Arhur mudou depois daquela conversa.
Não foi algo visível para quem olha de fora. Continuava educado, presente, controladamente afetuoso. Mas eu conhecia cada silêncio dele. Cada pausa estratégica. E agora ele falava comigo como quem conduz alguém cansado demais para resistir.
— Você não dormiu bem — disse pela manhã, servindo café como se fosse um ritual doméstico normal.
— Dormi o suficiente — respondi.
— Não parece. — Ele pousou a xícara à minha frente. — Estresse não faz bem para o bebê.
Era sempre assim. Nenhuma acusação direta. Nenhuma ordem explícita. Apenas frases embaladas em cuidado que terminavam sempre no mesmo ponto: culpa.
— O médico não disse isso — falei.
— Eu li bastante — respondeu. — Passei a noite pesquisando.
Não questionei. Aprendi rápido que confrontá-lo de frente só alimentava o jogo dele. Em vez disso, observei. Arthur estava mais atento aos meus horários, às ligações, às mensagens. Não perguntava, mas sabia.
Quando peguei o celular para ligar para minha mãe, ele comentou, casual:
— Seus pais estão bem. Falei com seu pai ontem.
Meu estômago contraiu.
— Sobre o quê?
— Tranquilizei ele. Disse que você anda sensível por causa da gravidez.
— Você não tinha o direito.
Arthur sorriu de leve.
— Eles ficaram aliviados.
Era isso. Ele não precisava me proibir de nada. Bastava criar versões. Eu virava a instável, a exagerada, a mulher que precisava ser poupada de si mesma.
À tarde, Helena voltou.
Sentou-se comigo na varanda, mantendo a mesma postura serena de sempre. Não trouxe julgamentos diretos. Trouxe perguntas disfarçadas de preocupação.
— Você tem pensado muito em sair do casamento — disse.
— Tenho pensado em sobreviver a ele — respondi.
— Arthur está fragilizado — ela comentou. — Ele não fala, mas sente.
Olhei para ela.
— Ele sente porque perdeu o controle.
Helena não se ofendeu.
— Todo homem poderoso teme perder o que construiu.
— E eu?
Não vou inflar frases nem repetir emoções. A história avança.
Helena sustentou meu olhar por alguns segundos antes de responder.
— Você é forte — disse. — Sempre foi. Mas força também cansa.
— Cansa quando é explorada — rebati.
Ela suspirou, como se estivesse falando com alguém imaturo.
— Arthur errou. Ninguém aqui n**a isso. Mas destruir um casamento não apaga o erro.
— Permanecer nele também não — respondi.
Helena se levantou, ajeitando o casaco.
— Pense no seu filho. Pense no que ele vai herdar.
Quando ela se foi, fiquei ali, sentada, com a sensação clara de que tudo girava em torno do mesmo eixo: culpa disfarçada de cuidado.
Arthur voltou no início da noite. Trouxe flores. Não porque eu gostasse. Porque era o gesto esperado.
— Eu sei que minha mãe exagera — disse, deixando o buquê sobre a mesa.
— Ela diz exatamente o que você pensa — respondi.
— Não é verdade.
— Então manda ela parar.
Ele não respondeu.
Jantamos quase em silêncio. Arthur falava sobre a empresa, sobre reuniões, sobre projetos futuros. Incluía-me em planos como se eu já tivesse aceitado ficar.
— Talvez a gente possa viajar depois do parto — comentou. — Um lugar tranquilo.
— Talvez — respondi, neutra.
Ele sorriu, satisfeito. O silêncio da minha resistência era interpretado como rendição.
À noite, ele se aproximou na cama. Não tocou meu corpo de imediato. Tocou minha consciência.
— Não confunda ódio com lucidez.
— Eu sei que você está magoada.
— Eu estou ferida — corrigi. — E você continua pressionando.
Arthur virou-se para mim.
— Você acha mesmo que eu estou fazendo isso por m*l?
— Eu acho que você está fazendo porque pode.
Ele ficou em silêncio. A resposta estava ali.
— Damiana — disse depois —, se você sair agora, vai se arrepender.
— Do quê?
— Do caos. Do julgamento. Da instabilidade.
— Ou de não ser mais controlável?
Ele se aproximou mais.
— Você não percebe que isso está te consumindo?
— O que me consome é fingir que nada aconteceu.
Arthur respirou fundo, mudando a estratégia.
— Você sabe que Bianca está destruída, não sabe?
Meu corpo reagiu antes da mente.
— Não ouse usar minha irmã.
— Ela está sendo atacada por todos — ele continuou. — Principalmente por você.
— Eu não a ataquei. Eu reagi.
— Você a expôs.
— Ela se expôs quando entrou na nossa cama.
Arthur se sentou.
— Ela errou. Mas você também precisa assumir sua parte.
— Minha parte? — minha voz saiu baixa, perigosa.
— Você se afastou de mim. Você se fechou. Você criou espaço.
Levantei da cama.
— Então você dormiu com minha irmã porque eu criei espaço?
— Eu confirmo que errei — ele disse. — Mas não sozinho.
Ali, algo se quebrou de vez.
— Você não sente culpa — falei. — Você sente medo de perder.
Arthur não respondeu. O silêncio foi a confirmação.
No dia seguinte, acordei decidida a observar mais e reagir menos. Arthur estava confortável demais com minha aparente calma.
— Você está diferente — comentou, no café.
— Estou cansada de brigar.
— Isso é bom.
— Para quem?
Ele não respondeu.
Saí de casa mais tarde para uma consulta médica. Arthur insistiu em ir comigo. Recusei. Pela primeira vez, ele cedeu.
No consultório, ouvi o batimento do coração do bebê. Firme. Presente. Algo dentro de mim se reorganizou.
Na saída, liguei para Miguel.
— Ele está me fazendo duvidar de mim — falei.
— Isso é gaslighting — respondeu, direto. — E você não está errada em perceber.
— Então por que me sinto culpada o tempo todo?
— Porque ele quer que você se sinta assim.
Fechei os olhos.
— Eu não posso confrontar agora.
— Então não confronte — Miguel disse. — Observe. Anote mentalmente. Guarde.
Voltei para casa com outra postura. Arthur percebeu.
— Como foi a consulta? — perguntou.
— Normal.
— Está tudo bem com o bebê?
— Está.
Ele se aproximou, tocou minha barriga com cuidado exagerado.
— Viu? — disse. — Tudo fica mais simples quando você confia.
Olhei para ele.
— Confiança não se impõe.
— Mas se reconstrói.
Sorri de leve. Não porque concordei. Porque ele acreditou.
Naquela noite, escrevi mentalmente cada frase dita, cada ameaça velada, cada inversão de culpa. Não em papel. Em memória.
Arthur achava que eu estava cedendo.
Na verdade, eu estava aprendendo a linguagem dele.
E quem aprende a linguagem do inimigo não está se rendendo.
Está se preparando.