Como se ignorá-lo fosse fazer seu conteúdo desaparecer a qualquer momento. Porém, ele sabia que esse tipo de magia não existia. O Valenor apoiou a caneca na mesa e sentou-se. Pegou o envelope, retirando lentamente os documentos de dentro. Ele sabia exatamente do que aquilo se tratava e, fazia questão de esquecer propositalmente dessa situação. O contrato. Mais uma vez, leu cada cláusula. Depois mais duas vezes. Era como se esperasse que algum detalhe, por mais insignificante que fosse, tivesse mudado. Não mudou. “União matrimonial...” “Interesses empresariais...” “Famílias...” “Sucessão...” Nenhuma linha falava sobre amor. E nem precisava. Ele sabia como essas uniões funcionavam. Aquilo nunca teve relação com amor. No fundo, Dante não se importava muito com essa situação toda. A única pessoa que teve algo mínimo relacionado a amor foi uma colega de classe no ensino médio e, por algum motivo, ela decidiu que gostava de outra pessoa. Essas coisas aconteciam. Ele queria ser um pouco como seu primo nesse quesito, não ter nenhum sentimento para se apegar. Porém, era uma situação complicada. Sob o contrato havia outros papéis. Uma pasta menor com cronogramas e anotações. Uma agenda preliminar preparada pelos advogados das duas famílias. Dante abriu a primeira folha. “Cronograma de Integração Institucional. Reunião de Apresentação: Valenor Biogen e Montenegro Vitae. Participantes confirmados: Roberto e Dante Valenor. Caetano e Camila Montenegro.” Ele permaneceu olhando o último nome. Camila Montenegro. Daqui onze dias seria a primeira vez que se encontrariam oficial e pessoalmente. Passou para a folha seguinte para encontrar mais reuniões, almoços, visitas às empresas, jantares beneficentes. Tudo cuidadosamente planejado. Como se duas pessoas pudessem aprender a gostar uma da outra através de uma agenda corporativa. Dante sentiu um canto da sua boca quase se curvar. Alguns pequenos e rápidos flashes se passaram em sua mente. Quase. Fechou a pasta. Uma fotografia deslizou sobre a madeira escura da mesa. Camila Montenegro. Olhos claros, cabelos castanhos também claros. Um sorriso discreto. O Valenor franziu a testa e pegou a fotografia entre os dedos. Observou melhor. Era como se já tivesse visto aquele rosto antes. Tinha certeza disso. Mas onde? Na própria Valenor? Já tinham estudado juntos? Em algum congresso ou reportagem? Tentou puxar a lembrança. Nada. A sensação persistia. Aquela mulher lhe era estranhamente familiar. Incomodava-o não conseguir descobrir o motivo. Ele então guardou a fotografia novamente dentro do envelope. Mas, dessa vez... Não conseguiu afastar uma única pergunta da cabeça. “Será que ela também sabia desse contrato?”. Ficou olhando para o envelope fechado por alguns segundos. Depois desviou os olhos para o celular sobre a mesa. Quase pegou o aparelho novamente. Quase enviou uma mensagem para Cassandra. No entanto, desistiu no segundo seguinte. A noite já tinha sido longa demais. Cassandra acabava de sair do banho quando o celular vibrou sobre a cama. Ela secava os cabelos com a toalha enquanto caminhava distraidamente até o aparelho. Depois daquela chuva totalmente inesperada, esse banho quente e demorado tinha sido sua salvação da noite. Sentia-se renovada, ainda que um pouco sonolenta. Sorriu ao imaginar, por meio segundo completamente sem fundamento, que pudesse ser Dante. A tela acendeu novamente com outra notificação. Pai. O sorriso morreu antes mesmo que ela percebesse que estava sorrindo. E com um peso no coração, abriu a conversa. “Preciso que você venha para Aurélia no próximo fim de semana” Ela releu a primeira mensagem antes que pudesse ir para a segunda. “Temos uma reunião importante” Mais uma chegou logo abaixo. “Não aceite compromisso algum para sábado” Cassandra respirou fundo. Não havia “por favor” ou explicação. Nem sequer um “como você está?”. Era apenas uma convocação. Como sempre tinha sido. Ela apoiou o celular sobre a cama e ficou olhando pela janela. A chuva continuava caindo. E Cassie sentiu o aperto no coração no peito intensificar. Porque sempre quando as coisas pareciam estar dando certo para ela, seu pai aparecia para complicar tudo? Parecia que ele sentia quando Cassandra estava minimamente feliz, tranquila. O pensamento de que ele poderia ter descoberto seu plano passou pela cabeça, mas logo saiu. Se esse fosse o caso, Caetano teria simplesmente aparecido ali na sua porta. A morena olhou novamente para o celular, um fio de esperança no fundo da sua mente, esperando que uma nova mensagem chegasse. E que não fosse do seu pai.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD