O salão estava cheio de gente. Naturalmente todas as conversas pararam quando Ian entrou - ele estava acostumado com isso. O que Ian não estava acostumado era dividir a atenção das pessoas com Megan, que era tão famosa e tão ou mais solicitada que ele; muitas vezes naquela noite ele achou que algum repórter, ou fotógrafo, ou qualquer um, queria falar com ele, mas ele era ignorado, deixado de lado. Megan era a grande estrela.
Na casa de Lady Scott, se dava mais importância à moda do que à música. Em qualquer outra ocasião Ian se sentiria diminuído e irritado, mas naquela noite ele se distraia ao observar o comportamento de Megan. Ela nunca era arrogante, era paciente, bondosa, sempre fazia uma pose para as câmeras, tinha uma palavra pra cada um e tratava a todos igualmente, fosse o interlocutor um lorde ou o garçom. E pensar que um dia ele achou que ela era esnobe e metida! Não, esnobe era ele, mesmo sem perceber.
Ian se achava uma boa pessoa, sempre parabenizava a si mesmo em segredo, achando que ainda era o mesmo cara que morava numa casinha simples num subúrbio de Manchester. Tá certo, perto de caras como Jack Daniel, o guitarrista, que fazia absoluta questão de ser arrogante e chato com todo mundo, Ian podia ser considerado um sujeito muito simpático e acessível. Mas olhando Megan Lily, e o jeito simples e amável com que ela tratava as pessoas, ele concluía que ainda tinha muito a aprender.
Na mesa principal, estavam as pessoas mais influentes e interessantes da festa: Lady Scott, um primo de segundo grau da princesa, uma atriz de Hollywood, a sobrinha do primeiro-ministro, John Roth, e Jim Collins, que até então nunca tinha sido convidado a se sentar e nem a se juntar a eles, se contentando sempre a cumprimentá-los a distância. Por mais atenção que John estivesse dando a Lady Scott, seu olhar sempre procurava Megan entre os convidados. E não parecia ter um olhar satisfeito. Ao seu lado, Jim estava tentando lidar com o copo de uísque sem parecer um completo i****a, vermelho feito um tomate e suando em bicas.
Obviamente Jim Collins estava calado, perto daquela gente, de um mundo tão diferente do dele, ele não tinha nada pra dizer. Vendas de discos, mais uma overdose de Tommy (estavam considerando mandá-lo, mesmo ele não querendo, para uma clínica de reabilitação), os preparativos para a próxima turnê dos The Jones... nada disso poderia chamar a atenção da sofisticada Lady Scott, que bebericava seu martini e parecia interessadíssima em uma história de John a respeito de Donatela Versace. Oh sim, John conhecia todos eles. E tinham assunto entre eles.
Já ele, Jim, não passava de uma babá de um bando de drogados, que por sorte sabiam tocar e cantar bem. "Não", pensou ele, "são os meus meninos, são talentosos, nós todos demos muito duro para estarmos aqui. Quem é essa gente pra julgar, afinal?" E pensando assim se sentiu melhor, até conseguiu apreciar o uísque. Ao levar o copo à boca, ficou muito surpreendido, pois era uma bebida bem inferior as que ele estava acostumado. Nem Bob tomaria uma coisa daquelas. Chamou o garçom, dispensou o uísque, achou melhor pedir uma soda. De qualquer forma, era melhor mesmo para Jim ficar sóbrio aquela noite. Deveria ficar alerta, a postos para qualquer eventualidade.
Megan e Ian observavam o movimento do salão, de mãos dadas. Já tinham dito ali na entrada que eram noivos. Ian, aproveitando a visibilidade do tapete vermelho, parou, com Megan ao seu lado, pigarreou, fez um gesto, chamando a atenção pra si e disse em voz alta:
- Senhores, creio que gostarão de saber que eu e Miss Lily ficamos noivos esta noite. Não, ainda não temos uma data para o casamento - e nisso Megan ficou vermelha - sim, estamos muito felizes.
- Obrigada a todos - completou Megan.
E então entraram.
Os repórteres ficaram desesperados por mais detalhes, mas a equipe de Lady Scott era muito eficiente. Ela não permitia que seus convidados fossem incomodados. E se algum repórter conseguia permanecer ali, deveria se contentar em ficar quieto e observar tudo em silêncio. À menor tentativa de abordar algum convidado, os seguranças o poriam pra fora... Melhor não arriscar.
Eles não precisavam ficar de mãos dadas, mas Ian não abria mão de nenhuma chance de tocar naquela pele branca e suave, com cheiro de lavanda. Sabia que não podia se permitir mais do que isso.
Megan de vez em quando olhava pra Ian disfarçadamente. Esperava um beijo, uma tentativa de puxar conversa, mas nada.
Ele se contentava em ficar apenas segurando sua mão como um adolescente no colegial. Às vezes alguém vinha falar com eles, ou o garçom oferecia bebidas. E então ele respondia, aceitava ou recusava a bebida. E era tudo.
Megan se sentiu cansada e quis se sentar em uma mesa. O garçom encontrou uma, meio afastada e - que maravilha! - longe dos olhares de John. Sentaram-se. Ian lembrou-se do anel no bolso do smoking.
- Me perdoa, deveria ter te dado antes - e pôs a caixinha em cima da mesa.
Megan abriu, era um anel de safira azul com diamantes, então era esse o anel de noivado. E ia ser desse jeito. Nada do seu Príncipe caindo de joelhos, com aquele ar apaixonado, fazendo a clássica pergunta: "quer se casar comigo?", ao que ela responderia com um sorriso indulgente, "sim, eu aceito". Não, nada disso. Ali estava a caixinha, Ian olhando pra ela, esperando que ela dissesse alguma coisa, como Megan não dizia nada, pegou a caixinha de volta:
- Não gostou? Eu posso trocar. Disseram que esse anel está na moda agora, é o anel da princesa. Se você preferir, podemos ir na joalheria e você pode escolher o anel que quiser.
- Não, eu gostei muito do anel, deixe ver - e pôs o anel no dedo. Estava errado, era Ian quem deveria ter posto o anel no dedo dela, mas estava tudo tão estranho essa noite, que Megan achou melhor não questionar mais nada e aceitar o que viesse.
Afinal Ian era um roqueiro, um excêntrico, não se importava com romantismos e convenções. Não tinha nem sido ele quem tinha escolhido o seu anel, provavelmente foi uma atendente qualquer da joalheria, joalheria Cartier, segundo estava escrito na caixinha. Mas estava feito.
O anel estava no dedo dela e, na mão dele, uma aliança de ouro fininha no anelar direito informava que ele estava, também, noivo. Ela gostaria de ter posto a aliança no dedo dele, beijado aquela mão linda, de dedos longos, calejados de tocar guitarra, manchados de nicotina, mas nada naquela noite estava saindo como ela sonhava. E era a noite de seu noivado. Podia ser diferente. Mas era aquilo. Era o que ela tinha. E já era o bastante. Ian interrompia o fio dos pensamentos dela:
- Bom, isso significa que agora é oficial, não é mesmo? O nosso noivado. Vamos comemorar - ergueu o copo de uísque. Megan o acompanhou, erguendo seu copo de suco de laranja.
- A nós - disse ela.
- Nunca, em toda a minha vida, pensei que fosse ficar noivo de alguém, mas você me fez mudar de ideia, Megan.
- Sério mesmo? Nunca pensou em se casar?
- Na verdade, não. Desde menino eu toco, desde adolescente estou envolvido com a banda, nunca tive muito tempo pra pensar nisso - Megan o olhava, compreensiva. Sim, ela entendia perfeitamente, também trabalhava desde criança.
- Pois é, e tem que ser alguém que entenda isso, entenda que temos fãs, que temos compromisso, que temos turnês e sessões de autógrafos, é chato, mas não abro mão desse momento com os meus fãs. Sempre digo para o Jim, meu empresário: são eles quem compram meus discos, não vou tratá-los com pouco caso nunca. Isso é certo - e virava o copo de uísque de uma vez só. O garçom sempre a postos para não deixar o copo vazio.
- Eu entendo, eu como modelo não tenho tantos fãs, mas quando alguém me pede um autógrafo, ou pra tirar uma foto comigo, me sinto muito contente, não deixa de ser um reconhecimento pelo nosso trabalho. Acho que você está certo, acho ridículo quando vejo alguém famoso maltratando os seus fãs, parece até ingratidão.
- É sim. Como o Jack, meu guitarrista. Deus, como ele é chato, antipático, eu fico envergonhado por ele. Mas os fãs já aprenderam. Ninguém procura ele, e ele fica muito bravo por isso. Diz que eu quero chamar toda a atenção pra mim,mas não é isso. Eu sempre falo pra ele: p***a, você viu o jeito que você trata os caras? E quer que eles ainda dêem moral pra você? Mas não mesmo, cara, não mesmo. - nisso Ian caiu em si, estava falando p***a pra ela! - Ah Megan, sinto muito, falei p***a, opa, palavrão perto de você.
- Imagina Ian, não se preocupe comigo, por favor, seja sempre você mesmo, eu adoro o seu jeito - ao perceber o que tinha dito ficou vermelha e calou-se, mas Ian queria ouvir mais:
- Megan? Então você adora o meu jeito? Não se importa que eu seja desse jeito que eu sou, você sabe, bebendo, falando palavrão? - antes dela conseguir responder, lá estava Jim Collins na frente dos dois, com as mãos na cintura:
- Ah, vocês estão aí! Eu e Mr. Roth já estávamos pensando em chamar o FBI pra procurar vocês! - e sorria. Mas Ian sentia o peso do olhar de Jim sobre ele.
Paciência, agora ele não podia nem conversar com a menina? Dane-se também, ele e aquele insuportável daquele John Roth, Ian nem sabia porque deveria ter medo dele. Mas uma voz suave na sua mente trouxe-lhe a resposta: "tem que ter medo de John sim, porque se você contrariar ele, não poderá mais ver a Megan".
E Ian não queria nunca deixar de ver a Megan. Queria muito falar com ela, saber o que ela pensava, saber se ela gostava dele. Porque se ela também gostasse dele, nem o Papa ia proibi-lo de tocar nela como ele gostaria, aliás, Ian era anglicano, como todo bom inglês. "O Papa que se dane! John Roth que se dane! Conversar não tira pedaço, não estou fazendo nada de errado", pensou.
- Ah, Miss Lily,.vejo que Ian já lhe deu o anel de noivado! Nós íamos fazer o anúncio formal, na mesa de Lady Scott, mas vocês jovens não gostam de perder tempo, não é mesmo?
Jim se sentiu aliviado por isso, não via a hora de ir embora daquele lugar, que cada vez mais lhe lembrava de quem ele realmente era: um homem rústico, ignorante, que gostava de ver futebol pela TV, comer seu peixe com fritas, se possível acompanhado de uma boa cerveja, bem gelada. Isso sempre lhe trazia um certo orgulho de si mesmo: "subi na vida mas continuo sendo um cara simples", dizia ele. Mas não ali, não naquele lugar, não com aquela gente.
Ali Jim Collins constatava a grande verdade daquele ditado que dizia que nem tudo pode se comprar com dinheiro. De qualquer modo, a noite ainda não tinha acabado. John tinha ficado extremamente irritado ao ver que Megan estava fora do seu campo de visão e mandou ele, Jim, trazer os dois para a mesa principal, "imediatamente, Mr. Collins, aliás, não sei porque não vieram para cá assim que chegaram." "Sim, Mr. Roth, vou trazê-los para cá". Saiu depressa, mas não depressa o bastante para não ver o olhar de desprezo de Lady Scott sobre ele. "Deviam ter trazido a guilhotina para a Inglaterra", Jim suspirava. E ali estavam os dois.
Sentados conversando, o que já era péssimo: as ordens de John Roth eram evitar todo o contato que não fosse o estritamente necessário. "Certamente Ian achou necessário entreter Miss Lily, eu não o julgo, pobre rapaz", pensou, "mas tenho que ser o estraga-prazeres, de qualquer forma. Antes eu do que John Roth".
- Bem, Miss Lily, Ian, vocês são esperados na mesa principal, para o jantar. - parou assombrado, ao sentir a mãozinha suave de Megan sobre a sua.
- Mr. Collins, por favor, sem formalidades. Me chame de Megan, sim? - Jim ficou atônito.
- Perfeitamente, miss... Megan.
- Isso mesmo.
Ian olhava a cena sem opinar, mas imensamente frustrado, já vinha alguém atrapalhar outra vez! Se fosse em outros tempos, com outras pessoas, provavelmente Ian já teria arrastado a moça para algum canto e feito todo o serviço nela. Era verdade também que isso já estava o deixando muito entediado. Elas estavam fáceis demais.
Ele não tinha muito pra fazer a não ser escolher uma garota qualquer, que o agradasse, e apontar pra Bob, que já sabia exatamente do que se tratava. Ao que ele se lembrava, até hoje, nenhuma delas tinha recusado. Mas com Megan, ele não conseguia nem conversar. E no fundo, estava adorando aquilo tudo.
Pela primeira vez, não tinha ideia de como aquilo iria terminar, já que se recusava em sua mente a aceitar a ideia de representar o noivo apaixonado por algumas semanas e inventarem alguma desculpa para o rompimento depois, com Megan no final saindo disso tudo tão intocada quanto entrara e indo se casar depois com algum duque ou conde qualquer, como tinha sido combinado. Não.
Megan ia ser dele, e Ian não queria dela só o corpo. Queria o seu coração. Ele se via até capaz de casar com ela de verdade. Dinheiro não era problema. Mas a princesa morava numa torre guardada por um dragão.
E o dragão dessa história tomava uísque e andava por aí de terno e gravata. Pois bem, Ian também não sabia manejar uma espada e nem andar a cavalo, como um príncipe dos contos. As suas armas seriam outras. E ele estava pronto pra luta. A princesa valia a pena.