ÂNGELO.
Na manhã seguinte, já estou na metade do meu café da manhã quando os novatos atravessam o salão para se juntarem a longa mesa de madeira em que estamos sentados. São três homens e uma mulher, todos altos, morenos e musculosos.
Um dos homens tem a cabeça raspada e um olhar gentil no rosto; o segundo, é tão alto quanto o primeiro, aparenta ter algo perto dos vinte e cinco anos ou até mais, seus olhos são um pouco distantes demais um do outro e ele tem um ar de superioridade (acho que não vamos nos dá muito bem). A mulher parece ser do tipo que prefere ficar sozinha, mas seus olhos castanhos são rápidos e astuciosos, indicando que ela é esperta, mais esperta que a maioria; Neil é o último do grupo, seu cabelo volumoso está ainda mais assanhado do que ontem, como se ele não tivesse se dado ao trabalho de penteá-lo antes de sair do quarto. Seu olhar foca diretamente em mim, então observo suas bochechas corarem com certa diversão.
Desvio os olhos para minha refeição que já está pela metade. O mingau de aveia está com muito, muito açúcar, exatamente do jeito que gosto, e já estou na minha segunda xícara de café.
— oi.— uma voz diz, então ergo o olhar e dou de cara com Neil, que já está sentando na cadeira de frente para a minha, do outro lado da comprida mesa, já com o prato cheio de ovos mexidos em uma das mãos e uma caneca com café na outra.
— quem disse que você pode sentar aí? — questiono, afiando meus olhos para ele, que apenas dá de ombros tranquilamente. Suas bochechas ainda estão levemente coradas, como se ele não conseguisse nem ao menos controlar isso, o que é definitivamente inadmissível para um dos assassinos daqui.
— você vai treinar com a gente hoje?— pergunta ele algum tempo depois, enquanto coloca a primeira colherada na boca.
— infelizmente.— murmuro de volta, sem desviar os olhos do meu mingau. Mesmo sem olhar, sei que suas bochechas estão esquentando mais ainda. Reviro os olhos com força, não estou com a mínima vontade de repetir os joguinhos de ontem, principalmente com uma plateia ao nosso redor, então ele pode ficar tranquilo.
— acha que tenho chance de ficar aqui?— diz, fazendo-me levantar o rosto pela primeira vez. Ele está com uma expressão pensativa no rosto, enquanto espera pela minha resposta.
— depende, Se você se esforçar o bastante nas próximas semanas.— digo, deixando de fora o fato de que sou eu quem decide se vale a pena ou não investir neles. Não quero alguém tentando me bajular para conseguir um lugar aqui, o que não funcionaria de qualquer jeito.
— você... Poderia me ajudar?— ele pergunta, o que quase me faz engasgar com a comida e quase morrer engasgado. Ele acha que sou o que?! Um professorzinho de baixo escalão que vai perder seu tempo tentando ensina-lo alguma coisa. Olho-o de cima a baixo. Como é que um marmanjo desse tamanho tem coragem de pedir para mim ensinar-lhe?!
Abro a boca para dizer algo bem afiado, mas então um pensamento cruza minha mente, fazendo todas a engrenagens girarem e formarem um plano perfeito para dá um fim naquele maldito mercador de escravos, e infelizmente esse plano necessita de um ajudante. Engulo minhas p************s a força e digo algo do qual muito provavelmente vou me arrepender depois.
— bom... Já que você quer, podemos fazer uma troca.— começo, então explico rapidamente todo o meu plano para ele, dizendo para que vou precisar da sua ajuda e o que preciso dele em troca de algumas horas diárias de treinamento pelas próximas semanas. Não posso negar que não estou ansioso para mais umas brincadeirinhas durante o nosso treinamento em particular.
Só espero que ele consiga manter a sanidade durante as próximas duas semanas. E para isso Neil vai precisar de muita, muita sorte.
(***)
Algumas horas mais tarde, já estou com os quatro bocós na sala de treinamento, avaliando-os enquanto sinto que também estou sendo avaliado. Não vejo a hora de tirar o sorrisinho convencido da cara de cada um deles.
— Adonai, venha aqui por favor.— chamo o i****a que tem os olhos meio separados demais, ele ainda está com aquele ar de superioridade, e é exatamente por isso que vai ser o primeiro. A arma que ele escolheu é uma catana longa e fina, mas que provavelmente é tão pesada quando um porrete.
— pode vir, querido.— provoco-o, fazendo ele correr em minha direção com a espada levantada, enquanto solta uma espécie de urro de guerra. Que patético.
Dez segundos depois, ele está estirado no chão de mármore com meu pé sobre sua nuca. Foi mais fácil do que imaginei.
— tsk, tsk— estalo a língua — lento demais, bebê. — murmuro para ele, e com um simples gesto chamo Castor, o cara de cabeça raspada que empunha uma espada simples. Ele corte até mim e acaba estirado sobre o corpo do amigo míseros segundos depois. Isso foi verdadeira e fodidamente muito patético.
Reviro os olhos e faço uma anotação mental para descartar esses dois da lista caso não melhorem milagrosamente nos próximos dias. São um bando de bocós, não assassinos.
A garota circula ao meu redor com um olhar aguçado, sua franja n***a cai sobre sua testa numa cascata sinuosa e meio torta. Quando sinalizo para que ela se aproxime, ela não ataca de primeira, indicando que ela não pensa com os músculos como os dois caras caídos a poucos metros.
Ela tem aquele olhar felino, sempre procurando a hora certa de atacar, o que me faz gostar um pouco mais dela. Nós lutamos por cerca de dois minutos, até ela cair de b***a no mármore com minha adaga em seu pescoço.
— você é boa, só tenha mais um pouco de atenção. Entre atacar e manter a guarda erguida, sempre mantenha a guarda. m***r é nosso trabalho, mas sobreviver é essencial. — explico calmamente, antes de dispensar os três para um pequeno intervalo, ficando a sós com meu aluno particular, que apenas observava do canto da sala, onde está encostado nas paredes com os braços cruzados.
Assim que os outros saem, ele caminha até mim um pouco admirado.
— você é excelente. Como conseguiu se tornar tão... tão... Incrível?!
— Devil me ensina a lutar desde meus oitos anos, para mim isso é tão natural quanto respirar.— aponto para o armário de armas e indico para ele escolher a sua. Neil pega a mesma espada enorme do outro dia então se aproxima do centro do salão.
— por que algo tão grande? Isso vai deixar você bem mais lento.— argumento encarando aquela enorme lâmina de aço. Ele parece ter força suficiente para empunhar de forma tranquila aquela coisa, mas é bem provável que canse bem mais rápido Também.
— eu gosto dela.— ele explica dando de ombros.
— então já que é assim... — também dou de ombros e mando ele começar a luta, mas não sem antes lançar um olhar para suas calças e abrir um pequeno sorriso.
— A-aquilo foi um pequeno... Imprevisto. Desculpe. — ele diz, notando meu olhar sobre sua calça, agora sem nenhum volume a não ser o habitual mesmo. Meu sorriso se alarga ainda mais, beirando um alto nível de safadeza.
— eu gosto de imprevistos. Deixa o nosso joguinho bem mais... Divertido.— antes dele sequer assimilar minhas palavras, ataco com toda velocidade, mirando diretamente no seu pescoço.