A Primeira Ruína

1476 Words
O sol m*l tinha subido quando acordei com um barulho que não consegui identificar de imediato. A casa estava silenciosa, mas havia um som distante, metálico, algo que parecia deslocado da rotina. Por um instante, achei que fosse Bianca, talvez assustada outra vez. Mas, antes que eu pudesse levantar, ouvi a porta da frente abrir. Arthur não deveria voltar antes de dois dias. Meu corpo inteiro congelou. Levantei devagar, prendendo a respiração enquanto descia as escadas. Cada passo parecia ecoar demais, como se a casa estivesse denunciando minha presença. Quando virei o corredor, lá estava ele, parado na sala, tirando as luvas como se estivesse voltando de uma caminhada casual. — Você… voltou cedo — falei, tentando controlar o tremor na voz. Arthur ergueu o olhar para mim e sorriu daquele jeito calculado, polido, impecável. Um sorriso que não alcançava os olhos. — Saudade — respondeu, se aproximando com passos lentos, firmes, precisos. — Por isso voltei. Eu sabia que era mentira. Arthur nunca voltava por saudade. Ele voltava por controle. — Pensei que tivesse reunião hoje — digo, fazendo força para parecer natural. — Cancelei — respondeu, tocando meu rosto com os dedos frios. — Nada mais importante do que você. Aquilo soava bonito, mas pesava como grilhões. Antes que eu pudesse dizer algo, ouvi um barulho vindo do corredor do quarto de hóspedes. Bianca. Arthur também ouviu. Seu olhar percorreu a casa como se avaliasse o território que ele sempre acreditou possuir. — Sua irmã ainda está aqui? — perguntou, sem esconder o desagrado. — Ela precisava de mim — respondi. Ele inclinou a cabeça, analisando minha resposta como se fosse um relatório. — Precisa… ou está atrapalhando? — Arthur… — Ela sempre atrapalha, Damiana. Sempre foi assim. A forma como disse “sempre” me atravessou. Não era comentário. Era acusação. — Ela está fragilizada — falei, firme. — E eu não vou abandoná-la. Arthur sorriu novamente, daquela forma que fazia minha pele reagir de forma involuntária. — Você continua doce demais. E isso te torna vulnerável. Antes que eu pudesse responder, Bianca apareceu no corredor. Ela congelou ao ver Arthur. Ele nem disfarçou o sorriso satisfeito. — Bianca — disse, como se fosse um anfitrião cordial. — Que surpresa ver você tão cedo. Ela não respondeu. Apenas segurou a maçaneta da porta como se aquilo fosse a única âncora que a impedia de desmoronar. — Está bem? — perguntei. Ela assentiu, mas seus olhos diziam o contrário. Arthur caminhou até ela, não rápido, mas com a lentidão de quem quer que cada passo seja sentido. — Você parece nervosa — disse, segurando o queixo dela com delicadeza forçada. — Não precisa ter medo. Não aqui. Bianca estremeceu. Eu dei um passo à frente. — Arthur, larga ela. Ele soltou, como se tivesse feito apenas um gesto trivial. — Vocês duas são tão sensíveis. É impressionante. Bianca respirou fundo e desceu as escadas apressada, como se fugir da presença dele fosse uma necessidade física. Arthur se virou para mim. — O que você anda dizendo a ela, Damiana? — Nada. — Nada? — Ela está assustada. — Imagine por quê. A ameaça velada estava lá, escondida entre as palavras. Quase imperceptível. Quase. Cerca de uma hora depois, Bianca bateu na porta do meu quarto. Tinha os olhos vermelhos, a respiração curta. — Eu vou embora — disse, apreensiva. — Agora. — Bianca, espera. — Não. Não posso. — Ele falou algo? — Ele… só me olhou. E eu… — Bianca passou a mão pelo rosto — você não entende, Dami. Ele não precisa falar nada. Eu entendia. — Bianca, você não vai sair assim. — Eu vou. — Ele não manda em você. — Não é ele. Sou eu. Eu… eu fiz algo errado. Fiz muito errado. Meu coração afundou. — O que você fez? Ela balançou a cabeça, chorando. — Se eu disser, tudo desmorona. Tudo. — Já está desmoronando, Bianca. — Eu preciso ir embora! — Ele te ameaçou? — Ele não precisa ameaçar! É isso que você não entende! Ela agarrou minha mão com força. — Dami… por favor… não fala com ele. Não pergunta nada. Não cutuca nada. Finge que está tudo bem. Se você mexer nisso agora… o estrago vai ser maior do que você imagina. E então, num sussurro quebrado, ela completou: — Ele sabe algo sobre você. Sobre nós. Sobre nossa família. Minha pele inteira se arrepiou. — O que ele sabe? — Eu não posso contar. — Você tem que contar! — Não posso! Não posso! Ela pegou a bolsa e correu em direção à porta. Eu fui atrás, tentando segurá-la. — Bianca! — Me deixa ir! A porta bateu atrás dela com força. E, com aquele estrondo, eu senti que algo dentro de mim tinha quebrado também. Quando voltei para a sala, Arthur estava sentado no sofá, analisando um jornal como se nada ao redor existisse. Como se a explosão emocional que acabara de acontecer fosse apenas uma brisa incômoda. — Sua irmã é um desastre ambulante — disse sem levantar os olhos. — O que você fez com ela? — perguntei, tentando controlar a raiva. Ele ergueu o olhar devagar. — Eu? Nada. — Bianca saiu daqui apavorada. — Ela sempre foi dramática. — Ela estava com medo. — De mim? Fiquei em silêncio. Arthur sorriu, satisfeito. — Você está começando a duvidar de mim, Damiana. Isso é perigoso. — Perigoso pra quem? — Para nós dois. Ele se levantou, caminhando até mim com aquela calma que sempre antecedia algo pior. — Eu preciso que você esteja do meu lado. Sempre. — Estou. — Não parece. Ele tocou minha cintura. — Ultimamente, você anda… distante. Engoli seco. — É muita coisa acontecendo, Arthur. Bianca… — Bianca só atrapalha. — Ela é minha irmã. — E eu sou seu marido. Esse é o laço que importa. Ele disse isso como quem dita uma regra universal, imutável. — Você está tentando controlar tudo — respondi, firme. — Estou tentando proteger o que é meu. A forma como ele disse “meu” me fez estremecer. — Inclusive você. — Não sou propriedade sua. Arthur riu baixo. — Damiana… Ele segurou meu rosto com as duas mãos. — Você não faz ideia do que eu já fiz por nós dois. Do que eu faço todos os dias. — Como assim? — Eu mantenho tudo funcionando. A empresa, a casa, sua família instável, sua irmã problemática, suas inseguranças… Cada palavra era uma facada fria. — E o que eu recebo em troca? — perguntou ele. — Suspeitas? Silêncios? Distâncias? Eu não consegui responder. Arthur se aproximou ainda mais, seu fôlego tocando minha pele. — Eu conheço você melhor do que você pensa. E sei que está escondendo algo. A frase me atravessou como um golpe. — Eu não estou escondendo nada. — Está sim. Ele levou a mão ao meu abdômen. — Seu corpo está diferente. Meu coração perdeu o compasso. — Diferente como? — perguntei, com a voz fraca. — Você anda cansada. Pálida. Com náuseas. Sua respiração mudou. Sua rotina mudou. Ele sorriu, sem humor, apenas cálculo. — Achei que você tivesse percebido. Minhas mãos tremeram. — Percebido… o quê? Ele aproximou os lábios do meu ouvido e sussurrou: — Você está grávida, Damiana. Meu mundo parou. Não consegui respirar. Não consegui falar. Ele se afastou devagar, apreciando minha reação como quem assiste a uma obra-prima. — Eu sempre sei — disse, com orgulho. — Sempre. — Arthur… — Você não pode fugir de mim. As palavras dele caíram como um veredicto. — E não pode me enganar. Ele respirou fundo. — Nosso filho será a prova disso. Meu corpo inteiro tremeu. Eu me afastei um passo, depois outro, até encostar na parede. Arthur sorriu como se tivesse vencido algo. — Você devia ficar feliz. — Eu… — Agora estamos ligados para sempre. Eu finalmente consegui respirar, mas foi como respirar água. — Isso não pode ser verdade. — É. — Você não sabe disso. — Sei. E você também sabe. Ele se aproximou outra vez, mas dessa vez eu ergui a mão, impedindo-o. Arthur parou, surpreso. Surpreso por eu ousar interrompê-lo. — Não toca em mim — sussurrei. Ele sorriu. — Finalmente começando a reagir. — Arthur… — Ótimo. Porque agora o jogo começou. — Que jogo? — O jogo onde você aprende a não viver sem mim. Eu senti minha alma dobrar. — E onde você percebe… — ele completou, acariciando o próprio anel — que eu tenho mais controle do que imagina. Quando ele saiu, tudo dentro de mim desabou. A náusea. O tremor. O medo. A verdade. Arthur sabia antes de mim. Arthur sabia do meu corpo. Arthur sabia de tudo. E naquele instante, uma certeza tomou forma dentro de mim: A ruína tinha começado. E eu estava presa no epicentro.
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