Arthur não voltou para o quarto naquela noite.
Isso não foi um gesto de respeito.
Foi estratégia.
Ele sabia que o silêncio machucava mais do que qualquer palavra. Sabia que me deixar sozinha com a cláusula ecoando na cabeça seria mais eficiente do que discutir. Arthur nunca precisava gritar. Ele apenas colocava a verdade na mesa e esperava que ela me esmagasse sozinha.
Passei a madrugada acordada, sentada na cama, encarando o vazio. Minha mão repousava sobre o abdômen sem carinho, sem afeto. Não havia amor naquele toque. Havia medo. Havia cálculo. Havia a consciência brutal de que meu corpo agora era parte de um contrato que eu nunca deveria ter assinado.
De manhã, ele entrou no quarto como se nada tivesse acontecido.
— Bom dia — disse, tranquilo.
Eu não respondi.
Arthur vestia um terno escuro, impecável, como sempre. O mesmo homem que destruiu meu mundo na sala de estar agora parecia pronto para comandar uma reunião de investidores. Para ele, tudo estava em ordem.
— Dormiu bem?
— Você sabe que não.
Ele deu um meio sorriso.
— Emoções alteram o sono. Vai passar.
— Nada disso vai passar.
Arthur se aproximou da cama.
— Vai, sim. Quando você aceitar.
Levantei.
— Aceitar o quê?
— Que não existe saída fácil.
— Eu não quero saída fácil. Eu quero liberdade.
— Liberdade é um conceito caro demais para quem depende de mim.
A frase não foi dita com raiva. Foi dita como um fato.
— Você está usando dinheiro como arma.
— Não. Estou usando realidade.
Ele caminhou até a porta.
— Temos um compromisso hoje.
— Eu não marquei nada.
— Eu marquei.
O escritório de advocacia que Arthur escolheu ficava em um dos prédios mais caros da cidade. Não era coincidência. Tudo ali gritava poder, controle e silêncio comprado.
O advogado nos recebeu com deferência excessiva. Chamou Arthur de “doutor”, me chamou pelo primeiro nome. Um detalhe pequeno, mas que dizia muito.
Sentamos frente a frente com a mesa de vidro entre nós.
— Arthur me pediu para esclarecer alguns pontos do contrato pré-nupcial — disse o advogado. — Especialmente no atual contexto.
— Gravidez — Arthur completou.
O advogado assentiu.
— A cláusula décima segunda foi redigida para garantir estabilidade familiar em situações sensíveis.
— Estabilidade para quem? — perguntei.
— Para o núcleo familiar — respondeu ele, sem hesitar.
Arthur cruzou os braços.
— Leia.
O advogado deslizou o documento na minha direção.
Li.
Cada palavra parecia uma sentença.
“Em caso de gestação vigente, qualquer tentativa de separação, afastamento conjugal ou pedido de divórcio iniciado pela esposa implicará:
a) Perda imediata de direitos financeiros;
b) Transferência integral da guarda provisória ao cônjuge masculino;
c) Restrição de movimentação patrimonial;
d) Penalidade por quebra contratual.”
Minhas mãos tremiam.
— Isso é ilegal.
— Não é — disse o advogado. — Foi homologado, validado e assinado com plena capacidade civil.
— Eu não fui informada disso.
— Você assinou.
Arthur inclinou-se para frente.
— Você confiou em mim.
— Você se aproveitou disso.
— Confiança é sempre um risco — respondeu ele. — Você perdeu.
Olhei para o advogado.
— E se houver abuso psicológico?
— É subjetivo.
— E traição?
— Não anula cláusulas patrimoniais.
Arthur sorriu.
— Eu te disse.
Saí do escritório com o peito apertado, sentindo que cada porta se fechava uma a uma.
No carro, Arthur dirigia em silêncio.
— Você venceu — disse eu.
— Isso não é uma guerra.
— É exatamente isso que é.
— Então aprenda a jogar.
Bianca apareceu naquela mesma noite.
Não avisou.
Não pediu permissão.
Entrou chorando.
— Eu não aguento mais — disse, assim que me viu.
Arthur observava da porta, sem intervir.
— Do quê? — perguntei.
— De tudo. Dos nossos pais. Da Helena. De você. De mim.
— Engraçado. Quando você estava na cama com meu marido, parecia aguentar bem.
Ela fechou os olhos.
— Eu errei.
— Você escolheu.
— Eu estava frágil.
— Eu estava casada.
— Ele disse que vocês estavam distantes.
— Ele sempre diz isso.
Arthur interrompeu:
— Não transforme isso em espetáculo.
Bianca olhou para ele.
— Você prometeu que ia me proteger.
Arthur deu de ombros.
— Eu prometi que cuidaria das consequências. E estou cuidando.
Bianca começou a chorar mais forte.
— Mamãe não fala mais comigo. Papai diz que eu destruí a família.
— Você destruiu — respondi.
— Você não entende — ela insistiu. — Eu sempre vivi à sua sombra. Você tinha tudo. O casamento perfeito. A vida certa.
— Então você decidiu roubar o que era meu.
— Eu quis ser vista.
Arthur riu, baixo.
— E foi.
Bianca me encarou.
— Eu não sabia da gravidez.
— Mas agora sabe.
— Isso muda tudo.
— Muda para quem? — perguntei.
— Para mim — ela disse. — Eu não posso carregar isso.
— Eu também não queria.
Arthur se aproximou de Bianca.
— Isso não é sobre você.
— Sempre é para você — ela respondeu, amarga.
— Vá para casa — disse ele. — Antes que piore.
Bianca saiu, quebrada.
Quando a porta se fechou, encarei Arthur.
— Você brinca com as pessoas.
— Eu administro danos.
— Você me usa como escudo.
— Você é minha esposa.
— Até quando?
— Até você parar de lutar contra o inevitável.
— E se eu não parar?
Arthur se aproximou, baixo.
— Então eu torno sua resistência inútil.
Ele colocou a mão no meu rosto.
— Pense bem. Você está grávida. Vulnerável. Observada.
— Eu não vou ser sua prisioneira.
— Já é.
Ele saiu do quarto, me deixando sozinha de novo.
Mas, dessa vez, algo era diferente.
Eu não chorei.
Sentei na cama e respirei fundo.
Arthur achava que tinha vencido porque tinha o contrato.
Ele não entendia uma coisa simples:
Contratos não controlam mentes.
E muito menos silenciam mulheres para sempre.
A partir daquele dia, eu não pensava mais em fugir.
Eu pensava em sobreviver.
E sobreviver, naquele casamento, exigia algo que Arthur ainda não tinha visto em mim.
Frieza.
Se quiser, sigo imediatamente com
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