Acordei no dia seguinte me sentindo levemente melhor. Minha cabeça ainda doía como se o peso do mundo tivesse sido despejada e cima dela. Meu corpo moído pelo colchão duro que tia Lílian tem no quarto de hospedes, mas eu não podia reclamar. Na verdade, eu nunca reclamaria, pois ela foi a única pessoa que me estendeu a mão e colocou um teto sob a minha cabeça e a do meu bebê. E por falar em bebê...
Pensei na minha vida antes de pegar no sono e novamente assim que acordei, mas principalmente durante o banho. No banho é onde eu sempre tomo minhas melhores decisões. Cheguei a constatação que por pior que seja a minha situação no momento eu não posso simplesmente me contentar com minha miséria e continuar me banhando em um poço eterno de lamentações. Afinal, sempre tive como lema que mesmo sua vida pareça uma verdadeira m***a e tudo pareça dar errado ao seu redor, você não se deixa a****r, você apenas toma as rédeas da situação e mostra a vida quem é que manda, mostra que você é a senhora dela. E é isso que eu farei. Minha vida pode está h******l agora, mas a sua permanência nesse estado depende um pouco de mim. Chegou a hora de dar minha cara a t**a. Eu tenho um bebê para sustentar afinal de contas. Um bebê que tem horas que eu ainda não acredito que é meu, que está dentro de mim. Mas ele (ou ela) é a minha realidade agora e eu gosto de lidar com o real, então vamos lá.
Aproveitei que tinha acordei cedo e que o notebook de tia Lilian estava de vacilo na sala e fiz um currículo pra mim.
Fiquei um pouco frustrada ao finalizar a tarefa, depois de pegar o exemplo mais simples que achei na internet. A verdade é que eu não possuo experiência em nada, olhando meu currículo nem mesmo eu tenho certeza que me contrataria. Mas, ao meu favor, eu tenho diversos cursos na área de computação e falo, além do português, inglês, espanhol e francês, esse último por insistência de minha mãe. Minha tia ainda estava dormindo com seu "amigo" enquanto eu imprimia os currículos e pesquisava vagas que eu poderia ocupar, o que para minha frustação não eram tantas assim.
Ah, quase esqueci de falar: minhas coisas chegaram ontem a noite. Praticamente tudo que eu tinha naquela casa foi posto em malas e caixas e entregues aqui na casa de minha tia. Aparentemente devem ter chegado enquanto eu dormia, pois quando eu acordei já encontrei tudo empilhado na sala da minha tia. Senti v*****e de chorar novamente mas reprimi o d****o. Tem coisas que eu preciso fazer hoje para dar um ruma a minha vida e se eu cair no ciclo de auto piedade novamente talvez eu seja incapaz de fazer alguma coisa.
Eu mesma carreguei tudo para o quarto que estava usando, orando para que as malas mais pesadas não colocasse a vida do bebê em perigo, mas eu não queria colocar mais essa responsabilidade nas costas de minha tia. Estava na hora de começar a arcar sozinha com os prós e os contras das minhas escolhas.
Depois de carregar tudo e retirar algumas coisas das caixas, comecei a me arrumar. Não tinha ideia do que vestir pra uma entrevista de emprego, então fiz o que qualquer jovem da minha geração faz e pesquisei na Internet. Deu um certo trabalho para eu consegui encontrar o que eu precisava dentro da infinidade de caixas e malas mas eu consegui sair vitoriosa ao encontrar um terninho marrom que eu comprei para o meu primeiro dia na Universidade de Boston. Ele nunca será utilizada para a finalidade para a qual foi comprado e isso partiu novamente meu coração. Senti v*****e de deitar em posição fetal mas ainda me mantive firme.
Mas o que realmente me deu trabalho foi me livrar da cara de quem tinha chorado o dia anterior inteiro e as marcas de arranhões que minha mãe me deu como presente de despedida. Mas o resultado final foi satisfatório.
Quando saí do meu quarto tinha um cara enorme só de calça e usando o avental florido de minha tia.
Assim que ele me viu abriu um sorriso maior do que eu achava possível.
─ Oi, você deve ser a sobrinha da Lili. Prazer, Mike. ─ falou estendendo a mão.
─ Liah. ─ respondi, aceitando seu cumprimento.
─ Bom dia, bonequinha. ─ minha tia falou já arrumada entrando na cozinha. ─ Não me diga que você carregou tudo para o quarto sozinha.
─ Foram só algumas caixas, tia. E eu tinha alguma energia para queimar. ─ justifico.
Minha tia me olha como se tentasse detectar as mentiras que aquelas palavras trazem mas eu mantive meu sorriso, fazendo ela suspirar em rendição.
─ Para onde vai tão arrumada uma hora dessas?
─ Eu estou indo procurar um emprego. Já deixei tudo separado...
─ Como assim um emprego, Liah? Você é muito inteligente, deveria tentar em uma universidade, se especializar. Ter um bebê não significa ter que abandonar todos os seus sonhos.
─ Tia eu não posso ficar aqui e ser sustentada por você...
─ É claro que pode. A gente só vai precisar cortar algumas coisas, mas termos o suficiente para viver. Não vou deixar você desperdiçar seu talento, bonequinha.
Minha tia é contadora. Ela não ganha muito, longe disso. Mas o suficiente para ela viver consideravelmente bem.
─ De jeito nenhum que eu vou ficar aqui sugando você, tia. Eu sei que um bebê custa caro e sei que não vou conseguir nenhum grande cargo e eu sei também que vou precisar de sua ajuda. Mas eu não quero depender totalmente de você, quero te ajudar nas contas da casa, conseguir me bancar e bancar meu bebê. E eu não estou desistindo dos meus sinhôs, estou apenas adiando, afinal o período de inscrições dos vestibulares já se esgotaram, não havendo mais nada que eu possa fazer agora, então será bem melhor trabalhar em algo do que gastar meu tempo dormindo e me lamentando.
─ Mas, Liah...
─ Se fizer você se sentir melhor, eu prometo que no final do ano que vem eu vou tentar ingressar em uma universidade. Não vou ficar sem estudar esse tempo, vou sempre tirar um tempinho pra me preparar.
─ Jura? ─ ela fala com uma carinha de cachorro, como se não acreditasse nas minhas escolhas ainda.
─Claro que sim. ─ falo, indo até ela e dando-lhe um beijo na bochecha.
─Agora eu tenho que ir. Até mais tarde, tia. Foi ótimo te conhecer Mike. ─ falo para o cara que ficou quietinho enquanto minha tia e eu conversávamos, como se nem mesmo estivesse ali, apenas se preocupando em cozinhar.
─ Come alguma coisa, Liah ─ Mike falou.
Olhei a mesa e peguei uma maçã.
─ De manhã os enjoos são mais forte, comer alguma é pedir a minha morte. Então eu como mais tarde, quando já for seguro. ─ brinco, fazendo ele rir.
─ Você vai como, Liah?
─ Relaxa tia, vou de ônibus mesmo.
─ E você ao menos sabe como usar o serviço de ônibus? ─ ela questiona.
─ Eu me viro.
Afinal, não deve ser tão difícil assim, não é mesmo?
Mas minha tia não tira a careta de preocupação do rosto.
─ Eu vou ficar bem. ─ falo, para amenizar um pouco da sua preocupação ─ Tchau ─ falo, saindo, antes que ela continuasse em seu trabalho de me impedir ─ Qualquer coisa estou no celular.
─Espera, Liah. ─ minha tia correu atrás de mim quando eu já esperava o elevador. ─ A cópia da chave.
─Obrigada, tia.
─Boa sorte, bonequinha. ─ ela fala com um sorriso encorajador.
Abri mais um sorriso pra ela e entrei no elevador, não deixando que os nervos tomassem conta de mim ou que minha tia conseguisse ver o furacão que me devastava por dentro.
Porém, assim que entrei no elevador desfiz meu sorriso. Não conseguia mais fingir estar bem, não agora que já não tinha mais testemunhas.
Olhei pra minha barriga ao mesmo tempo que sentir o ar sumir. O que eu estou fazendo? Tá claro para todo mundo que eu não vou conseguir lidar com essa situação.
Assim que o elevador chega ao terréu, aperto o botão para retornar ao meu lugar segura, que agora é o apartamento de minha tia, porém, antes que eu possa abrir a porta ouço a conversa abafada dela com Mike.
─ Ela não está bem. ─ ouço ela dizer.
─ Ela me pareceu ótima.
─ Isso porque você não a conhece, Mike. Ela está fingindo pro mundo que superou tudo mas está quebrada por dentro.
─ Ela vai ficar bem Lili. Ela precisa fazer as próprias escolhas agora. Precisa ver que você apoiar e acreditar nela mas, ao mesmo tempo, você tem que deixar ela crescer e fazer o próprio caminho.
Silêncio.
─A gente precisa sair em 15 minutos. ─ é a única resposta que minha tia dá a ele.
Aperto os dentes com força.
Mike está certo, chegou a hora de crescer.
Volto para o elevador, decidida a tentar novamente.
─ Farei isso por você, bebê. ─ digo, olhando para a barriga.
E dessa vez eu consigo.