Capítulo Quatro

1486 Words
Levei quase 15 minutos rodando de taxi até eu conseguisse lembrar algum endereço para o qual eu pudesse ir agora. Não que eu já não tivesse ido ao endereço um milhão de vezes, por que eu fui. Mas, no momento do caos total, minha mente era como uma folha em branco. O motorista se manteve como uma presença silenciosa na minha frente, me permitindo chorar durante todo o tempo sem nem mesmo fazer uma pergunta. O máximo que recebi dele foi um lenço de papel em algum momento quando minhas lagrimas se tornaram descontroladas demais. Agora, em frente ao meu destino final, minha última opção em conseguir um abrigo para essa noite, me senti inundada por insegurança. As duas pessoas mais importantes da minha vida tinham acabado de me virar as costas, e eu não sei se estou preparada para a terceira pessoa que mais amo no mundo fazer a mesma coisas. Não que eu ache que ela seja capaz disso, mas eu também não achei que meu pai seria capaz, então estou meio descrente no mundo. Só em lembrar de tudo senti as lagrimas voltando com força total. A reação da minha mãe, apesar de me machucar, não me surpreendeu muito. Essa era Lídia Albuquerque, a mulher que se preocupava mais com o que os seus amiguinhas da alta sociedade iriam pensar do que com o bem estar das pessoas ao seu redor, a mulher que ainda sente a necessidade de se provar enquanto mulher rica mesmo depois de todos esses anos. O que estava me magoando de verdade foi a reação do meu pai. Eu sei que ele sempre toma partido de minha mãe, evitava confusões e discussões ao máximo, mas eu esperava outro comportamento dele, esperava que ele pelo menos tentasse me ouvir, me dar um momento ou algum tipo de conforto. A iludida aqui esperava que ele mandasse dona Lídia calar a boca e me abraçasse e falasse que tudo iria ficar bem. Eu precisava tanto disso. Eu criei uma imagem do meu pai como um super herói, porém quando eu mais precisei ele se negou a me salvar. Ele escolheu ela. Ele sempre escolheu e sempre escolherá ela. Você deve estar se perguntando agora o porquê de eu ter deixada o Guilherme sair ileso de toda a história. E a resposta é simples. Em um primeiro momento foi porque eu sou uma i****a e quis defender o carinha que eu gosto. Depois eu estava chocada demais para falar qualquer coisa. Mas, mesmo com motivos e justificativas ridículas para isentá-lo de seu responsabilidade, essa foi a melhor decisão que eu tomei nas últimas seis semanas. Usando esses quinze minutos de choradeira para pensar um pouco na minha situação, percebi que caso eu o revelasse como o pai do duas coisas básicas iriam acontecer: 1- Eu iria deixar minha mãe ainda mais irritada, já que ela diria que eu "seduzi" um dos filhinhos de uma de suas amigas. Garoto esse que não era qualquer garoto, mas O garoto, o menino de seus olhos. E então ela aprofundaria suas ofensas, achamos novas formas para me enquadrar como p********a. 2-Tendo em vista seu comportamento nos últimos dias duvido que ele me apoiasse, pelo contrário, iria me expulsar de sua casa e de sua vida também. Isso se não criasse inverdades ao meu respeito, para manchar a minha imagem já destruída. Então, que eles pensassem o que quisesse pensar sobre tudo isso Quanto ao bebê, não posso dizer que já o amo ou gosto dele e muito menos que estou feliz. Eu não queria bebê nenhum nesse momento da minha vida, na verdade nem tinha certeza se queria alguém bebê em algum momento da minha vida. Eu tinha um exemplo terrível de mãe e morro de medo de ser para meu filho o que minha mãe foi para mim. E que ele me odeie um dia ou se ressinta de mim. Senhor, eu m*l sei como ser mãe. Mas agora não é hora para pensar em nada disso porque ele já está aqui, e não há nada que eu possa fazer a não ser aprender a lidar com as consequências de minhas escolhas questionáveis. Assim como minha mãe disse que eu teria que fazer. Quer que eu seja feliz ou não, essa era minha vida agora. O taxista suspirou, ainda parado comigo em frente ao meu destino e eu percebi que era hora de descer e me preparar para o que eu espero que não termine como o embate de mais cedo. Respirei fundo e paguei o taxi, que deu uma pequena fortuna (exagero meu, admito), me lembrando que eu tenho que economizar todo dinheiro que eu puder a partir de agora para sustentar um bebê, uma vez que já não tenho papai e mamãe para me dar dinheiro e me ajudar a lidar com as despesas. Criança custa caro. E quando ele entrar na escola? Não quero nem imaginar, lembro que meu pai desembolsava uma pequena fortuna mensal para arcar com a minha educação. Não tenho ideia de onde vou tirar dinheiro ainda, mas não vou pensar nisso agora, tenho que aprender a lidar com um problema por vez, uma coisa de cada vez. Peguei um dos meus cartões que eram débito em conta de meu pai e paguei o taxista, adicionando um generoso bônus, não só para me vingar de meu aspais de certa forma, não que a quantia fosse fazer diferença a eles, mas como forma de agradecimento pelo taxista ter sido tão paciente comigo e por não ter feito perguntas. O porteiro me cumprimentou e me deu passe livre, me reconhecendo das milhares de vezes que eu passei por essas mesmas portas para uma visita, só avisando que ela tinha acabado de chegar e que eu dei muita sorte. Ah, se ele soubesse... Tentei sorrir pra ele mas saiu mais como uma careta, estou drenada demais, até mesmo para atuar um pequeno sorriso. Escolhi subir de escadas, afinal era só o terceiro andar e eu tinha que tomar coragem. E o elevador do prédio volta e meia quebra. Não sei o que faria se eu ficasse presa em um elevador hoje. Não sei o que faria se a terceira pessoa mais importante da minha vida me abandonasse também. Subi o último lance de escadas entoando uma oração silenciosa. Para que o que restou do meu coração não fosse partido também, Respirei fundo ao chegar na porta de seu apartamento e bati na porta com a força que ainda me restava. Ela abriu a porta e ao me ver, abriu um sorriso que demonstrava felicidade. — Bonequinha, não sabia que você estava vindo. Quando olhei pra tia Lília, uma cópia menos plastificada e mais jovem da minha mãe, não pude mais segurar as lágrimas. Caramba, será que a represa chamada Liah não seca nunca?! — Ei bonequinha, o que aconteceu? — ela perguntou, seu sorriso sendo substituído por uma careta de preocupação. Porém, a única resposta que eu pude dar a ela foram mais lágrimas e ela, então, fez o que eu estava desejando desde o momento em que Julia anunciou às “boas novas”: ela me puxou para um abraço super apertado e me manteve presa em seus braços, enquanto fazia um carinho em meu cabelo, me puxando para dentro logo em seguida. — Liah você tá me deixando preocupada. Respira junto a mim, tenta se acalmar, querida. — ela falou, limpando minhas lágrimas — Me conta o que aconteceu. Tentei abri a boca pra explicar a ela o que estava acontecendo, mas fechei novamente, sendo incapaz de falar mais alguma coisa. Não agora quando enfim pude encontrar algum conforto, um pouco do carinha e da paz que eu estava procurando. Aposto que ela não me trataria tão bem depois que eu contasse a verdade. — Vem aqui bonequinha — ela falou sentando no sofá e me puxando pra deitar com a cabeça apoiada no seu colo — Não precisa falar nada agora, ok? Chore tudo que tem pra chorar e depois a gente conversa. E então eu visto minha armadura reluzente de super h*****a e vou eliminar todos que ousaram te fazer m*l. Abri um sorriso minúsculo. — Super heróis não eliminam pessoas. — falo baixinho. — Bom, o meu tipo elimina. Quaisquer que sejam os monstros que colocam lágrimas no rosto da minha menina bonita. — ela fala com o sorriso, me fazendo sorrir juntos. — Seja o que for que esteja te incomodando, Liah, nós iremos resolver, ok? Juntas. Senti as lágrimas retornarem. Acho que tia Lílian está certa e meu super herói e na verdade uma super h*****a. Tia Lílian começou a cantar pra mim, a mesma canção de ninar que ela cantava para mim quando eu era criança e eu sorri em meio as lágrimas com a ironia das escolhas dela. E com seu carinho chorei até estar finalmente drenada e acabar caindo no sono.
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