Bob estava muito tranquilo no seu quarto assistindo sua novela favorita na BBC, com uma caixa de pizza do lado e tomando uma cerveja, aproveitando a noite de folga, quando toca a campainha.
Levantou-se irritado, afinal ele ia ficar sem saber se o duque de Kent iria ou não finalmente beijar Lady Penélope, mas a campainha continuava, insistente e estridente.
Ah não. Só tinha uma pessoa que tinha autorização para entrar na casa e tocar a campainha daquele jeito: Tommy Starr. Essa não. E o patrão não estava em casa. E Tommy bêbado era um fardo difícil de aguentar. Bob sabia que Tommy era um dos melhores bateristas do mundo, gostava muito de ouvir ele tocando, mas isso não o ajudava muito enquanto pessoa.
Sempre bebendo ou drogado, sempre sujo, sempre com uma mulher diferente - nenhuma aguentava ele por muito tempo - Tommy Starr era o tipo da pessoa que ninguém fazia questão de ter por perto. Mas Ian o estimava. Então Bob era obrigado a suportá-lo. Os toques da campainha já tinham virado batidas na porta e uma voz berrava insistentemente o seu nome, sim, era mesmo Tommy Starr. Bob desligou a TV e foi atender - que Deus o ajudasse se um dia algum deles descobrisse que ele gostava de ver novelas!
Bob abriu a porta. Era Tommy sim. Mas ele não estava sozinho. Além da v***a de plantão que estava com ele, uma loira suja e m*l-vestida que devia estar tão bêbada quanto ele, estava Jack Daniel. O guitarrista. Ah, desse cara Bob realmente não gostava. Não gostava nem um pouco. Também sabia que Ian não gostava dele, ele tinha entrado na banda muito mais por insistência de Jim Collins do que por qualquer outro motivo.
Era um bom guitarrista sim, Bob até gostava de alguns de seus solos, e era bonitão, loiro de cabelos lisos e compridos até a cintura, magro, alto, de olhos azuis, um rosto bonito, tinha chegado inclusive a trabalhar como modelo, as fãs eram loucas por ele, mas o que ele tinha de talentoso e bonito ele tinha de mau-caráter. Era arrogante, invejoso, mesquinho, quando entrou maltratava Bob, chamava ele de capacho, fazia de tudo pra tirar Bob do sério, até que Bob se viu obrigado a marcar aquela cara lavada com uma meia dúzia de socos. Ian deixou fazer, e demorou para interferir na surra. Então disse:
- É isso aí, Jack, isso é pra você aprender a não mexer com quem tá quieto e nem ficar humilhando os outros dentro da minha casa. O Bob é meu amigo. Se você mexer com ele de novo, eu não vou mais me intrometer entre vocês. Vou deixar você apanhar até perder todos os dentes.
Daquele dia em diante Jack o tratava como um igual. Sem intimidades, sem as brincadeirinhas maldosas que adorava fazer, mas também não mexia com ele. Perto ou longe de Ian, Jack respeitava Bob, e principalmente longe, porque sabia que longe a probabilidade de apanhar era maior. E Bob era enorme, os ombros largos, tinha servido o exército quando mais jovem. Não era uma boa ideia se meter com ele.
Sentaram no sofá de couro, Bob foi buscar cerveja pra todos, e uns petiscos.
- E aí, Bob - perguntou Jack - então você não foi no noivado do teu patrão?
- Nem eu nem vocês né? Lá é só gente fina que vai, não vão querer uns roqueiros cabeludos feito nós não.
- Mas Bob - perguntou Tommy - e aí, você viu a modelo? Você sabe o que falam dela? Que o Ian não vai precisar de um p*u pra f***r ela, vai precisar é de uma britadeira, ali embaixo não tem mais nem teia de aranha, tem é cabo de aço - e imitava o barulho de uma britadeira, tec tec tec tec, se estourando de rir. Até Jack e Bob riram, mas quando passou a crise de riso Bob disse:
- Pois vocês estão enganados com ela, a dona Megan é muito gente boa. - Jack se interessou.
- Ah é mesmo Bob? Pois ela sempre me pareceu tão esnobe, tão grã-fina!
- E não é? Mas não é nada disso não!Chegou aqui alisando Bonnie e Clyde, os gatinhos, falou comigo com toda a educação, foi mexer nos discos do patrão, olha, achei ela gente boa sim. Não vi nada de esnobe. Agora, bonita ela é. No duro!
- Duro foi seu p*u que ficou perto dela - disse Tommy.
- Que é isso rapaz! A dona Megan é uma moça de respeito! Dá pra ver.
- É virgem. O Ian vai precisar de uma britadeira mesmo. - Tommy concluiu sacudindo a cabeça, e olhando sua acompanhante: - Nossa, essa moça aqui bebe mais que um carro envenenado. Acabou com a cerveja, c*****o, mulher! Bob, pega mais umas cervejas pra nós?
- Ué, você disse que se eu viesse com você tinha cerveja de graça, então eu bebi tudo mesmo - a mulher retrucou, terminando a frase com um arroto na cara de Tommy.
- Tô impressionado - disse Jack - até que enfim Tommy arranjou alguém do seu nível social, logo estaremos comemorando mais um noivado!
Tommy jogou uma almofada nele dizendo: - Cala a boca, animal, não dá esperança pra criatura não! Aliás, como é o seu nome mesmo, belezoca?
- É Nancy, me dá um cigarro?
- Pois não, senhorita, ou será que devo chamá-la de Sra. Starr? - respondeu Jack, no que ganhou outro ataque de almofada de Tommy, "bem, até que ter eles aqui não vai ser tão r**m", pensou Bob. "Mas perdi minha novela".
- Então, Bob - continuou Jack - será que essa festa demora muito? Vamos ficar aqui até o Ian chegar. Depois a gente pode ir pra uma boate comemorar o enforcamento!
- Ah, essas festas de grã-finos são um pé no saco - disse Tommy - essa gente toda emproada tomando champanhe, bebida de mulherzinha, andando pra lá e pra cá, posso soltar um peido, milady, pois não, milorde - inclinava a cabeça ao falar e os outros se mijavam de rir - tenho certeza que o Ian se pirulita de lá rapidinho.
- Ainda mais que não levou a britadeira - disse Jack.
- Eu ainda acho que vocês vão ter uma surpresa com a dona Megan, isso sim. - Bob tinha gostado sinceramente de Megan e não queria que falassem m*l dela.
Jack continuava falando, o assunto era interessante pra ele:
- Mas e aí, é verdade que o noivado é falso? - Tommy estava mais por dentro:
- Se é, cara, você sabe que o último disco não vendeu tão bem né, o povo lá da gravadora ficou cismado, e só temos contrato pra mais um disco.
- E o Ian não quis renovar? p*u no cu do c*****o mesmo. - Bob ouvia tudo calado, essas coisas de discos ele não entendia. Só entendia que Jack estava descontente com o patrão, e se Jack não estava feliz então o patrão devia estar certo.
- Pois é, cara, mas o Jim acha que é estratégia do Ian pra conseguir um contrato melhor depois. O problema é que como o último disco não vendeu tanto, não sei nem se os caras da gravadora vão querer mesmo renovar. Tudo depende do disco que vamos lançar agora. - Tommy ficava sóbrio como um padre numa missa de domingo quando falava de negócios, todos ficavam admirados com isso. - E também acho legal o que o Ian está fazendo, aceitando esse noivado, tudo pra chamar mais a atenção da mídia e garantir que o disco novo venda bastante, aí nós vamos ter bala na agulha pra exigir mais, sacas?
Jack sacava. Sacava até bem demais. Nessas coisas é que ele sentia o abismo que existia entre ele e Ian, na banda e na vida.
Jack poderia ficar noivo de quantas mulheres ele quisesse, isso não ia fazer a menor diferença pra ninguém, e muito menos ajudar a banda a vender discos. Ian discutia de igual pra igual com os executivos da gravadora, nada acontecia sem ele saber, e aos outros da banda só restava aceitar - nunca lhes era perguntado o que achavam de nada.
Era bem verdade que ganhavam, todos eles, rios, rios e mais rios de dinheiro, que Jack sempre tinha se esmerado em aplicar e fazer render no banco, tinha horror à pobreza. Mas ainda assim, não se sentia propriamente numa banda, como dono, como parceiro, como integrante. Se sentia mais um empregado de Ian, como Bob. Logo Ian estaria lhe pedindo pra ir buscar seu uísque, não estava muito longe disso.
Mas um dia isso iria mudar, Ian iria sair de cena, de um jeito ou de outro. Logo Ian completaria 27 anos. E todo mundo sabe que pouca gente resiste ao Clube dos 27. Jack iria se certificar disso pessoalmente. Então, Jack seria o novo vocalista da banda The Jones, e aí sim faria diferença o fato dele estar noivo ou não!
Ele iria aproveitar mais, muito mais do que o i*****l do Ian aproveitava, cheio de nove horas, cheio de frescuras, com ele, Jack, não iria ser assim. Ele iria botar pra quebrar. E a primeira coisa que ele iria fazer seria demitir aquele cretino do Bob. Esse gorila ridículo que vivia atrás do Ian feito uma babá, patrão isso, patrão aquilo. Se Jack fizesse a coisa bem-feita, Bob até poderia ser acusado de assassinar o patrão, aí sim, ele mataria dois coelhos de uma cajadada só.
- Mas já tá chapado com duas cervejas? - gritou Tommy.
- Por que isso?
- Tá aí rindo e falando sozinho, Jack, acorda pra cuspir, xará! - e jogou-lhe outra almofada. Com Tommy por perto era impossível ficar quieto, ele não deixava. Era um inferno. O melhor amigo de Ian, se conheciam desde crianças. Um i****a. O que salvava nele era o incrível talento pra bateria, Jack mesmo adorava ouvi-lo tocar, e até suspeitava que sem ele, Ian nunca teria saído do circuito de pubs, barzinhos com música ao vivo, festinhas particulares...
Por mais que seu padrinho mafioso o protegesse, no mundo da música ainda era preciso ter talento pra deslanchar. E Tommy tinha talento por todos eles. Então o remédio era aguentar suas bebedeiras, rir das suas piadas. Ian até podia ser insubstituível. Tommy não.