O Silêncio Como Arma

1061 Words
Aprendi rápido que discutir com Arthur era inútil. Ele não perdia o controle quando gritava. Perdida era eu, quando tentava provar algo. Cada palavra que eu usava contra ele virava argumento para me diminuir, me rotular, me empurrar ainda mais para a narrativa de instabilidade que ele construía com cuidado cirúrgico. Então parei. Não foi rendição. Foi cálculo. Naquela manhã, desci para o café em silêncio. Sentei à mesa, comi devagar, obediente. Arthur leu o jornal como se nada estivesse errado. Helena observava cada gesto meu, esperando uma reação que não veio. — Dormiu melhor hoje — comentou Arthur. — Dormi. Era mentira. Mas era uma mentira útil. — Que bom — ele respondeu. — Estresse não faz bem para o bebê. Assenti. Helena franziu o cenho. — Você parece… diferente. — Estou tentando fazer o que esperam de mim. Arthur ergueu o olhar, surpreso. — Finalmente. Helena inclinou a cabeça. — Isso é maturidade. Se soubessem o quanto aquela palavra me causava náusea. Nos dias seguintes, mantive o mesmo comportamento. Não confrontei. Não questionei. Não pedi nada. Segui horários. Aceitei a nova rotina. Sorri quando esperado. Falei pouco. Arthur começou a relaxar. Ele não percebeu de imediato, mas seu controle vinha do conflito. Sem resistência, ele não tinha contra o que lutar. O poder dele precisava de atrito. Sem isso, sobrava apenas vigilância cansada. — Você está mais tranquila — disse ele certa noite, enquanto jantávamos. — Estou tentando pensar no que importa. — E o que importa? — O bebê. A estabilidade. Arthur sorriu, satisfeito. — É assim que deve ser. Helena, porém, não parecia convencida. Ela não confiava em silêncios. Preferia lágrimas, pedidos, súplicas. Meu comportamento novo a deixava inquieta. — Você não fala mais com seus amigos — comentou . — Não sinto necessidade. — Nem com sua família? — Minha família está aqui. Arthur pousou a mão sobre a minha. — Exatamente. Helena observava como quem analisa uma peça defeituosa. — Cuidado com emoções reprimidas — disse ela. — Elas explodem. — Eu não tenho emoções reprimidas — respondi. — Tenho prioridades. Ela não gostou da resposta. Foi Helena quem cometeu o erro. Dois dias depois, ela decidiu me acompanhar a uma consulta médica. Arthur estava em viagem curta, reunião fora da cidade. Helena assumiu o papel de supervisora com naturalidade demais. — Não confio nesses médicos modernos — disse ela, sentando-se ao meu lado na sala de espera. — Muito sentimentalismo. — É uma consulta de rotina. — Gravidez não é rotina. A médica chamou meu nome. Helena levantou comigo. — Só a paciente — disse a médica. Helena sorriu rígida. — Sou sogra. — Ainda assim, apenas a paciente. Helena hesitou. Olhou para mim. — Está tudo bem — eu disse. Ela se sentou novamente, contrariada. Dentro do consultório, a médica foi direta. — Você parece tensa. — Estou lidando com mudanças. — Apoio emocional é essencial. — Tenho apoio suficiente. A médica anotou algo. — Você sabe que pode falar comigo se sentir que algo não está certo. Assenti. — Seu marido virá nas próximas consultas? — Provavelmente. — Ótimo. Quando saí, Helena me esperava com os braços cruzados. — Demorou. — Exames. — Ela disse alguma coisa? — Nada relevante. Mentira. Mas Helena não tinha como saber. No carro, ela mexia no celular, inquieta. Em um momento de distração, deixou a tela desbloqueada. Uma mensagem piscou. “Ela está estranhamente calma.” Helena respondeu rápido: “Calma demais. Não confio.” Meu estômago se revirou, mas mantive o rosto neutro. — Arthur liga mais tarde — disse Helena. — Quer saber como você está. — Pode dizer que estou bem. — Eu vou dizer que você está obediente. Engoli seco. — Não sou um animal. — Não se faça de ofendida — ela respondeu. — Mulheres como você precisam de rédeas. — Mulheres como eu? — Inteligentes demais para o próprio bem. Ali, algo se consolidou dentro de mim. Helena não me via como pessoa. Arthur não me via como esposa. Eles me viam como risco. À noite, Arthur ligou. — Mamãe disse que você se comportou bem. — Eu me comportei como adulta. Ele riu. — Não precisa provocar. — Não estou. — Estou orgulhoso de você. A palavra me causou um gosto amargo. — Orgulho é quando alguém escolhe fazer algo. — Você está escolhendo ficar. — Estou escolhendo sobreviver. Ele ignorou. — Quando eu voltar, vamos jantar fora. — Não achei que isso fosse permitido. — Estou abrindo exceções. — Por quê? — Porque você merece confiança. Desligou satisfeito. Eu fiquei olhando para o telefone. Confiança. Era isso que eu precisava conquistar. Não para ficar. Mas para me mover sem ser vigiada. Bianca tentou contato novamente. Dessa vez, consegui atender sem que percebessem. — Eles estão me pressionando — ela disse, chorando. — Helena me ligou. Disse que se eu abrir a boca, destrói o que resta de mim. — Ela sempre faz isso. — Arthur está diferente com você? — Está mais tranquilo. — Isso é perigoso. — Eu sei. — Ele nunca relaxa sem motivo. — Eu dei o motivo. Silêncio do outro lado. — Você está fingindo. — Sim. — E se ele perceber? — Ele vai perceber tarde demais. Bianca respirou fundo. — Eu não sou forte como você. — Você não precisa ser. Só precisa não atrapalhar. — Eu te odeio por ainda conseguir pensar assim. — Eu me odeio por ter aprendido. Desliguei antes que alguém entrasse. Naquela noite, fiquei sozinha no quarto. Toquei o ventre com cuidado. Não havia amor ainda. Mas havia consciência. — Você não é uma arma — sussurrei. — Nem uma corrente. Eu sabia que Arthur usaria aquela criança para me manter ali. Sabia que o contrato era uma jaula. Sabia que Helena não recuaria. Mas eles cometeram um erro fundamental. Acharam que silêncio era submissão. Acharam que calma era rendição. Acharam que eu estava quebrada. Não perceberam que eu estava observando. E quem observa em silêncio, aprende. Arthur voltou dois dias depois, mais relaxado, menos vigilante. Helena afrouxou as rédeas, convencida de que tinha vencido. Foi nesse espaço mínimo, quase invisível, que comecei a guardar informações, medir palavras, memorizar falhas. A guerra não seria aberta. Seria lenta. Cirúrgica. E pela primeira vez desde que tudo desmoronou, eu senti algo diferente da dor. Controle. Se quiser, sigo com
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