Bianca Cai

1047 Words
Fiquei em silêncio. Não ofereci consolo. Bianca precisava sentir o peso inteiro para entender o tamanho do que tinha feito. — Arthur fez isso — ela disse, por fim. — Fez o quê? — Ligou para pessoas. Não diretamente. Mas deixou claro que eu era um risco. Um erro que precisava ser esquecido. Fechei os olhos. — Você virou variável incômoda — respondi. — Ele me usou — Bianca disse. — E agora está me descartando. — Foi assim desde o começo — falei. — Você só não quis ver. Ela chorou em silêncio. Não um choro histérico. Um choro seco, de quem percebe tarde demais. — Eu quero contar tudo — disse, depois de alguns segundos. — Para quem quiser ouvir. — Não agora — respondi. — Quem fala no desespero perde o controle da narrativa. — Eu não aguento mais carregar isso sozinha. — Você não está sozinha — falei. — Mas também não está no comando. Ela respirou fundo. — O que eu faço? — Aguenta — respondi. — Como eu aguentei. Desliguei. Arthur chegou naquela noite com o semblante fechado. Jogou o paletó no sofá e passou a mão pelos cabelos, inquieto. — Bianca está fora de controle — disse. — Ela está sem chão — respondi. — Ela está falando demais. — Pessoas que caem falam — falei. — É assim que o mundo descobre quem empurrou. Arthur me encarou. — Você conversou com ela? — Ela me ligou. — O que ela disse? — Que você a apagou — respondi. — Com a mesma facilidade com que a usou. — Isso é injusto. — É funcional — retruquei. Arthur respirou fundo. — Ela está tentando se fazer de vítima. — Você ensinou bem — respondi. O silêncio que se seguiu foi tenso. — Se ela resolver falar — Arthur disse —, pode prejudicar muita gente. — Gente que já foi prejudicada — respondi. — Não seja ingênua. — Não seja cínico. Ele se aproximou, a voz baixa. — Você acha que isso te protege? — Eu não preciso de proteção — falei. — Preciso de verdade. Arthur riu sem humor. — Verdade é um conceito caro. — Mentira custa mais — respondi. Nos dias seguintes, Bianca desapareceu das redes sociais. Fotos apagadas. Stories cessados. O silêncio digital foi mais alto do que qualquer exposição. Pessoas começaram a perguntar. Não diretamente. Em sussurros. — O que aconteceu com ela? — Sumiu, né? — Dizem que foi pressionada. Arthur percebeu o clima. — Isso está fugindo do controle — disse, numa manhã. — Controle é ilusão — respondi. — Eu posso resolver. — Você sempre acha que pode — falei. — Até não poder mais. Ele passou a ligar com frequência para Helena. As conversas eram curtas, tensas. Eu ouvia partes. — Ela está instável… — Não, não deixe… — Isso não pode vazar… Helena veio dois dias depois. — Bianca é um problema — disse, sem rodeios. — Precisa ser contida. — Contida como? — perguntei. — Silêncio. Distância. Tratamento, se necessário. — Você chama de tratamento o que é isolamento — respondi. — Chamo de controle de danos — Helena rebateu. — Ela é sua neta emocionalmente destruída — falei. — E isso não te comove? — Emoção não pode ditar decisões — Helena disse. — Aparência, sim. — Você vai enterrá-la viva — respondi. — Ela se enterrou sozinha. Arthur observava em silêncio, claramente dividido. — Bianca precisa de ajuda — falei. — Ajuda não impede escândalo — Helena respondeu. — Escândalo não nasce do nada — retruquei. — Nasce de segredos m*l resolvidos. Helena me encarou com frieza. — Você está usando a queda dela para pressionar. — Eu estou vendo o efeito dominó — respondi. — Vocês empurraram a primeira peça. Helena se levantou. — Arthur, resolva isso — disse. — Antes que ela leve todos junto. Arthur assentiu, tenso. — Eu cuido — disse. — Você sempre cuidou — respondi. — Do jeito errado. Naquela noite, Bianca apareceu na porta da casa. Não ligou. Não avisou. Estava abatida, os olhos fundos, o corpo encolhido dentro de um casaco largo demais. Arthur não estava. — Eu não tenho para onde ir — disse. — Entre — respondi. Ela sentou no sofá e começou a chorar. Não se desculpou. Não se explicou. Apenas chorou. Deixei. Quando o choro cessou, ela me olhou. — Eles vão me calar — disse. — Eles tentaram comigo — respondi. — Você não caiu. — Caí — falei. — Só aprendi a levantar sem pedir permissão. — Eu sei de coisas — Bianca disse. — Mais do que eu te contei. — Então guarde — respondi. — Por enquanto. — E se eles me destruírem? — Eles já tentaram — falei. — A diferença é o que você faz com isso. Arthur chegou enquanto ainda conversávamos. Parou ao ver Bianca ali. — O que ela está fazendo aqui? — perguntou. — Respirando — respondi. — Ela não devia estar aqui. — Ela é minha irmã — falei. — E está em colapso. Arthur respirou fundo. — Bianca, você precisa ir. — Para onde? — ela perguntou. — Vocês me apagaram de tudo. — Isso não é verdade — Arthur respondeu. — É funcional — Bianca disse, repetindo minhas palavras. Arthur fechou a expressão. — Você está fora de controle. — Eu estou acordada — respondeu ela. O silêncio se fez pesado. — Isso não vai acabar bem — Arthur disse. — Para quem constrói em cima de mentira, nunca acaba — respondi. Bianca me olhou, surpresa. — Você já sabe, não sabe? — perguntou. — O suficiente — respondi. Arthur percebeu. — Vocês estão conspirando. — Não — falei. — Estamos sobrevivendo. Bianca se levantou. — Eu não vou falar agora — disse, olhando para Arthur. — Mas não vou desaparecer de novo. — Você não tem escolha — ele respondeu. — Tenho — ela disse. — Porque vocês me ensinaram a perder tudo. Arthur ficou imóvel. Naquela noite, quando Bianca foi embora, sentei na cama e respirei fundo. O bebê se mexeu, firme. A queda dela não era o Dim. Era o início do colapso. Quando uma peça cai, outras começam a tremer. E o império Alencar estava, finalmente, sentindo o impacto.
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