Meia hora depois que minha mãe anunciou que estávamos indo ao médico saímos de casa. Sem sombra de dúvidas ela infernizou a vida de alguns funcionários de meu pai para dar o que ela precisava: uma consulta para mim na hora que ela achasse que fosse adequada.
E que se explodam todos os outros.
Às vezes eu tenho a sensação de que minha mãe tenta viver através de mim e do meu pai. Talvez, se ela tivesse alguma ocupação além de governar todos ao seu redor ela nos deixaria um pouco em paz para que tomássemos nossas próprias decisões e seguíssemos nossos próprio caminho. Mas a senhora Lídia Albuquerque não possui nenhum tipo de d****o na vida, ela apenas é feliz ocupando o papel de esposa de um homem rico.
Ela foi o caminho inteiro reclamando de uma nova linha de expressão que surgiu no seu rosto. Eu não vejo nada, mas mesmo que eu ache algo ela precisa entender que a idade chega para todos e, em algum momento, ela torna-se impossível de esconder.
Minha mãe é loira graças às centenas de reais mensais que ela gasta no hair stylist mais caro da cidade, magra pelos diversos procedimentos de lipoaspiração, alta, com quase cinquenta e cara de 25. Mas ela nunca está satisfeita com a própria aparência. Principalmente depois que eu entrei na adolescência, momento onde ela intensificou as cirurgias plásticas.
Me pergunto se minha juventude de certa forma a ofende.
Ao que cabe a mim, não tenho nada da minha mãe, sendo uma cópia feminina do meu pai. Baixinha, morena, olhos mel, cabelos castanhos e um temperamento passivo que não tem como ter puxado ao da minha progenitora. Eu sou muito mais do “sim, senhora” do que de dar ordens. Obviamente a Sra. Albuquerque não estava muito satisfeita com quem eu era, tentando me arrastar diversas vezes aos seus salões e esteticistas, mas eu estou satisfeita com o corpo que eu tenho. Sempre tive em mente que as minhas imperfeições são as principais responsáveis por me fazer Liah Albuquerque.
E eu tento sempre ser fiel a mim mesma.
— Você está me ouvindo? — minha mãe pergunta ao me ver fitando a janela, suspirando em seguida — Será que dá pra você prestar atenção em mim? Que m*l eu fiz ao mundo pra ter uma filha tão desatenta como você? — ela reclama.
— Desculpe, mãe. Pensando no que ainda precisamos fazer para a viagem.
Ela toca a língua no céu da boca.
— Não se preocupe, você estará indo seja do jeito que for. Eu mesma me certificarei disso. — ela nota que o motorista começa a parar o carro e abre seu sorriso falso que não engana a ninguém. — Chegamos, bonequinha. Desça logo, por favor, pois como você mesma disse ainda temos muito a preparar para a viagem. — e essa é a marca registrada da minha mãe, seu comportamento passivo agressivo, batendo e fazendo um afago, para logo depois bater novamente.
Desci em silêncio e fomos direto para a sala da Dra. Julia, obviamente sem nem mesmo parar na recepção, apesar dos meus olhares de desculpas para as recepcionistas.
Doutora Julia é minha médica desde que eu tenho idade para entender o que é ir ao médico, apesar de minha mãe não gostar muito dela. Segundo a mesma, Julia é jovem e alegre demais.
E sorri demais.
Mas, minha mãe não gosta de ninguém além dela mesma, sendo uma péssima julgadora de caráter, então não me surpreendo muito por ela não gostar de Dra. Julia.
Sei que eu a adoro, o consultório dela sempre foi um espaço seguro e livre de julgamentos para mim.
Julia, como sempre, nos recebeu com seu enorme sorriso, o que, tenho certeza, irritou minha mãe ao máximo.
— Oi Liah, Sra. Albuquerque. É um prazer vê-las, como sempre. Como fui avisada que vocês estavam vindo, já deixei tudo pronto.
Sorri para ela.
Essa mulher é tão calorosa que fui incapaz de continuar no fundo do poço, me obrigando a subir pelas escadas apenas para saudá-la.
Para o desgosto total da minha mãe a primeira coisa que fiz quando entrei na sala dela foi pegar o pote de jujubas que ela sempre mantinha abastecido.
Qual é? Ela é médica pediátrica, me conhece desde sempre e eu me recusei a deixa-la. O tipo de vínculo e confiança que formamos não é feito da noite para o dia. Então, acredito que sou sua única paciente acima dos doze anos. Não que eu me importe.
Mas minha mãe sim. Ela sempre se incomoda com tudo.
— Então Liah, qual seu problema? — ela pergunta, já com minha ficha aberta no computador.
— Eu tenho me sentido muito indisposta ultimamente, enjoada e um pouquinho tonta. —respondi entre uma jujuba e outra enquanto mina mãe olhava tudo com ar de superior.
— Qual a frequência desses sintomas?
— Não tem uma frequência exata. Tem dias que é insuportável e outros que eu não sinto nada. Tirando os enjoos, estes me brindam todas as manhãs.
Dra. Julia deu uma olhada em minha mãe e assumiu um olhar preocupado.
— Algum problema? — perguntei, alarmada.
— Não há de ser nada, mas eu vou pedir alguns exames só para termos certeza, ok?
— Eu acho que isso é perda de tempo. — minha mãe fala — Tudo deve ser por causa do estresse da viagem que se aproxima.
— Então por que você insistiu em me trazer até aqui? — falo, colocando para fora um pouco da irritação.
Minha mãe me lançou um dos seus olhares que possuem o poder de ferir qualquer um e eu me encolhi.
— Desculpe, senhora. — falo baixinho, desviando o olhar, mas ela não me responde.
— Eu ouvi sobre Boston, Liah! Fiquei feliz por você. Quando você está indo?
— Em duas semanas. — minha mãe responde no meu lugar.
– Isso é ótimo! Então vamos acabar com todas as suspeitas logo para que você possa viajar sem preocupação alguma. Vá ao laboratório e tire uma amostra de sangue, eles já receberam a solicitação dos exames via e-mail. Como você é filha do chefe, creio que eles terão seus resultados prontos em cerca de meia hora. Talvez até menos porque pedirei urgência.
— Você acha que é algo grave? — minha mãe perguntou. — Algo que prejudique a viagem?
Sempre com suas preocupações próprias.
— Não, só quero eliminar algumas dúvidas. A urgência é porque a filha do patrão n******e esperar, apenas. — falou sorrindo.
(...)
Se passaram quinze minutos mas pareciam uma eternidade. Eu já estava começando a ficar nervosa. Não queria que nada atrapalhasse minha ida pra Boston, visto que essa seria minha única chance de escapar dos meus problemas e das minhas dores. Eu quero ir a Boston desesperadamente para que eu possa recomeçar lá, para que eu possa fingir que sou outra pessoa e que não fui usada e descartada por alguém que achei que poderia ser o amor da minha vida.
Talvez tudo isso seja uma besteira. Talvez seja como as pessoas costumam dizer e o amor não existe mais.
— Isso é ridículo. — minha mãe reclama, na sala de espera infantil onde esperamos os resultados ficarem prontos.
— O que exatamente é ridículo?
— Nós duas aqui, pelo amor de Deus. Você já tem dezoito e ainda insisti em se consultar com uma pediatra.
— Eu gosto dela. – me defendo.
— E você aprenderia a gostar de qualquer outro profissional que começasse a ase consultar. Está decidido. Essa é a última vez que viremos aqui.
Fico calada.
Por que não adianta discutir com minha mãe.
E por que Boston está a duas semanas de distância. Lá eu poderia finalmente ser livre.
— Oi bonequinha. — meu pai fala, beijando minha cabeça ao chegar ao nosso lado.
Sorri para ele.
— Você não tinha paciente? — minha mãe pergunta, irritada.
— Sim, mas abri um espaço na minha agenda para minha bonequinha. — ele fala, olhando-me com preocupação. — Então, Lídia, já temos um diagnóstico?
— Não sabemos de nada ainda, mas se fosse algo grave e ela precisasse de você para viver já tinha morrido.
Meu pai vira seus olhos gentis para ela.
— Querida, o que eu fiz agora? Eu vim o mais rápido que pude. — falou envergonhado
— Não entendo o porquê da pressa. De uma forma ou de outra eles estão morrendo mesmo. Serem atendidos agora ou daqui a meia hora não fará diferença. — minha mãe sussurra, me fazendo congelar de indignação, mas meu pai continua sereno ao lado dela.
— Não podia abandonar meus pacientes.
— Mas podia abandonar sua família?
Ele sorri para ela.
— Sinto muito, querida. Prometo que isso jamais voltará a se repetir.
Eu amo meu pai, mas as vezes eu me irrito com o quão permissivo ele é com minha mãe. Talvez, se ele não cedesse tanto ela seria um pouco diferente.
Graças aos céus, Julia nos chamou antes que aquela interação da minha família me fizesse explodir em lágrimas. Acredito que por causa de tudo que passei nas últimas semanas eu tenha me tornado menos propicia a segurar a barra das insensibilidades de minha mãe.
Mas, bastou um olhar para o rosto nervoso de Julia para a v*****e de chorar retornar com força total. Algo está muito errado, eu posso sentir isso.
— Então Julia, o que a Liah tem? — mamãe perguntou impaciente.
— Por que não entramos no consultoria para conversarmos?
Meu pai a olhou, começando a ficar nervoso, mas me empurrou levemente para que eu os seguisse até a sala, tendo em vista que eu estava congelada no meio da recepção.
— Então, Julia, é algo grave? Por favor, não me diga que ela irá tornar-se minha paciente. — meu pai falou, passando a mão pelos cabelos. Ele só faz isso quando está muito, muito nervoso.
— Não, fiquem tranquilos. Os exames que eu solicitei não detectaram nenhum tipo de câncer em Liah. — ela falou, mas seu semblante ainda estava tenso.
— Então, qual o problema? Se os exames não deram em nada é apenas nervoso pela viagem como tínhamos imaginado? — minha mãe falou.
— Não exatamente. Eu disse a vocês que não encontramos nenhuma disfunção no resultado dos exames, mas nós encontramos algo.
— O que? — meu pai perguntou.
Eu fiquei em silêncio, apenas ouvindo o que os três adultos falavam ao meu redor, as lágrimas quase sendo derramadas dos meus olhos. Eu senti lá no fundo que qualquer que fosse a notícia que ela me daria agora transformaria minha vida para sempre.
— Bem... a Liah está grávida. — ela falou baixo.
Minha mãe deu uma gargalhada.
– Isso é impossível. Liah é virgem, o laboratório deve ter trocado as amostras. Se não fossemos donos do hospital o processaria agora mesmo.
— Não há possibilidade de amostra trocada. Somos muito minuciosos aqui. — meu pai falou, em um tom tão baixo que quase não ouvimos.
— Liah, diga a eles que isso é impossível de ser verdade. — minha mãe disse se virando para mim.
Porém, seja lá o que ela viu nos meus olhos, me entregou.
Talvez fosse o pânico ou as lagrimas que enfim começaram a cair, mas pela forma que o rosto dela se contorceu eu soube que ela viu em meus olhos que o resultado do exame era cem por cento real.
— Liah está grávida de cinco a seis semanas pra ser exata. — Julia falou, mas só recebeu um olhar raivoso de minha mãe em resposta.
Eu estava envergonhada e só conseguia olhar para baixo. Meu pai fitava a parede como se ela fosse muito mais interessante que a cena que se desenrolava em sua frente.
Minha mãe puxou os exames das mãos de Doutora Julia bruscamente.
— Isso aqui só pode estar errado. — ela continuava tentando ignorar a situação que estava em sua frente.
— Sinto muito, Sra. Albuquerque, o exame de sangue nos dá 99,9% de certeza. Na verdade é a única forma de confirmarmos com certeza uma gravidez.
— Mas a Liah é virgem, não é Liah? — meu pai perguntou, saindo da inércia, repetindo a afirmação que minha mãe fez lá no início.
Não respondi, só olhei pra baixo, chorando sem parar.
— Como você pôde, sua v*******a? Como você teve coragem de fazer isso comigo? Com a nossa família? — minha mãe gritou e eu me encolhi com suas palavras.
— Eu vou sair pra vocês conversarem com um pouco mais de privacidade, mas antes de sair Liah venha até mim, precisarei encaminha-la a um obstetra e te passarei algumas recomendações iniciais. — Julia falou, mas ao sair ela apertou meu ombro e meu deu seu sorriso que é sua marca registrada, como se com aqueles gestos ela tentasse me passar algum tipo de conforto.
Levantei meu olhos pra encarar a ira nos olhos de minha mãe e o desapontamento nos do meu pai e me preparei para a avalanche que prometia soterrar a Liah Albuquerque que eu conhecia.