Seis semanas depois
— Liah, você está prestando atenção? — minha mãe reclamou pela milésima vez só hoje. — Você poderia começar a levar isso mais a sério, por favor? É do seu futuro que eu estou falando. — ela diz apontando um dedo para mim.
Esse é o máximo de reação que eu receberei dela, tendo em vista que a minha excelentíssima mãe, Lídia Albuquerque, no auge dos seus quarenta e nove anos, já fez tantas aplicações de botox que acabou por perder a capacidade de fazer expressões faciais. Mas ela nunca foi do tipo expressiva, tudo para evitar marcas e linhas de expressão.
Minha mãe sempre fez o tipo atriz, fingindo para todos que vive uma vida de contos de fadas onde tudo é extremamente perfeito a vida é cor de rosa e as coisas saem exatamente do jeito que ela planejou. Pelo menos tem sido assim até que eu cheguei para bagunçar seu planos milimetricamente feitos.
Infelizmente, para ela, tudo que eu fiz desde que nasci foi arranhar sua imagem tão bem construída, já que sua única e adorável filhinha é tudo menos a boneca de porcelana que ela sempre imaginou que teria.
— Desculpe, mãe. — digo, não porque esteja arrependida ou porque tenha feito algo de errado, mas sim porque essa é a minha mãe e não há forma alguma no mundo de ganhar uma discussão dela.
Eu aprendi desde jovem que se eu desejasse sobreviver ao tsunami que minha mãe era eu terei que falar muito mais o sim senhora e engolir toda e qualquer luta e batalha que possa existir em mim.
— Pelo amor de Deus — ela fala, levanta-se e erguendo as mãos aos céus, teatralmente — você anda no mundo da lua ultimamente. Qual o seu problema? Atenção era uma das suas qualidades.
Qual o meu problema?
Como explicar pra minha mãe, Lídia Albuquerque, o meu problema?
Bem, vejamos mamãe, o meu verdadeiro problema é que eu sou a pessoa mais i****a que já existiu e, por este motivo, estou totalmente quebrada. E ferrada. E desiludida. E perdida. São tantos sentimentos que eu nem mesmo sei por onde começar.
Bom, se você não está entendendo nada da minha situação eu irei explicar.
Meu nome é Liah Albuquerque, 18 anos recém completados, conhecida também como garota prodígio. Desde pequena eu já me destacava pela minha inteligência e minha facilidade de aprender coisas novas, estando sempre a frente das outras crianças da minha idade e não foi surpresa para ninguém quando fui aceita na Universidade de Boston como aluna de arquitetura, obviamente Boston foi uma escolha de minha mãe porque, segundo ela, todos ficam elegantes no frio e, sendo sincera, eu não estava reclamando. Desde que eu ficasse livre de seu aperto e rédea curta qualquer lugar era um bom lugar. Isso foi a quase quatro meses atrás. Claro que o bom nome e o dinheiro da minha família ajudou tudo isso, mas eu não vou fingir modéstia e dizer que não tive nenhum papel na minha aprovação, afinal eu estive trabalhando para isso metade da minha vida, pra não dizer a minha vida toda. Eu passei mais horas na frente dos livros que qualquer outro adolescente da minha idade, eu estudei os conteúdos das aulas antes mesmo dos professores solicitarem, eu me preparei para estar sempre um passo a frente de todos.
Ao saber que eu fui aceita na UB minha mãe concluiu que tinha que esfregar a minha inteligência no rosto de suas amigas. Ela sempre se ressentiu por eu não ser deslumbrante e ter herdado a sua beleza de parar o trânsito que foi capaz de conquistar o meu maravilhoso pai. Ela tentou, por anos, criar um lado de miss em mim, mas como já era esperado não conseguiu tirar fruto algum. Eu sou quase um desastre de trem e, qualquer que passe cinco minutos comigo consegue perceber isso.
Não que eu seja f**a de se olhar, apenas que eu não tenho a paciência necessária de passar horas e mais horas em frente à um espelho so para garantir um delineado perfeito. Eu abri mão de coisas como essas para garantir uma aprovação na UB.
Então, depois de muito drama do lado dela, ela resolveu se contentar com o que tinha recebido, principalmente quando as pessoas começaram a exaltar minha inteligente acima da média em todos os locais que ela ia. Então, ela se apossou disso e usou meus ganhos acadêmicos para conseguir tirar algum ganho de mim.
E foi aí que minha derrocada começou.
Obviamente ela quis fazer uma grande festa para se gabar com as amigas sobre minha aprovação. Obviamente meu pai concordou com isso, já que ele faz tudo o que ela quer. Consequentemente eu, que não suporto festa e prefiro muito mais passar uma noite com meus romances do que festejando, não tive opção a não aceitar a festa, que era mais da minha mãe do que minha, e fazer cara de paisagem, fingindo que estava amando tudo e que as parabenizações que eu recebia de todos os meus antigos colegas, que enquanto estudávamos juntos m*l olhavam para minha cara, eram todas verdadeiras. Afinal, a rainha desse lá é a senhora Lídia e todos nós vivemos apenas para fazer a sua v*****e.
Então eu fiquei e interpretei o meu papel divinamente como minha mãe esperava de mim, porque eu sou boa nisso também, interpretar papéis, principalmente um papel onde eu finjo que estou feliz e que me minha vida é o mar de rosas que minha mãe tenta vender para todos a nossa volta.
Mas voltando ao início dos meus problemas, foquemos no que aconteceu na festa.
Na minha comemoração, assim como em todas as festas da minha família, estava presente o garoto dos meus sonhos, que por acaso também era o "santo" do pedestal de minha mãe, Guilherme Fontana, o garoto de ouro. Ele era o sonho de genro para ela e ela sempre deixou claro para mim o quando o admirava e o quanto a entristecia saber que eu nunca teria um homem como aquele ao meu lado.
Ah, se ela soubesse do que é feito esse "homem" o qual ela tanto admira.
Mas voltando a Guilherme...
Minha mãe e a mãe dele são amigas, não de infância, mas desde o casamentos de meus pais. Minha mãe não veio de família rica, diferente de meu pai que nasceu em berço de ouro. O casamento deles foi difícil no início, eles vinham de mundos e realidades totalmente diferentes, então ela abraçou com as duas mãos todos os ricos metidos a b***a que a aceitaram. Não foi fácil para ela, vim de um mundo totalmente diferente do de meu pai, ter que enfrentar o preconceito da família e dos amigos dele, que a tachavam de interesseira. Eu a admiro por ter enfrentado tudo que ela enfrentou e ter vencido, as vezes nem mesmo acredito que foi realmente ela a passar por isso. Essa imagem acuada não combina em nada com a Lídia que eu conheço e tenho o prazer se chamar de mar. Por isso não posso ser omissa. Nesse meio tempo algo de muito importante deve ter quebrado dentro dela, porque me recuso a aceitar que a mulher por quem meu pai se apaixonou é esse mesmo ser frio que hoje controla a vida de todos nós como se fossemos fantoches.
Mas sendo a mãe de Gui uma das que sempre a convidou para todos os lugares, mesmo que fosse para rir dela, apesar de minha mãe não aceitar esse fato, Guilherme e eu sempre convivemos nos mesmos circulos e por termos convivido desde que éramos meros bebês, eu acabei desenvolvendo um pequeno crush por Guilherme.
Ok, pequeno é um erro, mas eu sempre fui meio apaixonada por ele, não que ele tivesse me notado ou me dado alguma bola. Sabe como é, a nerd baixinha e o garoto popular na vida real, diferente dos romances clichês, nunca dá certo. Mas naquela noite, ah naquela noite, foi tudo diferente. Naquela noite ele me notou e foi como se algo clicasse dentro dele fazendo com que ele se tornasse incapaz de desviar os olhos de mim ou de sorrir na minha direção.
Ele foi tão atencioso, nós dois conversamos a noite inteira e ele me tratou como se eu fosse a única prioridade dele naquela noite. E a partir daí começamos a namorar, ou pelo menos era o que eu achava.
Eu fui tão burra que quase me sinto uma fraude, tendo em vista a minha referida inteligência.
Olhando nossa história de contos de fada hoje eu sei que eu deveria ter desconfiado, na verdade estou com raiva de mim mesma por ter caído tão fácil em sua lábia, mas ter a atenção de Guilherme em mim foi como se meu sonho mais impossível estivesse virando realidade e ninguém pode culpar uma garota por se agarrar em seu sonho.
Esse nosso "namoro" durou cerca de um mês. Ele não era o melhor namorado do mundo, mas estava quase lá. Me levava para piqueniques, cinemas... tudo bem longe dos locais onde nossos colegas e pais costumam frequentar, segundo ele para não ter ninguém atrapalhando nossas interações, mas eu estava tão encantada que não vi problema algum nisso.
Era o garoto dos meus sonhos, pelo amor de Deus, nunca que eu iria questionar, pelo contrário, eu fazia de tudo para agradá-lo, para mantê-lo perto de mim, para não perder a sensação de ser desejada como ele estava me desejando.
E a questão toda é essa, ele fez com que eu me sentisse desejada, o centro do mundo de alguém. Eu nunca me senti assim. O centro do mundo de minha mãe é ela mesma e o de meu pai é a minha mãe. Eu nunca fui realmente admirada e amada por alguém, então ter esse sentimento em mim fez com que eu me sentisse, não sei, digna.
Mas, como eu disse, eu nunca neguei nada a Gui, tentando manter esse sentimento aceso, exceto uma única coisa que eu neguei a ele, que eu não me sentia pronta para dar à Guilherme: minha virgindade.
Não por falta de tentativas da parte dele, ele sempre tentava, mas eu não me sentia 100% a v*****e e muito menos preparada para dar o grande passo.
Até seis semanas atrás.
Eu ainda não me sentia preparada, longe disso, mas ele me levou para um motel e insistiu que eu lhe desse essa prova de amor. E eu me deixei ir, eu não podia perde-lo, por isso apenas deixei ir.
Se eu pudesse voltar no tempo agora...
Não foi nada como eu tinha imaginado, na verdade foi h******l, nem nos meus piores pesadelos eu imaginei que me entregar a alguém teria sido assim, mas foi com ele, o garoto que sempre teve meu coração na mão, e apenas isso já servia para aliviar o sentimento de lixo que me acompanhava.
Eu não vi nada, não senti nada e só ouvi o prazer dele. Me senti suja, usada, quebrada, como se uma parte importante minha tivesse sido tirada sem jeito de reparação. Mas até aí tudo bem, por que a gente se amava, certo?
Foi o que eu pensei, mas eu estava errada, tão errada.
A pior parte veio após a noite fatídica.
Como se eu já não me sentisse m*l o suficiente depois do ato, ele começou a me tratar como um lixo, lixo que eu estava me sentindo. Como se eu fosse um inconveniente que ele m*l podia contar os segundos antes de se livrar. E depois, tudo o que eu recebi dele foi silêncio. Ele nunca atendeu ou retornou as minhas ligações. Ele não respondeu as minhas mensagens, pelo contrário, optou por me bloquear das redes sociais.
De todas elas.
Meu coração se partiu em mais pedaços do que eu podia imaginar.
Como ele pode fazer isso comigo? Será que eu tinha ido tão m*l assim? O que eu tinha feito para afasta-lo de mim após uma noite tão importante como aquela?
Então, em linhas gerais, era isso que tinha de errado em mim. Eu me sentido m*l por ter perdido minha virgindade daquele jeito e me sentindo pior ainda porque o garoto para quem eu a entreguei não ligou no dia seguinte.
Agora como explicar a minha mãe que o menino dos olhos dela tinha feito isso comigo? Do jeito que ela é, seria bem capaz dela colocar a culpa toda em mim.
Já meu pai, Dr. Henrique Albuquerque, com sua natureza doce e compassiva acabaria seguindo a opinião de minha mãe. Ele a ama, ela é a senhora desse lar e ele se recusa a ter uma opinião contrária a dela. Então, a palavra dela aqui é lei.
Por esses motivo eu chorei sozinha todas as noites nesses seis semanas, porque sabia que não encontraria colo em ninguém aqui nesta casa. Aqui, ninguém tem as minhas costas.
Então, eu tenho guardado essa dor dentro de mim há seis semanas.
Eu não tenho amigas a quem confiar esse fardo e as únicas pessoas em que eu confio são as da minha família. Não quero vê descrença, nojo ou piedade quando eu lhes contar o que me passou. Não quero que elas me vejam de forma diferente, por isso me seguro e guardo só pra mim. Mesmo que seja difícil e esteja me destruindo por dentro. Esse será um fardo meu e só meu para carregar.
— Não é nada mãe, só estou enjoada. — digo.
O que também não era mentira, afinal o enjoo tem me acompanhada nas últimas quatro semanas, se tornando mais forte a cada dia, estando relacionado, sem sombra de dúvidas a opinião que eu possuo sobre mim mesma.
— Pelo amor de Deus, Liah! Há dias você está sempre indisposta, enjoada, tonta... Você está prestes a se mudar para Boston, não vou deixar nada estragar isso.
Claro, não por mim e meus sonhos, mas porque ela não podia ficar m*l na fita de seus amigos ricos. Ela deu uma festa e anunciou aos quatro ventos, então voltar atrás afora, depois que ela se gabou tanto, não ficaria bem a sua imagem intacta.
Era disso que eu estava falando, eu nunca estou em primeiro lugar nessa casa.
— Estou ligando para o seu pai para uma consulta para você. - ela fala, com seu celular já na mão.
— Não precisa mãe. — falo.
— Claro que precisa. Semana que vem você embarca pra Boston e vai ser terrível você viajar tanto pra chegar lá descobrir que está doente e ter que voltar.
Rolo os olhos.
Sempre seus objetivos egoístas em primeiro lugar.
— A gente n******e simplesmente pedir para o meu pai me examinar quando ele chegar em casa? Poderíamos economizar a viagem até lá.
Estou tão cansada! Minha cama nunca foi tão atrativa para mim quanto nas últimas semanas. Talvez eu esteja ficando doente, talvez ele tenha me transmitido algo...
Meu estômago embrulha ainda mais com a ideia. Eu fui tão descuidada, eu confiei em Guilherme e posso acabar com uma consequência eterna por causa da minha burrice e d****o se agradar.
— Deus te livre de precisar de uma consulta com o seu pai, filhinha. — ela quase grita.
Meu pai é oncologista, então nesse ponto eu posso concordar com ela.
— Nao estamos fazendo nada agora, então nem venha com desculpas. Já está decidido. Se arrume, saímos em 1 hora. — ela diz, guardando o celular e dando as costa, já me ignorando e partindo para a próxima coisa de sua lista de afazeres.
Como sempre, sua palavra é lei, por isso eu apenas respirei fundo sem nem tentar resistir. Estou cansada demais até para isso.
Então, me levantei da cama para me arrumar para ir ao Hospital Albuquerque, o hospital da nossa família. Mesmo meu pai sendo oncologista seu hospital é geral, contendo profissionais de todas as áreas da saúde.
Apesar do embrulho que sentia no estômago levantei pra me arrumar.
Sempre um cordeirinho obedecendo as ordens da minha rainha.
Se eu soubesse a volta que minha vida daria tomaria meu tempo em minha cama, ela sempre foi a minha coisa favorita dentro dessa casa.