— Pedirei pessoalmente ao meu tio para levar o... — parou e perguntou delicadamente. — Qual é o seu nome mesmo, minha delícia? — então ela era sobrinha do senhor Drummond?
— Sam — consegui falar no meio do fogo cruzado. — Samuel.
— Samuel... Uhum... — torceu seu lábio com um sorriso de m***r qualquer homem normal. — Como eu estava falando, vou falar com meu tio pessoalmente para levar o nosso mais novo amigo, Sam, ou melhor, a minha delícia aqui... — disse, virando de leve para me olhar novamente de cima a baixo, com desejo. — Para nossa casa no lago...
— Você não ousaria! — esbravejou Alexya. Senti os olhares de alguns convidados pairarem sobre ela.
— Você sabe que consigo tudo o que quero — soprou um leve beijo para Alexya, ironizando ainda mais a conversa. — Eu garanto que meu tio não vai me negar um pedido tão solícito.
— Não quero confusão — tratei de me anunciar na conversa novamente, mostrando estar desconfortável com a situação. — Senhora Clarisse, desculpe, mas tenho que me retirar. O trabalho me chama — tentei sair, mas ela segurou meu braço.
— Você não me escapa, Sam — falou decidida, me olhando de cima a baixo.
— Ótimo! — Alexya se exasperou ao falar. — O filho dos empregados agora tem a sua defensora. Santa dos Oprimidos e Vagabundos... Ops! Presidiários — levou a mão até a boca de modo debochado.
— Alexya! — disse senhor Drummond indignado, nos surpreendendo e a deixando pálida ao ouvir a voz de seu pai, que chegou por trás sorrateiramente. — Eu sabia que você gostava de humilhar as pessoas, mas não sabia poderia ser tão c***l — sua voz de decepção era evidente.
— Não me importo, tio — falou Clarisse ao se aproximar do tio e lhe dar um beijo carinhoso em seu rosto.
— Mas eu me importo com as atitudes dela perante as pessoas — irritou-se o senhor Drummond. — Sam, você está bem?
— Estou sim, senhor Drummond. Não foi nada — tentei ser o mais convincente possível.
— Maravilha! — esbravejou Alexya em uma carranca. — Os coitadinhos, ou melhor... o coitadinho. Porque defender filho de empregado, ninguém merece — debochou novamente.
— Tio — Clarisse olhou com tenacidade para ela. Alexya já sabia o que a prima perguntaria, semicerrando os olhos, queimou Clarisse mentalmente. — Que tal levarmos Samuel para a casa do lago? — mostrou todos os dentes brancos em um sorriso largo para Alexya. — O senhor falou que precisaríamos de mais um para ajudar no trabalho enquanto estivermos por lá — a morena parecia que explodiria de tanta raiva que sentia.
— Ideia excelente — concordou, entendendo os motivos por trás da proposta de Clarisse. — Você vai conosco Samuel
— olhou firme para a filha que estava com uma carranca enorme.
— Senhor — tentei, sem sucesso, falar. — Não precisa...
— Isso é uma ordem, Sam — disse incisivamente o senhor Drummond com a voz calma. — Hoje mesmo falo com seu pai, e no próximo mês você irá conosco para casa do lago. E sem “mas senhor”. Agora você está dispensado, pode aproveitar a noite.
— Vou adorar mostrar a casa do lago para você, Sam — provocou Clarisse com um sorriso irônico, mas de m***r qualquer um.
— Você é uma i****a, Clarisse — rosnou Alexya, visivelmente irritada ao sair em um rompante da sala repleta de convidados.
— Me desculpe novamente, Sam — pediu o senhor Drummond sinceramente.
— Não ligo para isso, senhor, eu que peço desculpas — disse.
— Gato e paciente — suspirou Clarisse, sorrindo. — Vou adorar ser sua amiga.
— Se ao menos Alexya fosse gentil como você, querida. Sua prima não sabe o doce de pessoa que é você. Um anjo — elogiou senhor Drummond a sobrinha, mas com o rosto triste se dirigindo a Clarisse para dar beijo em sua têmpora. — Pode ir, Sam. Amanhã você terá uma ótima surpresa — soltou um sorriso fraco devido a decepção com sua filha.
Segui indignado para o jardim, segurando uma garrafa de champanhe na mão. Que d***a, aquela garota tinha que sempre estar me atacando sem necessidade? Passei as mãos em meu cabelo, enquanto olhava a água da fonte cair, me sentei no degrau, apoiando minha cabeça nos joelhos. Eu não era de chorar por qualquer coisa, mas naquela noite, eu chorei. Chorei de raiva. Maldita hora que não segui pelo caminho certo. Era para ser um arquiteto de sucesso, até um convidado naquela festa, poderia ser eu esnobando aquela menina mimada. d***a! d***a! Soluços involuntários saíram da minha garganta e lágrimas cada vez mais quentes começaram a rolar em meu rosto. Me peguei olhando para a garrafa, com raiva, bebi todo o líquido que havia dentro e a joguei com força contra a fonte, vendo-a se estraçalhar em pedaços minúsculo. Riquinha esnobe. Fui para o meu quarto, tomei meu banho, tentando diminuir a tensão e deitei minha cabeça no travesseiro. A cama macia era meu conforto para um dia difícil e conturbando. Fechei meus olhos e involuntariamente a imagem dela me veio à cabeça. A imagem da morena de cabelo longo, que estava fazendo meu sangue ferver. Passei os dedos nos olhos, esfregando na tentativa de tirar a imagem dela da minha cabeça e finalmente, depois de um tempo, consegui.
Eu sabia que eram só por algumas horas que eu poderia deitar minha cabeça tranquilamente no travesseiro macio, mas já era o suficiente.
Adormeci rapidamente em um sono profundo.
Sam
Era madrugada quando alguém bateu enlouquecidamente na porta da minha casa. Levantei ainda sonolento, tombando em algo, praticamente tropeçando nos meus próprios pés. Eu ainda estava cansado e extremamente irritado. E não era por menos, tinha sido um dia cheio, ou melhor, uma noite cheia.
— Droga! — esbravejei enquanto procurava uma camisa, mas não achei e segui mesmo assim para atender à porta. — Já vou atender — gritei antes de abrir a porta. Quando a abri, me deparei com Alexya com o rosto aflito. — Ah! Não... — disse irritado. — Você só pode estar brincando com a minha cara. Além de me humilhar, ainda vem tirar minha paz? — perguntei, ríspido.
— Sam... — começou a falar, mas tinha algo errado em sua voz. Algo que me deixou de coração apertado no mesmo momento. — Seu pai... — ela não conseguiu terminar, porque eu já estava olhando para o motivo do seu rosto aflito. Ao fundo vi a ambulância, e meu corpo todo tremeu com a sensação de que algo r**m tinha acabado de acontecer.
A minha raiva por ela agora não era nada. Nada.
Eu senti que o meu pai não estava bem.
— Meu pai... — saí, passando sem ao menos notá-la e corri para casa que ficava próxima a minha. Quando cheguei, vi minha mãe aos prantos e, logo o medo percorreu meu corpo novamente. Eu estava ofegante e atordoado. Minha mãe me viu e rapidamente veio correndo em minha direção, e tudo que eu pude fazer foi abraçar e acompanhá-la em choro doloroso.
— Sam... — disse, soluçando em meio as lágrimas. — Meu Jo... — mais soluços e gemidos de tristeza saíram de dentro daquele ser tão adorável. Afaguei sua cabeça, ao mesmo tempo vendo a imagem do corpo do meu pai sendo levado em uma maca pelos paramédicos.
Ainda com ela em meus braços, a levei para sentar na cadeira que sempre ficava na varanda e fui falar com os paramédicos. Não estava acreditando no que aconteceu. Eu estava em choque e desolado, e minha mãe, inconsolável.
— O senhor é o filho do senhor Otto? — perguntou uma mulher alta de traços fortes que não me lembrava de onde ela era exatamente.
— Sim, sou eu — respondi, chorando ainda sem acreditar no que tinha acontecido. — O que foi que aconteceu?
— Seu pai teve uma parada cardiorrespiratória — respondeu ela direto, e agradeci a Deus por isso. — Você vai precisar ser forte e cuidar dos documentos. Está bem? — não dava para acreditar que aquilo estava acontecendo com a minha família, ainda mais com o meu pai.
Éramos apenas nós três e agora não tínhamos mais o pilar principal que sustentava a mim e a minha mãe.
— Tudo bem — respondi sem rumo nas minhas palavras. Olhei ao redor, vendo o senhor Drummond e Alexya de longe com olhares preocupados. Eu não queria acreditar. Eu não podia crer no que estava acontecendo. O corpo já havia sido removido e eu tinha que cuidar da documentação. Observei minha mãe sentada na cadeira, triste, mesmo tendo parado de chorar. Atônita, sem esboçar qualquer emoção. Não precisava entender de medicina para saber que ela estava em choque.
Recebi os documentos, mas antes ela me informou que todos os procedimentos feitos no atendimento. Explicou-me que não havia mais nada a ser feito quando chegaram. Meu pai já tinha entrado em óbito.
Senhora Sardagna já havia levado minha mãe para dentro da casa. Depois que elas entraram, eu caí de joelhos em um choro de agonia e sofrimento.
Não conseguia absorver tudo o que estava acontecendo.
Passei as mãos no rosto e comecei a dar tapas, na tentativa de acordar de um pesadelo. Aquilo só poderia um pesadelo, com toda certeza, e eu queria acordar, mas não conseguia.
Um buraco enorme no meu peito começou a se formar, tirando um pedaço valioso do meu coração.
Meu pai.
No velório, minha mãe não falou e nem derramou nenhuma lágrima. Estava em silêncio desde a noite que tudo aconteceu. Rose, minha tia, compareceu ao velório e o resto da família – os poucos membros existentes – acharam melhor que minha mãe ficasse com ela por uns tempos no litoral para tranquilizá-la. Não concordei de início, mas pela primeira vez, depois de horas, minha mãe falou e disse:
— Me deixe ir, meu filho — a sua voz era baixa e arrastada. — Deixe que eu sinta a dor de perder seu pai, sozinha — fechou os olhos apertando-os com força. — Não quero ficar aqui nem mais por um segundo. Quero ficar um pouco só — eu poderia ter ficado magoado, mas ela perdeu alguém que era mais que um marido: era o seu melhor amigo.
— Desculpa, mãe — minha voz tremeu. — Se eu...
— Tudo bem, meu filho — me deu um sorriso fraco. — Sei que era para eu ficar ao seu lado, mas não consigo. Você me faz lembrar o seu pai demais...
Fazia mais de duas semanas que meu pai tinha partido. Eu sempre ligava para minha mãe, mas ela m*l falava ao comigo. Minha tia Rose disse que a levaria a um psicólogo, pois achava que ela estava entrando em uma grave depressão depois da morte do meu pai.
Minha mãe era uma mulher cheia de vida, mas o que fazia seu sorriso espalhar pelo rosto era o meu pai, mesmo quando ele entrava na casa, sujando o piso que ela havia acabado de limpar.
Eu não tinha um ombro amigo para chorar e nem a minha mãe por perto, por isso, sempre me pegava chorando pelos cantos. Não tive tempo de fazer pelo meu pai o que sempre quis. Ser um filho melhor. O jardim parecia sentir sua ausência, estava seco e sem vida, mesmo com o tempo úmido.
— Se quiser — disse senhor Drummond se aproximando, me surpreendendo. — Você pode tirar um tempo para pensar — seu tom era gentil e preocupado.
— Eu agradeço, senhor — comecei a falar ainda mexendo na terra e escondendo os olhos inchados devido as longas noites de choro. — Mas prefiro o trabalho. Não quero pensar no que aconteceu. Prefiro e quero ocupar a mente com alguma coisa — disse sinceramente ao me levantar.
— A casa do lago — suspirou pacientemente, me lembrando de que eu tinha que ir para casa do lago. — Não quero você trabalhando por lá — como assim, ele não queria que eu trabalhasse?
— Não entendi, senhor — disse, um pouco surpreso. — Não quer que eu vá?
— Você vai, mas como meu convidado — não podia aceitar tal coisa. Eu precisava trabalhar para ocupar a mente, se me tirassem o trabalho, eu seria apenas um corpo vegetando.
— Mas...
— Mas... nada — interrompeu ele. — Não quero você trabalhando nesse estado — suspirou. — Já contratei dois jardineiros e um rapaz para cuidar da casa do lago. Você perdeu seu pai, Samuel, mas eu também perdi um amigo — vê-lo falando daquela forma, me fez lembrar que ele havia pagado todo o velório e ainda estava ajudando minha mãe nas despesas médicas. Eu tinha uma dívida com ele. Uma dívida moral e financeira. — Vamos lá, garoto! Vamos ao menos respirar um ar puro, longe de tudo isso — suspirei e acabei cedendo. — Andar um pouco a cavalo e apreciar a paisagem.
— Obrigado por tudo, senhor Drummond — minha voz saiu embargada, reprimindo o choro. Eu não quis me opor a ele, eu sabia que se fizesse isso, acabaríamos em uma longa discussão.
— Não precisa agradecer — me abraçou, enquanto eu caía em prantos, retribuindo o abraço. Afastei-me, agradecendo novamente o apoio que ele estava me dando e seguindo para minha casa. De cabeça baixa, subi os dois degraus e suspirei ao ver quem estava na entrada.
Alexya com cara de cachorro molhado.
Não estava a fim de falar. Principalmente com ela.
— O que você quer? — perguntei ríspido, mostrando que não queria papo com ela.
— Queria saber como você está? — respondeu baixinho, me olhando com aqueles olhos castanhos.
— Como você pode ver — abri os braços e girei o corpo para me analisar melhor. — O filho do empregado e p**a de um bandido, está perfeitamente bem — falei entredentes.
— Eu só quero pedir desculpas por tudo — disse, quase choramingando. — E saber se precisa de algo...
— Sabe o que eu preciso? — perguntei, mais agressivo. — Eu preciso que você suma da minha frente, de preferência para não voltar nunca mais — esbravejei. — Não quero sentir o seu cheiro. Não quero ouvir sua voz. Não quero você me dando ordens. Não quero você debochando do meu passado, que por sinal fez questão de falar para todos sem a menor preocupação, não é? — rosnei. — Eu quero que você se f**a! Quero que você vá para o quinto dos infernos! — gritei o mais alto que pude.
Ela se assustou com o meu grito, mas era exatamente o que eu queria, ou não era?
— Sam... eu...
— Você? Você precisa de tratamento, sua louca. Não se trata pessoas do jeito que você está acostumada. Você não passa de uma riquinha mimada que não sabe o que é sofrer de verdade — falei, soltando um risinho de deboche. — Mas não precisa fingir, por trás dessa sua cara de boa moça, tem um demônio em forma de gente. Cresça e amadureça, porque dessa forma, você não vai muito longe na vida — ela estava tão assustada que, se eu não estivesse com tanta raiva, teria tido pena dela. — Agora, me dê licença que eu tenho mais o que fazer — entrei em casa batendo a porta com força, sem olhar para trás.