Acordei com a sensação de que o ar estava pesado.
O quarto parecia o mesmo, mas eu não era a mesma de ontem.
A forma como Arthur me segurou pela cintura, a viagem repentina, a mudança no tom de voz… tudo estava estranho demais para ser ignorado.
E Bianca, sua inquietação, seus olhos assustados…
Tinha algo acontecendo. Algo que eu não via, mas que já me atravessava.
Desci para tomar café.
Marta arrumava a mesa em silêncio, como sempre, até perceber meu olhar vazio.
— A senhora está bem? — perguntou, cautelosa.
— Estou. Só cansada.
— O doutor Arthur disse que viajaria cedo.
— E viajou.
Ela assentiu, mas havia algo no modo como me olhava… quase como se soubesse mais do que dizia.
— Se precisar de algo, estou por aqui — murmurou.
Agradeci e me servi de café, mas o cheiro me deu náusea.
Pousei a xícara rapidamente, respirando fundo, tentando ignorar.
Não era o café.
Era o peso no estômago.
A ansiedade.
A intuição.
Meu celular vibrou na mesa.
Era uma mensagem de Bianca:
“Preciso falar com você. É urgente.”
Meu coração disparou.
Respondi:
“Vem agora.”
Ela chegou vinte minutos depois, usando óculos escuros apesar do dia nublado.
Entrou rápido, como alguém que tem medo de ser seguida.
— Tira esses óculos — pedi.
— Não posso.
— Bianca.
— Eu… — Ela hesitou, mas tirou.
Meu peito apertou.
O olho direito estava vermelho, marcado como se ela tivesse chorado a noite inteira — ou discutido com alguém.
— O que aconteceu? — perguntei, me aproximando.
— Nada.
— Bianca, eu te conheço.
— Não aconteceu nada. Eu só… dormi m*l.
— Teu “dormi m*l” nunca termina com hematoma.
Ela desviou o rosto, mas eu segurei o queixo dela com cuidado.
— Quem fez isso?
— Eu já disse! Eu esbarrei numa porta, Dami.
Era uma mentira tão frágil quanto ela.
— Você falou com Arthur ontem, não falou?
Bianca congelou.
E esse silêncio foi a confirmação que eu precisava.
— Ele te procurou? — insisti.
— Não.
— Bianca.
— Não!
— Bianca.
Ela estourou.
— Eu não posso falar, Dami! Para de insistir!
O grito ecoou pela sala.
E, logo em seguida, ela se encolheu, como se tivesse medo da própria voz.
— Me desculpa… — murmurou. — Me desculpa.
Puxei-a para o sofá.
— Você pode falar comigo.
— Não posso.
— Ele te ameaçou?
Ela arregalou os olhos, assustada demais para negar.
— Ele disse… — Bianca engoliu o choro — que eu precisava ter cuidado com o que digo. Que algumas pessoas falam demais.
— Ele te machucou?
— Não! Ele não me tocou! Não foi ele!
— Então quem?
Ela ficou muda.
A respiração acelerada, a mão tremendo, o olhar perdido.
— Bianca, você não está segura com ele por perto.
— Ele não está por perto! Está viajando! — disse, mas a voz tremeu.
— Fisicamente, sim. Mas emocionalmente… você sabe que Arthur alcança qualquer um.
Ela abaixou a cabeça.
— Você acha que eu sou burra, né?
— Não.
— Acha sim.
— Bianca… eu acho que você é vulnerável. E que ele sabe disso.
Ela fechou os olhos, como quem tenta apagar uma culpa que não sabia como carregar.
— Eu não queria deixar você preocupada…
— Mas deixou.
— Eu queria te proteger.
— E por que eu sinto que você é quem mais precisa de proteção?
As lágrimas dela finalmente caíram.
Ela respirou fundo, tentando controlar o pranto.
— Dami… posso ficar aqui hoje? Só hoje.
— Pode. Fica o tempo que quiser.
— Obrigada… — ela sussurrou. — Eu só preciso… de silêncio.
Eu assenti, mas sabia que o silêncio dela dizia mais do que qualquer confissão.
À tarde, fui ao escritório revisar uns documentos.
Tentei me concentrar, mas a cabeça latejava.
Por acaso, vi três mensagens perdidas do Arthur.
Todas curtas.
Todas com aquele tom calculado.
“Chegou bem?”
“Precisamos falar quando eu voltar.”
“Não faça nada que me deixe preocupado.”
A última me deu um arrepio.
Uma ameaça escondida entre palavras doces.
Mais uma das frases dele que pareciam carinho, mas eram algemas.
Toquei no nome dele na tela e hesitei.
Eu sabia que não devia ligar.
Mas precisava ouvir a voz dele, precisava entender se algo tinha acontecido com Bianca que eu ainda não compreendia.
Disquei.
Ele atendeu no primeiro toque.
— Estava esperando.
Seu tom era frio.
Não era o Arthur do café da manhã.
Era o Arthur real.
— Por que Bianca está estranha? — perguntei direto.
— Ela sempre foi.
— Ela está machucada.
— Se machuca por qualquer coisa.
— Arthur…
— Damiana, eu estou no meio de uma reunião. Seja objetiva.
Fiquei muda por um segundo.
Ele nunca falava assim comigo.
Ou falava, e eu não percebia?
— Ela está assustada — continuei.
— Você também estaria se vivesse como ela.
— Você falou com ela ontem?
— Talvez.
— Arthur.
— O que você quer exatamente?
Engoli seco.
— Eu só quero saber se aconteceu alguma coisa.
— Aconteceu sim — respondeu, e meu coração disparou. — Ela não sabe lidar com responsabilidades. Só isso.
— Responsabilidades?
— Não se meta.
— Ela é minha irmã.
— E eu sou seu marido. Aprenda suas prioridades.
Fechei os olhos, sentindo a raiva e a humilhação subirem juntas.
— Arthur…
— Chega, Damiana. Quando eu voltar, conversamos. E não quero você influenciada por dramas da sua família.
— Você está sendo frio.
— Estou sendo prático.
A ligação caiu.
O silêncio que ficou depois dele foi mais violento do que briga.
Arthur costumava ser calculado.
Mas não c***l assim.
Algo estava acontecendo — algo que eu não conseguia ver, mas já estava dentro da minha casa, se infiltrando pela pele.
Voltei para casa com a cabeça girando.
Encontrei Bianca no quarto de hóspedes, sentada no chão, abraçando os joelhos.
— Você comeu? — perguntei.
— Não.
— Bianca, você precisa…
— Dami — ela interrompeu, levantando o olhar — você acha que eu sou uma pessoa r**m?
A pergunta me desmontou.
— Não acho.
— Acho que sou.
— Por quê?
— Porque eu sempre estrago tudo. Sempre.
Me aproximei devagar.
— O que Arthur te disse ontem?
Ela tremeu.
— Dami… eu não posso dizer tudo agora.
— Então diz o que pode.
— Ele… fez perguntas.
— Que tipo?
— Sobre você.
— Sobre mim?
— Sobre nós.
— Bianca…
— Ele disse que você estava… distante. E que isso o deixava inseguro. Que precisava saber se você estava bem. Mas não era preocupação. Era outra coisa.
Ela olhou para o chão.
— Era como se ele quisesse que eu confirmasse algo.
— Confirmasse o quê?
— Que você estava estranha.
— Estranha como?
— Estranha… emocionalmente. Como se… — Bianca respirou fundo — como se ele estivesse procurando um motivo.
— Um motivo pra quê?
— Pra te controlar mais.
Aquela frase atravessou meu peito como um estilhaço.
Arthur estava preparando algo.
Algo grande.
E estava usando Bianca para medir minhas reações.
— Ele te pediu pra fazer alguma coisa? — perguntei.
— Não.
— Bianca.
— Não! Ele só… falou com calma. Mas sabe quando a pessoa fala com calma e mesmo assim você sente medo?
Eu sabia.
Eu conhecia essa calma.
— Você está escondendo algo — falei.
— Estou.
— Pode confiar em mim.
— Não posso. Ainda não.
— Por que não?
— Porque não quero te machucar.
E naquele momento, eu entendi a coisa mais c***l de todas:
Bianca não era cúmplice.
Ela era peça.
E Arthur estava movendo essa peça com a precisão de quem monta um jogo.
À noite, fiz chá para nós duas.
Ela parecia um passarinho ferido — nervosa, inquieta, olhando para as janelas como se temesse que alguém estivesse vigiando.
Quando Bianca foi dormir, fiquei na sala, sozinha, olhando para o vazio.
E de repente tudo fez sentido:
A viagem repentina.
O atraso no jantar.
A mudança no tom.
A ligação fria.
A mensagem controladora.
O medo de Bianca.
O corte no rosto dela.
Era como se tudo estivesse desmoronando devagar, mas com precisão cirúrgica.
E a pior parte?
Eu sentia que Arthur estava puxando os fios dessa desordem.
Eu só não sabia por quê.
Ainda não.
Mas eu estava prestes a descobrir.
E a f***a invisível que havia começado a se abrir no meu casamento…
logo se tornaria um abismo impossível de atravessar.