Despertei ainda um pouco desorientada a respeito do lugar onde eu acordei. Levei alguns segundos para recordar o que tinha acontecido. Por uns minutos rezei para que tudo não passasse de um pesadelo. Mas eu sei que não era, sei que por mais que eu tente fugir e me esconder o meu problema não vai simplesmente desaparecer e eu conseguirei ter a minha vida de volta. Eu estava no sofá da tia Lílian, que estava na poltrona, assistindo televisão com uma xícara de café na mão. Mas, como se sentisse meus olhos nela, ela me olhou e sorriu, pegando o controle para desligar a TV.
— Que bom que você acordou, bonequinha. Como você se sente?
— Que horas são? — falo, sentando no sofá e ignorando propositalmente sua última pergunta.
— Quatro e meia — ela fala olhando para o relógio — você dormiu bastante, acho que estava precisando recuperar as baterias.
— Você não foi trabalhar? — continuo a ignorar as questões sobre o meu bem estar.
— Não. Expliquei que estava com problemas pessoais e eles me liberaram.
Eu suspiro, sentindo as lágrimas ameaçando cair novamente.
— Desculpas tia. Não queria te atrapalhar.
— Você não atrapalha, bonequinha. Você sabe que eles são completamente tranquilos nesse quesito, então eles nem mesmo discutiram quando eu pedi um tempo extra, sabe? Até porque eu sou uma excelente profissional. — ela fala, me fazendo rir — Tá se sentindo melhor? — ela repete a questão.
— Sim. Muito obrigado.
— Você quer comer alguma coisa? Depois de tudo você deve tá morrendo de fome, não é?
Minha tia é tão doce e está sendo tão legal comigo que eu não posso mais continuar enganando ela desse jeito. Eu preciso ser sincera para com ela.
— Tia eu preciso te contar uma coisa.
— Se for sobre o motivo que fez você chegar aqui da forma como você chegou, eu já sei de tudo. — ela fala, assumindo um semblante sério.
— Sabe como? — pergunto, sentindo o pânico me atingir.
— Eu liguei para o seu pai. — sentindo a mudança no meu olhar, ela continuou — Desculpa, bonequinha, mas eu fiquei preocupada. Você chegou aqui simplesmente arrasada, fiquei morta de preocupação. Achei que ele poderia saber o que aconteceu e mesmo que ele não soubesse de nada achei que seu pai iria querer te ajudar. Acho que estava enganada. — ela lá falou essa última parte como se doesse. — Eu sinto muito.
— Não foi sua culpa. — falo baixinho.
— Ainda assim, eu sinto muito que você tenha que ter passado por isso, Liah. Ninguém merece passar por algo assim, principalmente você.
Pela primeira vez no dia de hoje estou chorando por causa de um sentimento bom. Sentindo toda a doçura e aceitação que minha tia envia para mim.
— Eu não vou te atrapalhar mais. Eu já estou indo e... — falo, secando as lágrimas e me levantando.
— Indo pra onde Liah? Pelo amor de Deus. — ela fala como se o que eu acabei de falar fosse a coisa mais estúpida que eu já disse durante toda a minha vida.
— Meus pais te contaram que eu estou grávida?
— Claro que sim. Mas não é porque você tá grávida, sendo solteira e tendo apenas 18 anos que você deixou de ser minha sobrinha e que eu deixei de te amar. Você ainda é a minha bonequinha. Você vai ficar aqui e não se fala mais nisso.
Comecei a chorar de novo.
— Pelo amor de Deus, pare de chorar antes que você se desidrate, querida. Está tudo bem agora, eu estou com você. — ela fala, vindo até mim é me abraçando.
— Obrigada, tia. Por me apoiar e por ter permitido que eu ficasse aqui.
— Nossa, você ainda duvidou que eu iria querer que você ficasse aqui. Tá achando que eu sou a cobra da Lídia é? — ela faz uma careta — Falando nisso quero m***r aqueles dois. Acho que fui expulsa da família também, coisa que sua mãe já queria fazer a muito tempo. Gritei horas com seu pai e quando ele desligou em minha cara liguei pra sua mãe e gritei com ela também. — ela fala, mostrando toda a sua irritação.
— Eu não esperava isso de meu pai, tia, acho que de tudo nessa história isso foi o que mais me machucou. — falei entre lágrimas.
— Eu não esperava isso dele também, meu amor, mas de qualquer forma a atitude dele não é tão surpreendente assim. Me desculpa falar, mas seu pai é um banana, ele é incapaz de enfrentar sua mãe, mesmo que ele não concorde com a atitude dela. Eu falei com ele, ele parece estar sofrendo, não queria que você saísse de casa. Por algum motivo que foge das minhas capacidades mentais ele parece gostar da sua mãe, então ele sempre vai aceitar o que ela decidir. Isso ou ela desenvolveu uma tecnologia pra controlar ele. Acho essa última opção mais viável já que é impossível que alguém goste daquela lá. — ela fala, começando a soar incoerente para mim.
— Tia...
— Desculpas, bonequinha. — ela faz sinal de rendição — Você aí sofrendo e eu enfiando o dedo na ferida além de aproveitar o momento de colocar meus sentimentos obscuros por minha irmã para fora. O que importa é que eu estou do seu lado e sempre estarei. Vou te ajudar com tudo. De verdade, para o que você precisar você pode contar comigo.
— Tia, eu quero te contar tudo. Preciso contar pra alguém ou sinto que vou explodir. Sobre como eu engravidei, sobre o que aconteceu despois disso e os acontecimentos do dia de hoje.
Ela confirmou com a cabeça.
— Sua sorte que sou uma ouvinte gloriosa.
Sorri.
Então comecei a contar. Desde a ideia i****a de minha mãe de fazer a festa, para a qual não recebi permissão de convidar minha tia, ao jeito que o Guilherme me olhou, até o dia de hoje onde eu descobri a gravidez.
Tia Lília acompanhou cada detalhe com atenção e em silêncio, mesmo que eu sentisse que ela quis fazer perguntas em diversos momentos, mas ela sabia que se me interrompesse eu não conseguiria contar tudo até o final. Então ela apenas sentou ali e me ouviu.
Eu vi sua expressão de raiva quando contei do Guilherme e a forma como ele me usou e me jogou fora. Ela chorou junto comigo pela reação de meus pais e pelos sonhos que tive que abandonar, pelo futuro que eu planejei tão cuidadosamente e que escapuliu entre meus dedos. Quando eu terminei ela me abraçou forte e choramos juntas.
— Eu te amo bonequinha e não vou a lugar nenhum. O Guilherme... — fiz um sinal como se para deixar para lá. Não quero falar dele. Nunca mais. — Eu sei que você teve que abandonar seus sonhos mas você pode seguir novos. Eu apoio sua decisão de ficar com o bebê. Agora você tem que tirar forças dele pra seguir com sua vida. Seja forte por vocês dois. E se apoie em mim quando sentir necessidade. Você nunca será um fardo em minha vida, ok? — confirmo com a cabeça — Meu bebê vai ter um bebê, m*l posso acreditar. — seus olhos agora mostram lágrimas de felicidade.
Íamos começar mais uma seção de fofura quando o interfone tocou, nos impedindo.
Tia Lílian levantou a contra gosto para atender.
— Oi, Josias... uhum... Diz a ele que hoje eu não vou poder não...
— Quem é? — Perguntei curiosa.
— Só um minuto, Josias. É só um carinha com quem eu brinco as vezes. — então ela deu uma gargalhada. — Você não é mais criança, que besteira a minha. Brincar — outra gargalhada — Você tá grávida, já sabe umas coisinhas. Ele é um carinha com quem eu faço um s**o quente e gostoso.
— Eca, tia. Eu não quero saber mais nada sobre isso. — falei com um meio sorriso — Então por que tá dispensando ele?
— Quero passar a noite só com você. — ela justifica.
— Mais eu estou tão cansada, tia. Apesar de ter dormido até agora ainda estou tão esgotada. Vou só comer algo, tomar um banho e dormir. Vou ser uma péssima companhia e você vai acabar a noite inteira sozinha. Não dispense seu homem não.
— Ele só meu amigo. — ela fala, na defensiva — Tem certeza?
— Claro.
— Tá bom então. Manda ele subi, Josias — ela fala no interfone — Mas a gente vai assistir um filme por aqui mesmo, para não te deixar sozinha.
— Só sejam silenciosos, por favor.
Ela deu outra gargalhada.
— Faremos nosso melhor.
— Me empresta uma roupa confortável para que eu possa dormir?
— Claro, querida! Você pode pegar o que quiser. Meu quarto é seu. — ela fala.
— Nada disso! Eu me viro com o quarto de visitas.
— Mas lá...
Ouvi uma batida na porta e notei minha tia arrumando a postura.
— Tia, tá tudo bem. De verdade. Agora vá e divirta—se.
— Obrigada, bonequinha. — ela fala sorrindo.
Minha tia correu para receber o seu “amigo” na porta e eu saí, sorrindo.
Esse é um dos motivos pelo qual eu amo minha tia. A cinco minutos atrás achei que minha vida tinha acabado e agora estava aqui, sorrindo e com esperança de que tudo daria certo.