A Cláusula Que Cala

1025 Words
Arthur não voltou para o quarto naquela noite. Isso não foi um gesto de respeito. Foi estratégia. Ele sabia que o silêncio machucava mais do que qualquer palavra. Sabia que me deixar sozinha com a cláusula ecoando na cabeça seria mais eficiente do que discutir. Arthur nunca precisava gritar. Ele apenas colocava a verdade na mesa e esperava que ela me esmagasse sozinha. Passei a madrugada acordada, sentada na cama, encarando o vazio. Minha mão repousava sobre o abdômen sem carinho, sem afeto. Não havia amor naquele toque. Havia medo. Havia cálculo. Havia a consciência brutal de que meu corpo agora era parte de um contrato que eu nunca deveria ter assinado. De manhã, ele entrou no quarto como se nada tivesse acontecido. — Bom dia — disse, tranquilo. Eu não respondi. Arthur vestia um terno escuro, impecável, como sempre. O mesmo homem que destruiu meu mundo na sala de estar agora parecia pronto para comandar uma reunião de investidores. Para ele, tudo estava em ordem. — Dormiu bem? — Você sabe que não. Ele deu um meio sorriso. — Emoções alteram o sono. Vai passar. — Nada disso vai passar. Arthur se aproximou da cama. — Vai, sim. Quando você aceitar. Levantei. — Aceitar o quê? — Que não existe saída fácil. — Eu não quero saída fácil. Eu quero liberdade. — Liberdade é um conceito caro demais para quem depende de mim. A frase não foi dita com raiva. Foi dita como um fato. — Você está usando dinheiro como arma. — Não. Estou usando realidade. Ele caminhou até a porta. — Temos um compromisso hoje. — Eu não marquei nada. — Eu marquei. O escritório de advocacia que Arthur escolheu ficava em um dos prédios mais caros da cidade. Não era coincidência. Tudo ali gritava poder, controle e silêncio comprado. O advogado nos recebeu com deferência excessiva. Chamou Arthur de “doutor”, me chamou pelo primeiro nome. Um detalhe pequeno, mas que dizia muito. Sentamos frente a frente com a mesa de vidro entre nós. — Arthur me pediu para esclarecer alguns pontos do contrato pré-nupcial — disse o advogado. — Especialmente no atual contexto. — Gravidez — Arthur completou. O advogado assentiu. — A cláusula décima segunda foi redigida para garantir estabilidade familiar em situações sensíveis. — Estabilidade para quem? — perguntei. — Para o núcleo familiar — respondeu ele, sem hesitar. Arthur cruzou os braços. — Leia. O advogado deslizou o documento na minha direção. Li. Cada palavra parecia uma sentença. “Em caso de gestação vigente, qualquer tentativa de separação, afastamento conjugal ou pedido de divórcio iniciado pela esposa implicará: a) Perda imediata de direitos financeiros; b) Transferência integral da guarda provisória ao cônjuge masculino; c) Restrição de movimentação patrimonial; d) Penalidade por quebra contratual.” Minhas mãos tremiam. — Isso é ilegal. — Não é — disse o advogado. — Foi homologado, validado e assinado com plena capacidade civil. — Eu não fui informada disso. — Você assinou. Arthur inclinou-se para frente. — Você confiou em mim. — Você se aproveitou disso. — Confiança é sempre um risco — respondeu ele. — Você perdeu. Olhei para o advogado. — E se houver abuso psicológico? — É subjetivo. — E traição? — Não anula cláusulas patrimoniais. Arthur sorriu. — Eu te disse. Saí do escritório com o peito apertado, sentindo que cada porta se fechava uma a uma. No carro, Arthur dirigia em silêncio. — Você venceu — disse eu. — Isso não é uma guerra. — É exatamente isso que é. — Então aprenda a jogar. Bianca apareceu naquela mesma noite. Não avisou. Não pediu permissão. Entrou chorando. — Eu não aguento mais — disse, assim que me viu. Arthur observava da porta, sem intervir. — Do quê? — perguntei. — De tudo. Dos nossos pais. Da Helena. De você. De mim. — Engraçado. Quando você estava na cama com meu marido, parecia aguentar bem. Ela fechou os olhos. — Eu errei. — Você escolheu. — Eu estava frágil. — Eu estava casada. — Ele disse que vocês estavam distantes. — Ele sempre diz isso. Arthur interrompeu: — Não transforme isso em espetáculo. Bianca olhou para ele. — Você prometeu que ia me proteger. Arthur deu de ombros. — Eu prometi que cuidaria das consequências. E estou cuidando. Bianca começou a chorar mais forte. — Mamãe não fala mais comigo. Papai diz que eu destruí a família. — Você destruiu — respondi. — Você não entende — ela insistiu. — Eu sempre vivi à sua sombra. Você tinha tudo. O casamento perfeito. A vida certa. — Então você decidiu roubar o que era meu. — Eu quis ser vista. Arthur riu, baixo. — E foi. Bianca me encarou. — Eu não sabia da gravidez. — Mas agora sabe. — Isso muda tudo. — Muda para quem? — perguntei. — Para mim — ela disse. — Eu não posso carregar isso. — Eu também não queria. Arthur se aproximou de Bianca. — Isso não é sobre você. — Sempre é para você — ela respondeu, amarga. — Vá para casa — disse ele. — Antes que piore. Bianca saiu, quebrada. Quando a porta se fechou, encarei Arthur. — Você brinca com as pessoas. — Eu administro danos. — Você me usa como escudo. — Você é minha esposa. — Até quando? — Até você parar de lutar contra o inevitável. — E se eu não parar? Arthur se aproximou, baixo. — Então eu torno sua resistência inútil. Ele colocou a mão no meu rosto. — Pense bem. Você está grávida. Vulnerável. Observada. — Eu não vou ser sua prisioneira. — Já é. Ele saiu do quarto, me deixando sozinha de novo. Mas, dessa vez, algo era diferente. Eu não chorei. Sentei na cama e respirei fundo. Arthur achava que tinha vencido porque tinha o contrato. Ele não entendia uma coisa simples: Contratos não controlam mentes. E muito menos silenciam mulheres para sempre. A partir daquele dia, eu não pensava mais em fugir. Eu pensava em sobreviver. E sobreviver, naquele casamento, exigia algo que Arthur ainda não tinha visto em mim. Frieza. Se quiser, sigo imediatamente com .
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD