Eu deveria?

2795 Words
 Sarah Montserrat Eu havia dirigido algumas horas até a corte nacional da Província Canadense. Depois de toda minha conversa com Justin há uns dias, fiquei horas fazendo relatórios e repassei cada cena do julgamento. Para a minha ajuda, peguei os trabalhos da Universidade em que  ele estudou. Justin ter assassinado o padrasto não faz sentido. Não com o que ele relatou. Justin teve uma infância saudável, um pouco complicada pelos pais serem separados desde seu nascimento e por ser bem pobre. Justin saiu dos subúrbios de Stratford, mas sua mãe e seu pai (mesmo separados) sempre deram a ele assistência. Frequentou a escola regularmente, nunca teve problema com drogas e sempre se esforçou muito no Colégio para tirar a mãe da situação em que viviam. Mas, apesar de às vezes ter que pedir moedas na rua tocando poucas canções em um violão, ele me garantiu que fora muito feliz em vários quesitos. Tinha amizades fortes, laços inquebráveis com os avós, o pai, mesmo estando em outro casamento nunca deixou de vê-lo. O senhor Jeremy ajudava Justin a estudar, incentivou a começar com aulas de coral na prefeitura da cidade. Daí, Justin se tornou um amante da música. Com a chegada de Nicholas, Justin me falou que sua mãe mudou muito, como seus avós moravam com ele na época que o padrasto chegou, foram obrigados a sair porque o cara era insuportável. A história parou aí. Ele não quis me contar mais nada. Mesmo tendo a história incompleta, criei várias hipóteses. Estacionei o carro em frente o tribunal de justiça e desci do carro, indo até a entrada. Mostrei meu crachá e passei pelas catracas, indo até o elevador. Eu espero que o juiz do caso Bieber ainda esteja aqui. Liguei antes, mas não quiseram informar. Assim que cheguei ao segundo piso fui falar com a recepcionista. — Bom dia — cumprimentei. — Bom dia — ela falou, pela sua voz, soube que foi com ela que eu falei ao telefone. — Eu telefonei para vocês hoje pela manhã, sou Sarah, psicóloga jurídica. Foi o Juiz Connor que me deu indicação para investigar um dos presidiários da penitenciária de Toronto. — Ah, sim, não estava lembrada. Vou comunicar o senhor Connor que você está aqui e já te peço pra entrar. — Obrigada — sorri, indo pegar um copo d’água. O elevador fez um “plim” logo atrás de mim mas não dei importância. Quero dizer, até ouvir a voz totalmente grave pronunciando meu nome com certo divertimento. — Você por aqui, Montserrat? — olhei para Trevor e assenti. — Eu mesma — lhe mostrei um sorriso. Eu poderia simplesmente ficar com vergonha por ter chamado ele pra sair por mensagem, mas eu não sou dessas. Não sinto vergonha por isso. Nem um pouco. — Veio falar com o Connor? — Nikkei passou por mim, atraindo a atenção da secretária. Claro que ele ia atrair olhares, a b***a do cara está sendo abraçada pela calça social escura. Bendita academia, se eu souber onde ele faz exercícios eu irei me matricular com certeza. — Vim… sobre o presidiário da solitária — me sentei em uma das poltronas largas e ele se sentou na minha frente, pegando um jornal de cima da mesinha. — Vim ver se posso fazer parte de um dos julgamentos como teste. Comecei a fazer uma pós em legislação…  — Com certeza você consegue — comentei, dando de ombros. — Você acha mesmo? — Nikkei alisou a barba bem feita. Esse homem exala masculinidade. Não posso compará-lo com Justin, porque os dois são bem diferentes. — Acho — afirmei e logo a secretária me avisou que eu podia entrar — até logo. — Na verdade, a minha conversa vai ser absurdamente rápida. Tem uma cafeteria aqui ao lado, posso te esperar pra tomarmos um expresso. Eu pago. — Cafeína grátis? Aceito sim — levantei-me e fui até a sala do juiz, bati antes de entrar, recebendo um sorriso severo, porém, hospedeiro. Caminhei até a mesa enorme e me sentei em uma das duas poltronas de couro em frente à enorme mesa de madeira, estiquei minha mão e cumprimentei o Juiz Connor, que apertou e fez um aceno para mim dar introdução às minhas palavras.  — Há quase cinco anos atrás o senhor fez o julgamento de Justin Drew Bieber, o caso que ficou na televisão por dias, para ser mais específica caso não se lembre… — ele parece pensar e assente, ainda em dúvida — bom, há quase quatro meses o pai de Justin me procurou para poder entender mais os motivos que levaram o senhor Bieber a assassinar o padrasto. Aceitei o caso e consegui autorização para consultá-lo. De início, achei as palavras do depoimento de Justin muito vagas, então, levei em conta que ele possa ter algum trauma e, também, durante as consultas ele não tem se mostrado agressivo, ele tem um comportamento de se auto—rebaixar, nunca quer falar sobre os motivos que o levaram a fazer isso. Tenho uma forte impressão de que ele foi oprimido por Nicholas e tem um trauma consigo desde então. Não pude distinguir o olhar pensativo do juiz, apenas entreguei minhas anotações (impressas, pois até meu paciente metido a bad boy reclamou da minha letra) e observei cautelosamente. — Não posso fazer muito, a pena é oficial, não posso investigar ainda mais. Respirei fundo. — Eu li todas as leis da constituição federal do país e sei que caso haja alguma falcatrua ou engano na pena de alguém deve-se analisar o caso ou até gerar outro julgamento, senhor. — Eu não posso disponibilizar uma investigação ou gerar outro julgamento sem ter certeza de que algo maior o levou ao assassinato. Determinada, recolhi as minhas coisas com educação e as guardei. — Vou voltar com provas, teremos outro julgamento. — Não sei se posso pegar o caso, senhorita, já está resolvido na corte. — Se não estiver resolvido, leia as leis novamente e faça um círculo no que diz que se tiver um erro na punição de algum sujeito, a corte é obrigada a pagar indenização. Sei que o valor é bem alto. Perdi a paciência e me levantei. Já fiz o cara me odiar, espero que tenha ficado claro que eu sou o ser mais insistente na face da terra. — Até logo, meritíssimo. Saí da sala e respirei fundo, olhando para os papéis nas minhas mãos. Se for pra eu ter outro julgamento vou ter que começar minhas pesquisas desde o início, bem no início dos conflitos entre Justin e Nicholas. O que me leva a uma conclusão certa : Tenho que falar com Patricia Mallette. Distraída com meus pensamentos em um turbilhão, passei pela recepção sem ao menos me despedir da moça que me atendeu e chamei o elevador. — Não me ignora assim que eu fico triste — Nikkei parou ao meu lado — dia difícil? — Não estava quando cheguei, mas agora está — entrei no elevador acompanhada por ele. — Cafeína grátis ainda está de pé? — ele tentou um tom divertido e eu dei risada. — Tenho quinze minutos para a cafeína grátis. Ele sorriu e nós saímos do elevador, indo até a rua. Trevor me encaminhou até a cafeteira e eu sorri fraco ao chegar. Tem umas mesinhas de mármore espalhadas pelo local e uma estufa com doces e salgados. Nos acomodamos nas mesinhas e fizemos nossos pedidos, Trevor olhou para minha mão e torceu a boca. — Então… não é casada? — Não — respondi — já fui, mas passou da hora de me desprender do passado. — Certo, você estava enrolada com o cara? — perguntou mais uma vez. Nikkei está interessado em mim e isso é legal, ele não saiu correndo ainda. — Não mesmo — afirmei. — Isso é bom pra nós… — assim que ele falou isso nossos pedidos chegaram. — Pode ser r**m para você — tomei um longo gole do café, olhando em seus olhos. — Por que seria? — Porque eu tenho uma filha — deixei claro, sem sentir constrangimento ou coisa assim. Eu só me preocupo com o que a Sunshine vai sentir se eu aparecer com alguém, quanto a mim, sou uma mulher adulta e tenho estabilidade. Estou aprendendo a esquecer as coisas que Chaz me tirou. A conversa com Justin me fez abrir os olhos. — Você tem uma pinta de mãe — falou, tomando um pouco de café — sabe… seu quadril é largo… mas você não é gorda, você olha no relógio sem perceber, é objetiva e valoriza os compromissos. Gosto de mulheres assim. Eu ia perguntar “Você não se importa de eu ter uma filha?”, mas é óbvio que ele não se importou, ele gosta de mulheres como eu, isso me deixou feliz, fiquei feliz em saber que eu passo essa imagem. — Quero sair com você um sábado à noite, quero conhecer sua filha também, ela gosta de Mc Donald’s? Eu queria não estar sorrindo igual uma i****a. — Gosta — afirmei — só vou deixar dessa vez porque ela só come fast food uma vez por semana. Nikkei sorriu. — Já se passaram vinte minutos — me lembrou, batendo no pulso com divertimento. — Para você eu abro uma exceção, mas não se acostuma, minha agenda é lotada — terminei o café — preciso ir. — Presídio? — Clínica — deixei o dinheiro do café na mesa e ele me devolveu. — Cafeína grátis — Nikkei se levantou e me deu um beijo na bochecha — bom trabalho. — Para você também — sorri e peguei minha bolsa, indo até o carro.  (...) — Aqui está — minha ajudante da clínica me entregou um número de telefone residencial — o senhor Jeremy falou que é um número muito velho, disse que guardou na agenda por acaso. — Obrigada, Kimberley, vou tentar ligar — falei, dando uma garfada na minha salada, me ajeitando na cadeira da cozinha da clínica. Assim que cheguei, pedi para Kimberley ligar para o senhor Jeremy Bieber e pedir em meu nome, o número de telefone ou endereço da senhora Mallette. Espero que esse número esteja correto. Como eu estou no meu horário de almoço, aproveito para ir até a entrada da clínica e ligar no número anotado no bloquinho ( horário de almoço às duas da tarde, pois hoje estava bem corrido). Digitei o número e caiu na caixa postal nas três tentativas, na quarta tentativa uma voz irritada atendeu. — Alô?! Mas que diabos você quer!? Vai ser mais difícil do que eu imaginei. — Oi, Boa tarde, Patricia Mallette está? — É ela, p***a, fala o que quer — a moça parece totalmente embriagada.  Será que ela foi assim com Justin? Se foi, meu Deus, o trauma veio dela, ela parece ser pior que a minha mãe. — Sou Sarah, psicóloga jurídica do seu filho… — como ela não falou nada, argumentei — do Justin… — Eu sei o nome daquele merda. E não estou interessada em falar com uma garota de merda como você, vai pro inferno, vagabunda! Vagabunda! Vagabunda! — Patricia ficou gritando ao telefone, até uma voz rude atravessar a linha com um “Que Diabos, filha, me dê isso aqui!”. Logo, a mesma voz tomou conta da linha — pois não? — Ah… o senhor é parente da senhora Mallette? — Sou pai dela — havia decepção pura em sua voz — quem gostaria? — Sarah — cocei os olhos, olhando no relógio — Sou psicóloga jurídica do Justin Bieber. Precisava falar com vocês. — Jeremy comentou sobre você há um mês vagamente pelo telefone. Como posso te ajudar? Obrigada Deus, muito obrigada. — Preciso de algumas informações, poderia me passar seu endereço? — Olha, eu acho melhor não, a minha filha está… — ele não completou a frase, entendi o recado. — Certo, certo… vou lhe passar o endereço da clínica em que trabalho, se o senhor quiser vir é só me telefonar neste mesmo número antes para eu colocar na minha agenda. Passei o endereço e encerrei a chamada, indo até o consultório.   (...) Madeline deixou a Sun na minha cama, pois minha filha estava quase transbordando de tanta fofura pra dormir comigo. Nós nos ajeitamos na cama e eu a cobri, dando a chupeta. — Logo nós vamos tirar essa chupeta, seus dentinhos podem ficar tortos — falei, analisando seu rosto perfeito. Seja lá quem for o pai da Sun, tem esperma de ouro. Eu poderia passar horas olhando minha filha, faço isso quando perco o sono. Sun tem os olhos bem escuros, o cabelo é um castanho super brilhoso que formam cachos nas pontas. Suas bochechas são enormes, anda rebolando por conta do tamanho do bumbum e tem um sorrisão perfeito. Acho que os poucos cachos ela herdou de mim… talvez o jeito de falar mexendo as mãos também seja de minha parte. Eu amo essa menina demais. Havia um tempo que eu não falava sério com ela, aproveitando que ela está acordada, perguntei: — Você gostaria que a mamãe tivesse um amigo? Sunshine assentiu, prestando muita atenção em mim. — Olha, ele poderia vir em casa? Você deixaria? — Só se você deixar — Sun tirou a chupeta para falar. — Gostaria de passear com a mamãe e com o amigo? — fiz carinho nos seus fios. — Só se ele me comprasse sorvete — nem um pouco oportunista. Isso ela não herdou de mim. — Certo — beijei sua testa e ela sorriu para mim.  Depois que Sun dormiu, peguei meu celular e escrevi para Trevor. “Minha filha quer que eu tenha um amigo que de sorvetes à ela” Depois de uns cinco minutos ele respondeu: “Amanhã é sábado? Me passa seu endereço que eu levo um carrinho de sorvetes aí!!” Dei risada e passei o endereço, duvidando de suas palavras. “Boa noite, Sarah” Antes de desligar o celular, respondi : “Durma bem, Nikkei”                                   Justin Bieber A noite estava fria. Nunca senti tanto frio na prisão como estou sentindo hoje. Com muito custo, levantei da cama. Bati na porta de ferro com força, pois, se tivesse algum guarda ali iria ouvir e viria ver o que estava acontecendo. Assim foi feito, um dos guardas noturnos abriu a cela reticente e me olhou. Travei a mandíbula, suspirando. — Algum problema? — Me traga outro cobertor, estou congelando nessa merda — reclamei. — Venha comigo pegar o seu, preciso ver se na prateleira dos detentos da solitária tem cobertores. O guarda passou as algemas nos meus pulsos e me puxou pra fora, dei um tranco com o corpo e ele me olhou assustado. — Eu sei andar, o****o — continuei caminhando, vendo alguns dos detentos comendo. Desde que o fiscal apareceu aqui com a Sarah, a comida melhorou muito. A higiene dos banheiros também. Ouvi dizer que colocaram chuveiro novos e abasteceram o estoque de sabonete. Não tive a oportunidade de ver como está, ainda estou tomando banho na minha cela, almoçando e jantando também. Chegamos na sala do depósito e o babaca abriu a porta. Mas assim que ele entrou, algo atingiu sua cabeça e alguém o segurou enquanto caía, para não fazer barulho. — Tony? — sussurrei, era o cara do tráfico de crianças. — Merda, Bieber, com você socado naquela cúpula eu ao menos consegui avisar. Estamos em fuga — ele sussurrou — vai encarar? — Como vai ser? — deixei a curiosidade falar por mim. — O Yale não tá aqui hoje, um dos policiais aceitou suborno pra ficar com a boca fechada e nos ajudar. Consegui sair da minha cela com a ajuda dele… aqui no depósito tem algumas chaves perdidas e umas ferramentas pesadas. Vamos sair por trás da cozinha logo quando amanhecer. O portão abre aos sábados de manhã pro caminhão de lixo entrar. Meu coração disparou. Eu teria uma chance e tanta de sair de lá! Mas e se desse merda? E se a Sarah ficasse desapontada? Não tem porquê eu estar questionando isso. Ir ou não ir?  Estou em dúvida. — Vai encarar? — Tony perguntou, me passando uma ferramenta após soltar minhas mãos — logo de manhã, cara… — deu ênfase — Vou distribuir as chaves no setor, vai ser algo grande. Olhei para os cobertores e olhei pro Tony, suspirando. Meu pai ficaria desapontado se eu fugisse. Mas eu aguentaria mais vinte anos aqui? — Se decide e me fala o mais rápido possível — meu colega saiu do depósito e eu cocei a cabeça. Eu farei o que é melhor para mim.
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