Fiquei em silêncio. Não ofereci consolo. Bianca precisava sentir o peso inteiro para entender o tamanho do que tinha feito.
— Arthur fez isso — ela disse, por fim.
— Fez o quê?
— Ligou para pessoas. Não diretamente. Mas deixou claro que eu era um risco. Um erro que precisava ser esquecido.
Fechei os olhos.
— Você virou variável incômoda — respondi.
— Ele me usou — Bianca disse. — E agora está me descartando.
— Foi assim desde o começo — falei. — Você só não quis ver.
Ela chorou em silêncio. Não um choro histérico. Um choro seco, de quem percebe tarde demais.
— Eu quero contar tudo — disse, depois de alguns segundos. — Para quem quiser ouvir.
— Não agora — respondi. — Quem fala no desespero perde o controle da narrativa.
— Eu não aguento mais carregar isso sozinha.
— Você não está sozinha — falei. — Mas também não está no comando.
Ela respirou fundo.
— O que eu faço?
— Aguenta — respondi. — Como eu aguentei.
Desliguei.
Arthur chegou naquela noite com o semblante fechado. Jogou o paletó no sofá e passou a mão pelos cabelos, inquieto.
— Bianca está fora de controle — disse.
— Ela está sem chão — respondi.
— Ela está falando demais.
— Pessoas que caem falam — falei. — É assim que o mundo descobre quem empurrou.
Arthur me encarou.
— Você conversou com ela?
— Ela me ligou.
— O que ela disse?
— Que você a apagou — respondi. — Com a mesma facilidade com que a usou.
— Isso é injusto.
— É funcional — retruquei.
Arthur respirou fundo.
— Ela está tentando se fazer de vítima.
— Você ensinou bem — respondi.
O silêncio que se seguiu foi tenso.
— Se ela resolver falar — Arthur disse —, pode prejudicar muita gente.
— Gente que já foi prejudicada — respondi.
— Não seja ingênua.
— Não seja cínico.
Ele se aproximou, a voz baixa.
— Você acha que isso te protege?
— Eu não preciso de proteção — falei. — Preciso de verdade.
Arthur riu sem humor.
— Verdade é um conceito caro.
— Mentira custa mais — respondi.
Nos dias seguintes, Bianca desapareceu das redes sociais. Fotos apagadas. Stories cessados. O silêncio digital foi mais alto do que qualquer exposição. Pessoas começaram a perguntar. Não diretamente. Em sussurros.
— O que aconteceu com ela?
— Sumiu, né?
— Dizem que foi pressionada.
Arthur percebeu o clima.
— Isso está fugindo do controle — disse, numa manhã.
— Controle é ilusão — respondi.
— Eu posso resolver.
— Você sempre acha que pode — falei. — Até não poder mais.
Ele passou a ligar com frequência para Helena. As conversas eram curtas, tensas. Eu ouvia partes.
— Ela está instável…
— Não, não deixe…
— Isso não pode vazar…
Helena veio dois dias depois.
— Bianca é um problema — disse, sem rodeios. — Precisa ser contida.
— Contida como? — perguntei.
— Silêncio. Distância. Tratamento, se necessário.
— Você chama de tratamento o que é isolamento — respondi.
— Chamo de controle de danos — Helena rebateu.
— Ela é sua neta emocionalmente destruída — falei. — E isso não te comove?
— Emoção não pode ditar decisões — Helena disse. — Aparência, sim.
— Você vai enterrá-la viva — respondi.
— Ela se enterrou sozinha.
Arthur observava em silêncio, claramente dividido.
— Bianca precisa de ajuda — falei.
— Ajuda não impede escândalo — Helena respondeu.
— Escândalo não nasce do nada — retruquei. — Nasce de segredos m*l resolvidos.
Helena me encarou com frieza.
— Você está usando a queda dela para pressionar.
— Eu estou vendo o efeito dominó — respondi. — Vocês empurraram a primeira peça.
Helena se levantou.
— Arthur, resolva isso — disse. — Antes que ela leve todos junto.
Arthur assentiu, tenso.
— Eu cuido — disse.
— Você sempre cuidou — respondi. — Do jeito errado.
Naquela noite, Bianca apareceu na porta da casa.
Não ligou. Não avisou. Estava abatida, os olhos fundos, o corpo encolhido dentro de um casaco largo demais.
Arthur não estava.
— Eu não tenho para onde ir — disse.
— Entre — respondi.
Ela sentou no sofá e começou a chorar. Não se desculpou. Não se explicou. Apenas chorou. Deixei.
Quando o choro cessou, ela me olhou.
— Eles vão me calar — disse.
— Eles tentaram comigo — respondi.
— Você não caiu.
— Caí — falei. — Só aprendi a levantar sem pedir permissão.
— Eu sei de coisas — Bianca disse. — Mais do que eu te contei.
— Então guarde — respondi. — Por enquanto.
— E se eles me destruírem?
— Eles já tentaram — falei. — A diferença é o que você faz com isso.
Arthur chegou enquanto ainda conversávamos. Parou ao ver Bianca ali.
— O que ela está fazendo aqui? — perguntou.
— Respirando — respondi.
— Ela não devia estar aqui.
— Ela é minha irmã — falei. — E está em colapso.
Arthur respirou fundo.
— Bianca, você precisa ir.
— Para onde? — ela perguntou. — Vocês me apagaram de tudo.
— Isso não é verdade — Arthur respondeu.
— É funcional — Bianca disse, repetindo minhas palavras.
Arthur fechou a expressão.
— Você está fora de controle.
— Eu estou acordada — respondeu ela.
O silêncio se fez pesado.
— Isso não vai acabar bem — Arthur disse.
— Para quem constrói em cima de mentira, nunca acaba — respondi.
Bianca me olhou, surpresa.
— Você já sabe, não sabe? — perguntou.
— O suficiente — respondi.
Arthur percebeu.
— Vocês estão conspirando.
— Não — falei. — Estamos sobrevivendo.
Bianca se levantou.
— Eu não vou falar agora — disse, olhando para Arthur. — Mas não vou desaparecer de novo.
— Você não tem escolha — ele respondeu.
— Tenho — ela disse. — Porque vocês me ensinaram a perder tudo.
Arthur ficou imóvel.
Naquela noite, quando Bianca foi embora, sentei na cama e respirei fundo. O bebê se mexeu, firme.
A queda dela não era o Dim.
Era o início do colapso.
Quando uma peça cai, outras começam a tremer.
E o império Alencar estava, finalmente, sentindo o impacto.