Capítulo 5

2070 Words
John levantou-se do sofá e entregou seu copo a Bob. Fez um gesto que abrangia os presentes, dizendo: - Já está na hora, não? Não gostaria de chegar atrasado na casa de Lady Scott, uma grande amiga - olhou pra Jim, que estava despeitado. Anos empresariando a banda mais famosa do mundo e ele não tinha essas conexões com a alta sociedade londrina, como John. Collins só conhecia donos de gravadora, locutores de rádio, donos de lojas de discos, roqueiros como Ian, vindos da classe média e baixa inglesa como Ian e como ele mesmo, e também John e Megan; todos eles ali tinham sido moradores dos bairros sujos e cheios de graxa e fuligem de Manchester. Mas ele ainda tinha graxa debaixo das unhas; era gordinho, baixinho, estava começando a ficar careca, e os ternos nunca lhe caíam bem. Era muito desajeitado, como dizia o Tommy caçoando dele, "elegante como um motorista de caminhão em uma festa de casamento". Em compensação, John, que deveria ser filho de irlandeses ou escoceses, era alto, magro, cabelos meio castanhos, meio ruivos, olhos castanho-claros, frios e autoritários. Até então Jim não tinha reparado nisso, mas vendo os dois juntos assim, era impressionante a semelhança entre John e Megan. Quase como se fossem pai e filha. Um lorde e uma lady. Miss Lily então, parecia que tinha nascido pra ser uma rainha, tinha sido educada por Mrs. Rachel Anne Roth, a lendária governanta dos príncipes da Inglaterra; tinha o porte, a elegância e a beleza de uma princesa, e ele Jim, plebeu de pai e mãe, se sentia oprimido na presença de Megan, m*l ousava lhe dirigir a palavra e até andava meio curvado. Pra ele estava claro como a água: John não achava Megan digna de um rapaz feito Ian, por mais dinheiro que este tivesse: devia estar guardando a menina para algum casamento mais vantajoso. Com algum lorde ou duque talvez. John poderia fazê-lo, se quisesse, já que sua ligação com a realeza era tão evidente, parecia estar no seu próprio sangue. Jim Collins ficava cada vez menos a vontade com isso tudo, já faziam muitos anos que não se sentia humilhado assim na presença de alguém. Era milionário e respeitado: os outros que se humilhavam diante dele. Seu cargo de empresário da banda The Jones abria-lhe todas as portas. Se consolava olhando disfarçadamente para os olhos azuis de Megan, que pareciam se escurecer junto com a noite, pensando: "pra abrir essa porta é preciso mais que dinheiro". Olhou pra Ian. Pobre rapaz! Ali estava ele completamente murcho e sem saber como agir. Olhava muito pra Megan, era evidente que estava encantado por ela; mas a promessa que tinha feito o continha. Entraram os dois na limousine. A Mercedes de John estacionou logo atrás. - Se me permite, Mr. Collins, ter o prazer de sua companhia - John apontou para a porta. Jim respondeu com uma inclinação de cabeça e entrou no carro, não sem antes fuzilar Ian com os olhos em uma advertência muda e a recomendação: - Tenham juízo, crianças. - Teremos, fique sossegado. Isso era tudo que Jim Collins não estava naquela noite. Sossegado. A limousine era espaçosa. "Espaçosa demais", pensavam Ian e Megan. Ian era mesmo um homem de palavra. Não abaixou a divisória da limousine, deixando entre eles e o motorista uma cumplicidade incômoda. Sentou-se o mais longe possível de Megan, mas por mais que tentasse, não conseguia deixar de ficar encantado, tentado e enfeitiçado pelo cheiro inocente de lavanda que ela exalava. Lembrava-se de outras noites, com outras modelos em outras limousines, perfumes caríssimos, champagnes e morangos, e nenhum cheiro jamais lhe pareceu tão agradável como aquele. Daria qualquer coisa pra chegar mais perto dela. Mas sabia que não podia. Megan, por seu lado, não sabia bem o que fazer. Muitas vezes, em campanhas e desfiles, ouvia colegas conversando sobre "a noite maravilhosa que tiveram com o vocalista do The Jones", como ele era sedutor, ousado, e ninguém conseguia resistir ao seu charme, por mais que tentasse. E no entanto ele estava ali, calado, evitando até olhar pra ela, procurando qualquer coisa no frigobar, ou dizendo algo para o motorista. Será que ele não gostava dela? Mas então, porque iriam ficar noivos? Megan se lembrava da conversa que tinha tido com John; ele a chamou em seu escritório, coisa que nunca tinha feito. Não se incomodou em dispensar Charlotte, então pelo visto não era coisa de importância, para que ela se retirasse. - Megan, sente-se. - Ok, John, você me chamou? Aconteceu alguma coisa? - Sim, minha querida, aconteceu. Ian Smith me procurou - e nisso John parou para ver o efeito de suas palavras sobre Megan, que não se manifestou - e me disse que está gostando muito de você. - Perdão? - Ian Smith quer pedir a sua mão em casamento, Megan. Ele sabe que eu não admito que faltem com o respeito a você, por isso ele veio me procurar primeiro, e pedir a minha autorização para te conhecer. O que eu preciso saber é se você aceita. Megan achou que não estava ouvindo direito. - Ficar noiva de Ian Smith? E assim, sem mais nem menos? John! Isso não faz o menor sentido! - Sim, eu sei. O noivado é só pra acalmar a imprensa, minha querida. E também servirá pra ele saber que nós não estamos de brincadeira, lembrar a ele que você não é uma qualquer. Por outro lado, vocês também não vão se casar amanhã. Vão apenas se conhecer melhor. O que vai acontecer de verdade, é que você vai vê-lo algumas vezes, e isso é tudo. Depois decidiremos o restante. A ideia te agrada, Megan? Megan olhou aturdida pra Charlotte, que estava sentada em sua escrivaninha muito quieta, debruçada sobre alguns documentos, como se nada daquilo lhe dissesse respeito, e não dizia mesmo. John tamborilou os dedos na mesa, impaciente. Esperava uma resposta. - Bem, se é nesses termos, não vejo m*l algum em conhecê-lo - começou Megan tentando manter-se distante, no que foi interrompida por John, sarcástico: - Mas vejam só a Lady, como se eu não soubesse que você tem todos os discos daquele degenerado, como se até outro dia atrás não estivesse me implorando pra pregar um pôster daqueles imundos no seu quarto, sei, você está bancando a indiferente pra quem, Megan, confesse que você está adorando a coisa! Eu pensei que estava agradando você! Na verdade Megan não estava se sentindo agradada, nem lisonjeada com nada, estava era muito assustada com aquela mudança súbita nas atitudes de John Roth, que sempre a proibiu de ter namorados, ter amigos, só tolerava o pobre do Weslley, e ainda assim só depois de muita insistência dela e da tia Rachel, e mudar de ideia assim, logo por um roqueiro, o tipo de gente que John sempre detestou com todas as suas forças. Como se John lesse os pensamentos dela, continuou: - Sei o que está pensando. Eu não gosto de músicos. Não gosto mesmo. Pra mim, são um bando de inúteis, gente que não sabe o que é trabalho pesado, e nem quer saber, uns irresponsáveis sem compromisso com nada. Mas também estou ciente que Ian Smith é o músico mais famoso e também o mais rico do mundo, hoje em dia. E tenho o respaldo do seu empresário, que me pareceu um homem sensato. Isso tudo faz dele um bom par para você, Megan. Não pense que eu aceitei isso de uma hora pra outra. Pensei muito. Fez uma careta. Depois continuou falando: - Resolvi aceitar pensando em você mesma. Tudo o que eu mais quero é sua felicidade. O que faço, é pelo seu bem. Megan olhou de lado. Charlotte continuava impassível. - Está certo, John, eu aceito. - Muito bem! Essa noite teremos champanhe pra comemorar! - Então Charlotte sorriu. Megan saiu confusa do escritório. Uma jovem de 22 anos que não podia sequer escolher o próprio namorado. Sabia que o apelido dela era "virgem de ferro". Sabia que falavam m*l dela pelas costas. Também sabia que era completamente sozinha no mundo. John e tia Rachel eram sua única família. Tinha visto muitas modelos, conhecidas, caindo nas drogas, engravidando sem querer, sendo usadas e abandonadas pelos homens, até se prostituírem. Via o que a falta de uma família, de cuidados, fazia no mundo em que ela estava inserida, o mundo da moda. Então ela tinha mais era que agradecer a John. Ele era rígido? Sim. Mas a protegia. Cuidava dela. Ela não estava sozinha. E estava ali com Ian na limousine. Aparentemente ele tinha achado algo que lhe agradasse no frigobar, uma cerveja, e bebia em pequenos goles. Ofereceu com um gesto a Megan, que recusou também com um gesto, "é bebida de gente baixa", dizia John. - Miss Lily, se incomoda se eu acender um cigarro? - Por favor, me chame de Megan. E sim, pode acender o cigarro, não me importo. - Obrigado. - Era um Marlboro. - Você fuma? - Não, não fumo. - Claro, que pergunta i****a a minha, claro que você não fuma. Eu também preciso parar, faz m*l para as minhas cordas vocais. Pelo menos o Frank Sinatra morreu fumando e manteve a voz perfeita até o fim. Quem sabe não tenho a mesma sorte - concluiu, soltando uma baforada do cigarro pela janela aberta. - John disse que nenhum cantor de hoje pode se igualar em técnica vocal, ao Frank Sinatra, talvez o Freddie Mercury - arriscou Megan. - É mesmo? - disse Ian, despeitado - E você, miss Lily, o que acha? - Eu acho que você canta muito bem, Ian. Aliás tenho todos os seus discos - e nessa confissão Megan ficou vermelha como um tomate. - Sério mesmo? Puxa vida, me sinto lisonjeado! Eu posso então autografar os seus discos e... - Mr. Smith - interrompeu o motorista - chegamos. A limousine tinha parado. Ian ficou muito desapontado. Agora que estava conseguindo conversar com Megan, e que surpresa maravilhosa, ela gostava do seu trabalho, tinha comprado os seus discos, tinha ouvido sua voz, conhecia suas letras... Aquilo lhe deu mais satisfação do que ter ganho seus nove discos de platina. Ao abrir a porta, Ian sentiu-se ofuscado pelos flashes. Ele tinha certeza absoluta que os flashes estavam danificando suas retinas, e sempre procurava andar de óculos escuros. Mas Jim iria enforcá-lo se ele aparecesse de óculos hoje. Ian desceu, ajustou o smoking, e estendeu a mão para ajudar Megan a descer. Ali ele percebeu como deveria se comportar uma rainha. Perfeitamente indiferente aos flashes, Megan se virava com graça, andava com graça e permitia que os fotógrafos a vissem de todos os ângulos. Nem um fio de seu cabelo parecia desalinhado, o vestido lhe caia como uma segunda pele e o colar de pérolas ressaltava ainda mais os contornos de seu b***o perfeito. Parou ao ver que Ian estava dando alguns autógrafos, mas não parecia estar desaprovando essa atitude. Ao terminar, Ian lhe ofereceu o braço e entraram. Faziam mesmo um belo par, Ian com seus cabelos castanhos caindo nos ombros, o smoking bem cortado, o ar de garoto rebelde, o corpo forte e bem-talhado de praticar esportes. Ian tinha o rosto anguloso, forte e másculo, queimado de sol, que dava um lindo contraste com o rosto branco e meigo de Megan. Os fotógrafos estavam radiantes. Aquele casal seria a capa de todas as revistas ao redor do mundo no dia seguinte, eles estavam certos disso. E não se cansavam de fotografa-los. Ian não estava sentindo nada do frisson ao seu redor, o mundo para ele se concentrava no toque do braço fino de Megan no seu, e da mãozinha delicada dela na sua. Olhando o anelzinho de pérolas no dedinho dela, lembrou-se do anel caríssimo que tinha comprado para o noivado, de safira azul com diamantes, uma cópia do anel da princesa, que estava na moda aqueles dias, guardado no bolso do paletó do smoking. E ia combinar muito com os olhos dela, pensou satisfeito - mas ao olhar para os olhos de Megan teve um choque. Os olhos dela não eram mais azul-escuro - estavam claros como água, quase brancos. O rostinho dela irradiava satisfação. Ele não se lembrava de ter visto uma mulher tão linda quanto ela em toda a sua vida. Sentia um certo atordoamento - e tudo o que sabia naquele instante é que estava irremediavelmente apaixonado por ela.
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