— Ecos da Lua e do Sangue

1484 Words
A tempestade se estendia há três dias. O castelo de Eryndor tremia sob o peso dos ventos, e cada trovão parecia vir de dentro da terra, não do céu. Era como se o próprio mundo estivesse sussurrando um aviso — ou talvez, chorando o despertar de algo que jamais deveria ter sido lembrado. Isla observava a chuva pela grande janela de vidro da torre norte. O reflexo de sua pele prateada e os olhos luminosos não pertenciam mais à mulher que fora. Desde a noite nas montanhas, sentia algo diferente pulsando dentro de si — um poder que não era totalmente seu. As runas que haviam selado o portal ardiam sob sua pele, invisíveis, mas vivas. Às vezes, quando fechava os olhos, via flashes do que estava além do véu: cidades submersas em névoa, vozes sem corpo, e um trono feito de ossos lunares. Ela se perguntava — será que era esse o poder que a Deusa havia prometido? Ou seria a maldição que vinha com ele? Lucian entrou sem ser anunciado. O som de suas botas molhadas sobre o piso de pedra a despertou de seus pensamentos. Você não dormiu, — ele disse, a voz baixa, carregada de preocupação. Não consigo. Ele aproximou-se devagar, como quem teme quebrar algo delicado. Desde a batalha no portal, Lucian observava Isla com um misto de amor e cautela. Sabia que ela carregava algo dentro de si — uma força antiga — e que, de alguma forma, essa força estava se conectando ao eclipse e às lendas sobre o traidor celeste. Rowan trouxe relatórios, — continuou ele. As fronteiras estão instáveis. As runas que você desenhou perto das Montanhas de Varyn estão começando a perder intensidade. Isla virou o rosto para ele. Elas não foram feitas para segurar o véu por tanto tempo. A f***a quer se abrir, Lucian. A escuridão que estava do outro lado… ela está viva. Lucian a encarou por um longo momento. Depois, caminhou até a janela e fitou o horizonte. A chuva pintava o mundo de cinza e prata. Eu mandei mensageiros para as matilhas aliadas. Vamos precisar de um conselho. E talvez… de uma guerra. Ela sentiu o coração apertar. Uma guerra contra o que, Lucian? Nem sabemos o que é essa coisa. Ele se virou, os olhos dourados brilhando. Então precisamos descobrir. --- Horas depois, a sala do conselho estava silenciosa. Lucian se sentava à cabeceira da mesa de pedra, e Isla ao seu lado. Ao redor, os líderes das matilhas vizinhas — alguns desconfiados, outros tensos — observavam em silêncio. Rowan, o beta, foi o primeiro a falar: O eclipse mexeu com o equilíbrio da natureza. As matas estão diferentes, as águas do rio Ardor começaram a recuar. Caçadores afirmam ter visto luzes nas montanhas. Um dos anciãos murmurou: Sinais do fim. Lucian bateu a palma na mesa, a voz firme: Não é o fim. Mas se não agirmos, pode ser. Os murmúrios cessaram. Isla então se levantou. Seu corpo irradiava uma energia sutil — não ameaçadora, mas ancestral. O que está tentando atravessar não é apenas uma força. É uma consciência. Ela se alimenta do desequilíbrio, da guerra, do medo. E o que exatamente é essa coisa? — perguntou o alfa de Caelum. Uma criatura? Um deus? Ela hesitou. As palavras vieram com um peso que pareceu gelar o ar ao redor. É Nhar’azul. O traidor da Deusa. Um murmúrio percorreu a sala. Os mais velhos empalideceram. O nome era antigo demais — um mito contado às crias para lembrá-las do que acontece quando a lua sangra. Isso é impossível, — sussurrou Rowan. Ele foi banido antes da Primeira Era. Isla assentiu. E permaneceu preso… até agora. Lucian a observava em silêncio. Ela falava com uma certeza que vinha de algo além da razão. Ele sabia — a Deusa estava mostrando fragmentos a ela, conectando-a às memórias perdidas da linhagem Lunaris. Quando a reunião terminou, o castelo parecia mais frio. Os alfas partiram, levando o medo nos olhos. Lucian ficou ali, observando Isla se afastar pelos corredores. --- À noite, ele a encontrou no templo da lua. O local era silencioso, iluminado por centenas de velas flutuando sobre uma pequena piscina prateada. Era ali que Isla se conectava à Deusa — e onde Lucian raramente ousava entrar. Mas, naquela noite, algo o guiou até ela. Ela estava ajoelhada diante da água, os cabelos soltos, a pele banhada em luz. Murmurava preces antigas em uma língua esquecida. O reflexo na água, no entanto, não mostrava apenas seu rosto — mostrava uma mulher de prata, envolta em mantos de estrelas. A Deusa. Lucian ficou parado, sem ousar interromper. O ar no templo era pesado, vibrante. Quando Isla levantou os olhos, lágrimas escorriam por seu rosto. Ela me mostrou, — sussurrou. O que virá… e o que serei. Lucian se aproximou, ajoelhando-se diante dela. Diga-me. Nhar’azul não quer apenas atravessar. Ele quer renascer. E para isso, precisa de mim. Lucian sentiu o sangue gelar. O quê? Meu sangue é Lunaris, Lucian. Sou o elo entre o mundo dos vivos e o véu. Se ele me possuir, terá o poder de atravessar com corpo e vontade. Ele segurou o rosto dela com força, o olhar queimando. Isso nunca vai acontecer. Eu juro. Ela o tocou no peito, sobre o coração. O juramento de um rei não segura um deus. Mas antes que ele respondesse, o templo tremeu. A água da piscina começou a brilhar com luz escarlate, e uma voz ecoou — não da Deusa, mas do véu. “Filha da lua... o teu sangue já me pertence.” Lucian a envolveu nos braços, o poder dele explodindo como uma chama dourada. As velas se apagaram, o templo mergulhou na penumbra. O vento soprou tão forte que as colunas tremeram. Quando tudo cessou, Isla estava ofegante, mas viva. Lucian, no entanto, sangrava da mão — um corte profundo, feito por uma runa invisível que brilhava em vermelho. Ele tentou marcá-la, — murmurou Isla, horrorizada. Mas encontrou o elo em você. Lucian olhou para o sangue que escorria. Então que ele saiba, — disse com a voz baixa e feroz — que se tentar tocá-la novamente, terá de passar por mim. --- Nos dias seguintes, a fortaleza se preparou para a guerra. Runas protetoras foram gravadas nas torres, patrulhas reforçadas, magos lunares convocados. O Reino de Eryndor fervilhava como um coração prestes a explodir. Mas enquanto o mundo externo se armava, algo mais íntimo acontecia entre Lucian e Isla. A cada noite, ela sonhava com fragmentos do passado — a lua sangrando sobre um trono, vozes sussurrando seu nome verdadeiro, e a Deusa estendendo a mão. “A união é o escudo, filha minha. O amor é o selo. Só juntos, vocês conterão o abismo.” Ela acordava com o coração acelerado, o corpo envolto em suor frio. Lucian sempre estava lá, ao seu lado, com o olhar preocupado e o toque quente que a ancorava à realidade. Certa madrugada, quando as sombras pareciam mais densas, Isla se virou para ele. Você não teme o que pode vir? Lucian a observou por longos segundos antes de responder: Tenho medo, sim. Mas o medo não me faz recuar. Me faz proteger. Ela sorriu de leve. A Deusa me disse que o vínculo entre nós é o escudo. Que nossa união será o que manterá o véu intacto. Ele inclinou-se, encostando a testa na dela. Então que o mundo queime, se for preciso. Eu não te deixarei ser levada. O toque deles fez o ar vibrar. Por um instante, o castelo inteiro pareceu suspirar — como se reconhecesse que o poder do rei e da rainha, juntos, era mais que sangue e destino: era amor. --- Mas longe dali, entre as sombras do norte, algo despertava. Um templo esquecido sob o gelo acendeu-se em luz vermelha. Runas antigas começaram a se mover nas paredes, e o ar dentro da caverna se distorceu. Uma figura emergiu das trevas — envolta em manto n***o, o rosto escondido. Em suas mãos, um fragmento de cristal lunar pulsava em sangue. Ele ergueu o olhar para o vazio e sorriu. . Então… a filha da lua despertou. E com ela… o fim dos deuses. --- De volta a Eryndor, Isla abriu os olhos de um sonho. As paredes do quarto tremiam, e no céu, a lua havia mudado de cor. Um anel escuro começava a se formar em torno dela. Lucian… — sussurrou ela, com um arrepio percorrendo-lhe a espinha. O segundo selo está rachando. Lucian, ainda meio desperto, sentou-se e olhou pela janela. Então é hora de nos prepararmos. Ela o olhou com ternura e medo. Não só para lutar… mas para lembrar quem eu sou. Ele estendeu a mão, firme. E eu estarei com você em cada passo. Lá fora, a lua sangrava lentamente. E, nas profundezas da terra, uma risada antiga ecoou. O verdadeiro jogo havia começado.
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