– Caminho de Sombras e Prata. Parte 3 – A Maré de Trevas

1045 Words
O túnel havia se transformado. Não era mais apenas pedra e sombra; era um espaço vivo, pulsando, respirando. Cada passo fazia a escuridão ondular, e os lobos de sombra surgiam em silêncio, mas seus olhos brancos brilhavam com fome e inteligência. Isla respirava com dificuldade, sentindo o poder dentro de si pulsar como um tambor descompassado. Natasha permanecia alerta, rosnando apenas internamente, como se tentasse controlar a energia crescente. Mas não havia controle possível. Era instinto puro, medo puro, força pura. Lucian… — ela chamou, a voz trêmula, quase engolida pelo som metálico do ataque das sombras. Eles… estão… — a frase não terminou; uma sombra se arremessou contra ela, quase derrubando-a. Lucian se jogou para frente, bloqueando o ataque com a espada, e feriu a sombra com a lâmina. Mas ele sabia que essas criaturas não morriam como lobos normais. Cada golpe apenas dispersava a essência temporariamente, que se reformava em segundos. Não podemos… só cortar! — ele gritou, respirando pesadamente. Tem que ser luz! — e apontou a espada para Isla, como se pedisse que concentrasse sua energia. Ela fechou os olhos, sentindo o poder explodir sem controle. Uma rajada de luz prateada estourou, atingindo metade das sombras, mas a outra metade avançou ainda mais rápido, como se se alimentasse da própria energia dela. O túnel tremeu. Pedras caíram do teto, destroços se espalharam, e Isla foi empurrada contra a parede. O impacto foi forte, mas ela se levantou, instintivamente ativando uma nova onda de poder. Natasha rugiu dentro dela, e por um momento, a energia ficou controlada, concentrada no vínculo que sentia com Lucian. Isso! — ele gritou, desviando de outro ataque e segurando a mão dela. Concentre-se em mim! Em nós! O contato foi como eletricidade. Algo mudou. A conexão que antes era apenas emocional agora pulsava entre eles como uma corrente viva, fazendo o poder de Isla explodir em forma sólida, empurrando os lobos para trás. Mas cada rajada drenava sua energia, e ela sentiu fraqueza, vertigem, o medo de perder o controle. No corredor atrás deles, o conselheiro traidor arrastava-se, gravemente ferido, mas consciente. Ele observava, sorrindo com malícia. Cada golpe dos lobos de sombra parecia alinhar-se com o plano dele, cada distração feita para separar Lucian de Isla. Ele ainda tinha seu próprio objetivo — e ele não desistiria sem garantir sofrimento. Lucian… — Isla sussurrou, engolindo o medo. Não posso segurar isso por muito tempo. Ele apertou a mão dela. Eu sei… Mas confie em mim! Confie em nós! Um dos lobos de sombra avançou com rapidez sobrenatural, quase derrubando ambos. Lucian bloqueou com o corpo, recebendo o impacto em seu ombro já ferido. Ele grunhiu, sentiu a dor, mas manteve os olhos fixos nela. Você consegue! — gritou, a voz carregando a força de um alfa, de alguém que se recusava a perder. Eu não deixo você morrer! Foi o suficiente. Algo dentro de Isla explodiu de medo, raiva e necessidade de sobreviver. Uma luz intensa emergiu de seu corpo, branca, prateada, mas agora sólida, quase tangível. Os lobos que avançavam hesitaram. Alguns recuaram, outros apenas rugiram com fúria muda. Ela sentiu, pela primeira vez, o poder de Natasha e o dela juntos, como se a loba estivesse totalmente integrada, compartilhando força e vontade. A rajada de luz a impulsionou, atravessando os lobos, espalhando-os, mas não os destruindo. E então, algo maior apareceu. Mais profundo que as sombras, mais antigo que os lobos. Um vulto etéreo, quase humano, mas feito de trevas concentradas, pairando no corredor à frente. O túnel parecia diminuir ao redor dele, a luz prateada de Isla lutando para romper a escuridão absoluta que emanava dessa presença. Lucian… — ela sussurrou, aterrorizada e maravilhada ao mesmo tempo. O que é isso? Não sei… — ele respondeu, engolindo o medo e avançando com a espada ... mas você vai me dizer. Confie no que sente, Isla. Confie em você! O vulto avançou. As sombras ao redor se fundiram nele, formando tentáculos que avançavam com precisão mortal. Lucian desviou de um golpe que teria dilacerado seu torso, sentindo a força do impacto reverberar em seu corpo inteiro. Isla gritou, ativando mais uma onda de energia. A luz prateada se expandiu como uma tempestade, mas cada rajada consumia parte dela, deixando-a exausta, quase desmaiando. No instante mais crítico, o traidor tentou atacar, mas Natasha emergiu de dentro de Isla, suas garras invisíveis rasgando o ar, empurrando o inimigo para trás. Ele caiu, gritando de dor, revelando ferimentos que apenas aumentavam sua malícia. Ainda estava vivo, mas temporariamente derrotado. Lucian correu para Isla, protegendo-a de outro ataque do vulto. Eles estavam juntos, novamente, mas a sensação era diferente. Algo havia mudado. O vínculo deles não era mais apenas emocional. Havia energia fluindo entre eles, um fluxo invisível que parecia amplificar a força de cada um e criar uma barreira mínima contra a escuridão. Você sente isso? — perguntou ele, ofegante. Sim… mas é instável… — ela respondeu, o corpo quase incapaz de se manter de pé. Se eu não controlar, posso machucar… você… ou pior… Não importa. — ele disse, segurando o queixo dela para que olhasse para ele. Você não está sozinha. Nós somos mais fortes juntos. Confie em mim. O vulto avançou novamente, e a luz de Isla explodiu em um flash tão intenso que quase cegou ambos. Quando a claridade diminuiu, ele estava… parado. Ainda ameaçador, mas recuado, como se a força combinada deles fosse algo que não podia enfrentar sozinho. Isso… — sussurrou Isla, exausta, tremendo — é só o começo, não é? Lucian colocou o braço ao redor dela, apoiando-a. Não… mas enfrentaremos tudo, juntos. Sempre. O traidor, ainda se contorcendo, murmurou entre dentes, mas não conseguiu se mover mais. O túnel estava silencioso por alguns segundos, apenas com os suspiros deles, a luz prateada pulsando fraca nos ombros de Isla e Natasha. E então, a presença maior se afastou. Não desapareceu. Apenas se retirou por enquanto, deixando claro: o perigo não tinha acabado. Só estava esperando. Isla e Lucian respiraram juntos, tentando recuperar o fôlego, mas sabiam a verdade: a maré de trevas que começara naquela noite ainda estava longe do fim. E algo dentro deles — o vínculo, o poder, o amor — acabara de começar a mudar para sempre.
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