Sobre ela

3758 Words
Sarah Montserrat   Sunshine reclamou tanto por eu ter chegado tarde na terça-feira que eu tive que prometer leva-la até o shopping no sábado, com direito à compras e cinema, com o filme de sua escolha.   Aqui estamos, assistindo uma porção de Minions gritando “banana”.   Minha garota está rindo tão alto que eu tenho que mandá-la se calar umas cinco vezes.   — É divertido, mamãe, eu amo os Minions — quem riu agora foi eu, pelo jeito que ela proferiu as palavras. As bochechas cheias de pipoca doce com calda de caramelo e suco de caixinha fizeram suas palavras parecerem resmungos de bebês zangados.   — Você ama o que? — brinquei, achando sua voz mais fofa que o normal.   — Minions — repetiu.   Prendi o riso ao extremo, negando com a cabeça.   — Certo, princesa, agora assista — murmurei, sentindo o celular vibrar na bolsa. Retirei da mesma, abaixando o brilho.   Ri descrente, mas ao mesmo tempo, um pingo de interesse surgiu em mim.   Será que devo considerar as palavras de Madeline? Do tipo… “Já passou a hora de superar”.   Abri a mensagem, reticente.   “Boa noite” — Li a mensagem de Nikkei, pensando em não responder agora.   Assim fiz, guardei o celular e beijei a cabeça da minha menina, estou aqui com ela, sem distrações agora.   Quero dizer, sem distrações externas, pois meu pensamento se voltou no acontecimento do início da semana: o beijo mais gostoso que já provei nesses últimos anos.   Meu paciente fez um trabalho ótimo com a língua, pra falar a verdade, parece ser ótimo com o corpo todo.   Eu me aliviei aquela noite, me senti uma i****a por estar imaginando Justin Bieber me pegando de jeito mais uma vez, mas foi meio impossível não me sentir tentada.   Porém, eu sei meus limites e sou adulta. Sei que se isso ocorrer de novo posso perder o meu emprego e a fortuna que eu estou para receber de Jeremy Bieber vai para o rio abaixo — não estou fazendo tudo isso pelo dinheiro, mas como a quantia que estou recebendo por mês é ótima, posso manter minha casa, minha filha e a mim. Está tudo nos conformes, não vai ser um beijo que vai mudar isso.   Mandei uma mensagem para Madeline após sairmos da sessão. Sun está no meu colo, reclamando de sono e muita fome.   — Você acabou de comer pipoca — olhei para ela, vendo seus olhos encherem de lágrimas — pode ir parando, Sunshine, já fizemos tudo que você queria. Cinema, compras, doces e refrigerante.   — Mas faltou só uma coisa, mãe — ela bufou baixo, ficando séria e com os braços cruzados abaixo do peito.   — Não faltou nada, Sun, nada.   E, então, Sunshine começou a chorar.   — Céus, o que foi? — a coloquei no chão e me inclinei para baixo, olhando em seus olhos.   — Você não fica comigo, mãe — cruzei o cenho, sem entender uma só palavra, indo para o canto da parede. Não dá pra dar bronca numa criança no caminho até a escada rolante.   — Não estou entendendo, Sunshine — falei, com a voz rude.   Ela repetiu um pouco mais nítido.   — Estamos num passeio agora, não estamos? Como eu não fico com você?   Ela secou os olhos e bateu os pés no chão.   — Todo dia você só trabalha, trabalha, trabalha!   — Eu preciso colocar comida em casa, te dar roupinhas e brinquedos, não preciso? Essa semana a minha agenda estava cheia, Sun, não tinha como eu chegar cedinho como nos outros dias!   — Mas se eu tivesse um pai você ia passar mais tempo comigo!   Certo, eu entendi perfeitamente o que ela falou. Sunshine nunca reclamou disso antes, ela ainda é muito pequena pra falar isso.   — Sun… — peguei ela no colo e respirei fundo — algumas pessoas não tem mamãe, outras não tem papai.   — Mas eu quero um papai, mãe, e uma mamãe e irmãozinhos e um cachorro. Não só uma mamãe e a tia Madeline.   Encostei meus lábios na testa da minha filha e suspirei pesado.   — Quero uma família igual a da Margô, da Agnes… igual a do Gru — ela cruzou os braços e eu apoiei seu rosto no meu peito.   — Desculpa, Sunshine, mas não posso te dar isso e não adianta fazer birra no Shopping nem gritar, não posso dar isso a você. Sua família sou só eu, Sun, tem muitas crianças que queriam ter uma mãe.   Minha filha ficou quieta e deitou a cabeça em mim.   Não imaginei que um filme fosse transtornar a cabeça da minha pequena. E, bom, não só a dela, a minha também.     (...)     — Vim assim que você a mandou mensagem com a palavra “urgente”, o que foi? — Madeline entrou em casa, disparando as palavras.   — Minha filha decidiu que quer um pai.   Madeline me olhou e então, começou a rir.   — Qual a graça, Madeline?   Depois de dois minutos rindo da minha cara, minha amiga se recompôs e passou a mão pelos cantinhos dos olhos, limpando algumas lágrimas.   — É óbvio que ela quer um pai. Ela vê nos programas de televisão crianças com os pais, na rua, em livros infantis. Não entendi o por quê do seu desespero, Sah. É até um super sinal de que você deve sair com alguém.   — Não, não é um sinal, isso não é bom para a saúde mental da Sunshine, Mad!   Minha amiga cruzou os braços.   — Há quanto tempo você não transa?   — Que tipo de pergunta é essa? — bufei entre as palavras — isso não vem ao caso agora. Minha filha de quatro anos praticamente soletrou que eu não sou boa o suficiente.   Decepcionada, sentei-me no sofá, vendo Sunshine em seu canto favorito da sala, com seu colchão velho — que ela usa para fazer as camas das bonecas — dormindo.   — Você é ótima, ela só está curiosa, assistiu sei lá o que é viu que família transmite felicidade, você precisa mostrar através de algo que ela goste que ela já tem a própria família.   Absorvi suas palavras e passei a mão nos meus fios.   — Ou então você arranja um namorado para ser espelho de pai para sua menina — sugeriu.   Balancei a cabeça em negação.   — É por isso que eu evito sair com os caras! Se eu falar que sou mãe solteira não vai pegar bem, não é legal e a Sun pode se apegar demais em alguém que não quer algo sério.   — Comece devagar, pense bem, você precisa de alguém.   A imagem de Charles entrando por esta porta dominou um segundo da minha mente.   — O Somers não vai voltar mais, Sasah, não vai — ela se sentou ao meu lado e tirou a aliança do meu dedo — é hora de procurar um outro alguém. Milhares de caras ficariam com você, você é linda, inteligente, trabalhadora, prestativa, carinhosa, persistente… se eu fosse homem eu juro que ia ser seu próximo marido.   Coloquei meu cabelo atrás da orelha, secando os olhos.   — Só quero o melhor pra ela — apontei para a Sun, sorrindo de lado — quero que ela seja feliz.   — Ela é — Madeline afirmou — ela é muito feliz.   Depois de uns minutos conversando, minha melhor amiga teve que ir embora e eu dei a ela o dinheiro por ficar com a Sun a semana toda. Mesmo ela não querendo, uma criança é difícil de se cuidar.   Assim que ela saiu eu peguei meu celular e entrei na caixa de entrada, clicando na primeira mensagem da lista, que chegou há horas atrás quando eu estava no cinema.   “Boa noite, Nikkei” — respondi, casualmente.   “Posso considerar isso um avanço?” — ele não demorou nem um minuto para me responder, me fazendo rir baixo.   Peguei Sunshine do meio de seus brinquedos e a levei até a cama, indo preparar sua mamadeira. Sun não pode dormir sem mamar, ela acorda de madrugada morrendo de fome.   “Pode considerar como um espaço para a sua amizade”   Sentei na cama e acordei Sunshine cuidadosamente, entregando a mamadeira.   “ Desde aquele dia que nos vimos na corte, lembra? Há uns três meses atrás? Te achei uma gata, mas você está mais para dragão”   Dei uma risada meio alta e observei a gula da minha filha, beijando a testa dela e as bochechas.   “Não sou tão feia”   Ele respondeu em seguida:   “Não falei que você é feia, falei que sua personalidade parece a de um dragão”   Ainda rindo, digitei rapidamente:   “Ainda quer sair comigo?”   Foi um avanço da minha parte. Meu Deus, eu estou querendo sair com um cara depois de anos.   A questão “e se o Charles voltar?” ronda na minha cabeça, me causando enjoo. Olho o celular, afim de eliminar a pergunta estúpida.   “Você é casada? Desculpa, mas eu lembrei da sua aliança”   Mordi o lábio com certa força, me remoendo.   Mas que diabos! Por que eu tenho que colocar isso no dedo? Estraguei tudo.   “Na verdade, Trevor, é uma longa história, mas não sou casada”   A sensação de me desprender do Somers correu pelas minhas veias. Relaxei meus músculos e massageei minhas têmporas. Foi um longo sábado com essa bonequinha e com meus pensamentos em um turbilhão.   “Isso é bom, mas eu quero ouvir a história”   Depois de ajeitar Sun em seu quarto, fui até minha cama e coloquei o celular para carregar, deixando uma mensagem para Trevor.   “Não vai ser no primeiro encontro que você vai ouvir”   Imediatamente, os três pontinhos que informam que Nikkei estava digitando apareceram, então, esperei pela mensagem.   “Isso quer dizer que você quer sair comigo mais de uma vez??????”   Ri de suas interrogações e respondi na mesma hora:   “Claro, à menos que você não queira”   “Como eu quero, Montserrat”   Espero que eu não me arrependa de aceitar nosso possível encontro.    (...)   Justin Bieber     Minha mão está doendo demais. Estou me estranhando muito.   Três punhetas seguidas é um tipo de recorde pra mim.   A primeira foi imaginando a psicóloga de quatro na enfermaria. Ela gritava bem alto contra o vidro enquanto eu a comia, temendo que alguém nos pegasse.   A segunda, Sarah estava na minha cela montando em mim. Eu chupava seus s***s enquanto ela mexia o quadril para todos os lados, dominando tudo, gozando em mim umas quinze vezes.   A terceira foi um boquete fenomenal na sala do Jeffrey Harlem — a do Yale atualmente. Sarah me envolvia com os lábios perfeitos e me chupava com a boca carnuda que só ela tem.   Depois de engolir toda a minha p***a, ela ficava em pé e me beijava, igual ao nosso beijo na enfermaria.   Foram as melhores punhetas desde que entrei nessa merda de prisão. Sarah me deixou louco com aquele beijo.   Ela é uma safada. Quero ver aquela mulher e t*****r até desidratar, f***r e f***r.   Eu já estava na seca… mas agora, p**a merda, eu preciso entrar na b***a, na v****a, na boca, entre os pés, entre as coxas, qualquer lugar.   É só eu pensar na Sarah que meu p*u se mexe. Chega a doer.   — Merda… — resmunguei ao ouvir barulho no ferrolho e, logo a porta e a cela foram abertas. Sarah entrou com sua bolsa costumeira, sapatilhas, calça jeans e smoking. Montgomery bateu a porta de ferro e as luzes acenderam.   Sarah, por sua vez, abriu um sorriso e deixou as coisas em cima da minha cama.   — Está melhor? — questionou.   — Estou sim — sorri com malícia, olhando meu p*u — os ferimentos não doem tanto e finalmente estão me dando comida.   — Que bom — ela sorriu, mas não com malícia. Notei a ausência da aliança e decidi que tínhamos que ter logo essa conversa.   Estou pensativo desde o dia que eu a abracei.   — O que seu marido fez com você? O que ele faz? — ela se assustou com as perguntas.   — Que tipo de perguntas são essas?   Levantei-me, rapidamente, olhando em seus olhos.   — É o tipo de pergunta que eu precisava fazer. Não questionei antes, mas se você é realmente casada, deve gostar de pular a cerca…   Sarah ficou paralisada. Claro que ela ficaria.   A mulher tem um homem e beija um presidiário, não faz sentido ela trair o cara, pois seu argumento pra tudo é o de que é casada.   — Sou casada — insistiu e eu ri — mas não pulo a cerca.   — É uma relação aberta? — eu estou adorando deixar ela assim, ver seu peito subir e descer com constrangimento e confusão — em? — insisti.   — Não, não é aberta — com os punhos fechados, Sarah foi pegar a bolsa e eu ri.   — Eu acho que você veio aqui para uma consulta, não é? Para socializar comigo… Doutora, meu pai ia ficar insatisfeito se você ficasse fugindo sempre que eu te digo o que penso.   A ironia transborda pelos meus lábios como uma cachoeira. Sarah absorve tudo, parecendo calcular as palavras.   — O que quer saber de mim? — um vazio estranho ecoou em sua voz, como se ela estivesse muito amargurada.   — O que te aflige? — perguntei, realmente interessado.   Sarah é forte, dá para ver que é determinada, culta e inteligente. Mas aquele dia, o abraço que dei nela que a fez correr daqui me intrigou.   Algo acontece em sua vida, e eu estou interessado em saber.   A moça em minha frente se sentou na cama e abaixou a cabeça. De repente, a mulher forte se assemelhou a uma garotinha de três anos que perdeu os pais no supermercado.   — Por que você quer saber disso, Justin? — seus olhos ergueram e encontraram os meus. Não me deixei levar pela cara de tristeza que ela exibiu.   Quero saber mais sobre essa mulher.   — Porque eu abracei você… e você desmoronou nos meus braços.   Sarah digeriu minhas palavras e engoliu em seco.   — Você não precisa saber daquilo.   — Eu respondo tudo que você quiser — propus, mesmo sabendo que se eu for responder alguma coisa, a maioria delas serão mentira.   — Não precisa saber da minha vida! — percebi que ele se controla ao máximo, mas suas mãos tremem demais — estamos aqui para ajudar você.   — Quer me ajudar e não quer se ajudar? Anda, Sarah, me conta.   Sentei-me ao seu lado e olhei em seus olhos, percebendo as cores mescladas dos mesmos. Tive impressão de ser castanho há uns dias, mas, olhando bem, percebo ser um verde bem escuro. Como uma folha seca.   Ficamos por cinco minutos assim, até que ela resolve falar.   — Não sei se sou casada — um sussurro mórbido deslizou pelos seus lábios.   Eu quis perguntar se ela está passando por uma situação de relacionamento difícil, mas, sou um bom ouvinte e sei quando alguém quer falar mais. Então, fiquei quieto.   — Eu… eu estava com dezoito anos e… conheci o Charles. Na verdade, minha mãe me apresentou ele, Charles era filho de uma família podre de rica, pai formado em Medicina com mestrado e doutorado de direito… a mãe era formada em letras e pedagogia, parece simples, mas a Senhora Somers era formada em Harvard e dava aula nas melhores faculdades da América do Norte. Fomos empurrados a nos conhecer, e, o plano dos meus pais deu certo, quero dizer, da minha mãe, pois meu pai não apoiava nada do que ela estava fazendo.   Curioso, deixei-me perguntar:   — Seu pai não apoiava e deixou? Tipo… ele deixou você ser empurrada para uma relação?   — Ele deixou porque ficava a maioria do tempo deitado numa cama, vegetando. Meu pai costumava mais AVCs do que o limite para um senhor de cinquenta anos.   — Ele se curou? — fiz essa pergunta estúpida e me arrependi no segundo em que vi a expressão em seu rosto bonito.   — Ele morreu — uma lágrima caiu de seus olhos, depois, outras acompanharam — E por mais que eu negue foi por minha culpa.   Tremi por dentro. Não consigo imaginar Sarah fazendo m*l para alguém. Muito menos para o pai.   — O que aconteceu? — questionei.   — Depois que eu e Chaz nos conhecemos, nos casamos em seis meses no Civil. Foi uma cerimônia linda, mas ele não tinha uma família religiosa para fazer algo numa igreja. Nos próximos meses foram apenas alegrias e amor, eu o amei de verdade, não sei se foi recíproco… — cabisbaixa, ela continuou a falar — eu estava com dezenove na época, no primeiro ano da faculdade de psicologia… depois de um tempo, ficamos desgastados. Eu fazia de tudo para ficar bem e manter uma relação boa, mas ele começou a chegar muito tarde da promotoria em que trabalhava — Sim! Ele era um promotor de bebidas que continham o próprio nome e o da família — Sarah falou, como se eu quisesse saber o que o marido/ex marido fazia da vida — Ele não me procurava mais para t*****r, nem me beijava. Madeline, minha melhor amiga, contou-me que isso tinha cheiro de traição. Fiquei mais uns meses com ele — vê-la soluçar me deixou sem chão, me senti obrigado a secar seu rosto, pois parece que o que está por vir é ainda mais doloroso para ela — Somers saiu uma noite falando que ia viajar. Mas sem nenhuma mala. Acho que ele queria que eu o visse indo para um motel com outra. Eu o segui. Peguei no flagra. Mas eu fui b***a e… e fiz uma merda bem grande.   Fiz esforço pra entender o que Sarah falou, mas senti que eu estava pressionando-a demais.   — Não precisa falar mais — mantive uma distância considerável.   — Vou falar — Sarah se distanciou mais, como se estivesse com vergonha — quis me vingar… voltei pra casa e saí de madrugada. Meus amigos veteranos estavam numa festa dos calouros, me enfiei na festa como uma p**a. Roupa curta, saltos e muita maquiagem. Fiquei com um e transei, com outro e transei, com outro e com outro e nem sei quantos… não foi sexo grupal, pelo menos disso eu me recordo — um sorriso triste brotou levemente em seu rosto — nunca bebi tanto, fumei como uma louca. Madeline estava comigo desde sempre, ela falou que eu era nova demais para estar casada um dia antes da cerimônia… não me importei. Me casei, fui traída, fiz sexo em todos os lugares, fumei até desmaiar. No dia seguinte, Charles ouviu boatos do meu showzinho de vingança. Mas não falou nada para os nossos pais, ele também havia errado.   Uma longa pausa se faz presente. Não vou negar, estou chocado.   — Reatamos pelos nossos pais, mas na semana seguinte eu descobri que estava grávida. Não sabia de quem, não usei camisinha, não me lembro de nada. Chaz foi embora, pois ele sabia bem que não tinha como ser o pai se a gente nem fazia. Mas… ele não foi embora, somente. Somers fez questão de espalhar para o mundo. Minha mãe me odiou no instante que soube, ela perdeu a vida de rica. Meu pai teve um infarto com a notícia, ficou no hospital em estado grave, já não estava muito bem e… — suspirou pesado — faleceu.   — Ele já estava doente, Sarah… não foi sua gravidez que fez seu pai morrer — dei minha opinião.   — Foi um impulso… minha mãe jogou isso na minha cara por tanto tempo…   — Eu sinto muito — falei — mas e o tal do Charles? Ele voltou?   — Não — outra pausa — Eu imagino o Charles me aceitando de volta, às vezes acho que minha vida pode se endireitar com ele junto a mim e que a minha mãe pode parar de odiar a Sunshine.   Admirado com a história, coloquei a mão no meu queixo.   — Você teve a bebê? — perguntei, indignado.   — Ela é a melhor parte de mim… — tremendo, Sarah olhou para as mãos — eu me sinto muito presa ao Charles porquê… porque ele devastou minha vida com aquela traição e se ele voltar eu talvez possa reconstruir mais uma vez.   — Ele pode te destruir mais uma vez — argumentei, como um aviso.   — Ele pode ser um pai para a minha filha.   Ela é mãe. p**a merda.   — Então você usa aliança porque te faz sentir próxima da sua mãe?   — Mais ou menos — ela secou os olhos — talvez eu tenha que sair com outras pessoas… mas a Sun pode se apegar demais a alguém e… acabar machucada depois se não der certo, e…   — Quantos anos ela tem? — cortei suas palavras.   — Quatro anos.   — Você a criou sozinha sem apoio de ninguém e se formou? — confesso que estou admirado.   A mulher é traída, engravida de não sei quem, perde o pai e a mãe passa a ignorar e, mesmo assim teve o bebê e se formou.   — Tive que parar a faculdade por dois anos, mas depois eu voltei a estudar… minha amiga sempre me ajudou muito. Madeline também teve uma vida difícil e embora ela tenha a minha idade, tem um amor platônico por ser babá e minha conselheira — Sarah pareceu mais confortável, aproveitei para me aproximar dela e olhar em seus olhos.   — Por que não abortou?   — Porque eu sei das minhas responsabilidades… a Sunshine veio em uma hora r**m, mas me mudou demais. Eu a amo e nunca pensei em abortar, nem quando descobri sobre a gravidez. Meu pai sempre me ensinou a arcar com as consequências.   Sorri por dentro e mordi meu lábio, sem palavras.   Eu admiro essa mulher, muito, ela é muito forte, mais do que imaginei.   — Sarah?   — Sim?   Respirei fundo e segurei sua mão.   — Quer saber sobre a minha infância? É um começo, não é?   Ela sorriu e assentiu.   — Pode começar a falar — disse, mais animada.   Encostei na parede e olhei para ela, começando a contar tudo sobre a minha infância e meus sonhos.   Mesmo antes de ser preso, eu nunca tinha falado sobre quando era criança para ninguém, não é uma história triste, mas não é tão feliz.   Sarah me ouviu e me fez sentir importante naquela tarde.   Eu a admirei muito mais por isso.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD