— É sério isso, pai? — perguntou ela, em choque.
— Muito sério — respondeu ele, severamente. — E a partir de hoje, ele entra e sai pela porta da frente a hora que quiser. E isso não é um pedido, é uma ordem — ela bufou, enquanto passava por mim para abrir a porta, fazendo com que o capacete da moto batesse no meu braço com força, entrando na casa.
— Me desculpe pelo incidente — pediu ele, visivelmente desgostoso.
— Tudo bem — o acalmei.
— Não está tudo bem — suspirou. — Esse gênio de Alexya não saiu da minha parte.
— Vamos deixar isso de lado — falei, mudando de assunto. — Quais serão minhas funções, além de ser o jardineiro?
— Ah! Samuel — falou sorrindo e feliz com a mudança de assunto. — Você sozinho não dará conta de jardinar todo o terreno. Digamos que você será “o faz tudo” — passou a mão em meu ombro, segurando firme e continuou. — De início, não vou mentir, não gostei muito da ideia de tê-lo aqui, mas seus pais me contaram a sua situação e não poderia negar ajuda para pessoas tão maravilhosas. Considero muito sua família e farei o possível para ajudar você, também.
— Obrigado, senhor Drummond — agradeci, sinceramente.
— Me diga — começou a perguntar. — Além do seu trabalho aqui, quais são seus planos? — ele estava verdadeiramente com vontade de saber o que eu queria fazer.
— Quero terminar meus estudos — respondi com firmeza.
— Quero terminar a faculdade e seguir com a carreira de arquiteto.
— Vou providenciar para que termine a faculdade — fiquei impressionado com o que ele disse. Ele não me via como um delinquente, mas como uma pessoa que precisava de oportunidades para poder seguir a vida.
— Não sei como agradecer — estava emocionado. Aquilo era mais do que eu podia sonhar. — Difícil acreditar que mesmo depois de tudo, o senhor quer me ajudar.
— Já falei, sei sobre a sua situação e adoro sua família — disse ele, enquanto andávamos para poder entrar na enorme casa em direção à cozinha. — Percebo que está trabalhando com gosto no jardim, e pelo sol escaldante que está lá fora, tenho certeza que você está com sede.
— Estou sim — afirmei, sorrindo sem jeito.
— Sirva-se do que quiser — falou, antes de sair da enorme cozinha. — Nos vemos depois para falar sobre seus estudos. Está bem?
— Sim — acenei feliz, concordando com ele. — Tudo bem.
Logo, a empregada, senhora Sardagna, apareceu para me dar água. Aceitei de bom grado, matando minha sede, voltando, em seguida, para terminar meu trabalho.
Não via a hora de chegar à noite e deitar novamente na cama confortável e esquecer tudo.
Terminei meu trabalho árduo no final da tarde, feliz por ocupar minha cabeça com outras coisas. Meus pais já haviam chegado e meu pai estava descansando, por isso achei melhor deixá-lo na paz e tranquilidade. Entrei em casa, seguindo para o banheiro para tomar banho, tirando toda a terra que havia em minhas mãos. Arrumei-me e resolvi explorar a região.
Encontrei um barzinho pequeno perto da mansão, o que parecia ser um milagre existir um ali perto. Letreiro grande e em luzes vermelhas destacavam o nome do bar, e parecia com aqueles bares americanos, mas com a imagem de uma taverna.
Tinha cara de ser um bom ambiente. Queria tomar um uísque puro para aquecer meu final de tarde. Entrando, observei o ambiente calmo com alguns caras jogando sinuca no fundo e outros atirando dardos com suas namoradas. Andando em direção ao bar, sentei na cadeira do balcão e, logo um homem alto de aparência rude veio me atender.
— Dia difícil, amigo?
— Muito difícil — suspirei, lembrando-me do dia cansativo, não do trabalho, mas da mulher que tinha tirado minha paciência para prova.
— Prazer, Paulo — estendeu sua mão para me cumprimentar, parecendo mais gentil do que o seu rosto demonstrava.
— Samuel — respondi com a mesma cordialidade.
— Você é filho do Jo? — perguntou, surpreso e reconhecendo os traços do meu rosto.
— Sou sim.
— Cara, teu pai é uma figura! — disse, sorrindo. — Um grande homem — elogiou. — Faz um tempo que ele não aparece. Como ele está?
— Não muito bem — respondi, triste. Quando voltei para a sociedade, a pior notícia foi saber que o meu pai não estava muito bem. — Problemas no coração.
— Ah, é por isso que ele não aparece mais aqui para fazer a alegria da rapaziada no jogo de sinuca. Então, o que vai querer?
— Uísque sem gelo — pedi, já sentindo o peso do dia satisfatório de trabalho, apesar de Alexya.
— Saindo um uísque sem gelo — pegou um copo, despejando uma dose generosa do uísque.
— Me fala — começou. — Como é trabalhar na casa da marrenta?
— Marrenta? — olhei confuso para ele, virando todo o líquido de uma só vez na boca, fazendo a minha garganta queimar. Outra coisa que há muito tempo eu não fazia. Beber uísque.
— Alexya... — sorriu. — A filha do Joseph.
— Prefiro não falar sobre isso — falei, mostrando que não me sentia confortável falando sobre ela. Não era profissional e nem educado falar de quem paga seu salário para que você possa colocar a comida na sua mesa.
— Já entendi — disse, enquanto colocava outra dose no meu copo. — Ela já colocou seu veneno esnobe para cima de você.
— Sério... — eu o interrompi. — Prefiro não tocar nesse assunto — terminei de tomar a outra dose. — Não tenho o que dizer da família Drummond. Eles estão me dando uma oportunidade de seguir minha vida e não quero falar sobre isso. Não me leve a m*l. Obrigado por me atender — falei, me levantando para pagar a conta.
— Eu que peço desculpa — disse ele, percebendo que não era uma boa me pressionar. — Precisando de um ouvido amigo, pode contar comigo.
— Obrigado — agradeci novamente, saindo do bar logo em seguida.
Ao voltar para a mansão, eu a notei na janela. Linda, os olhos dela cruzaram com os meus, e ela praticamente me fuzilou. Linda, perfeita, atraente. Mas não era para o meu bico. Eu a vi fechar a janela com força. Fiquei novamente sem paciência. Não chegaria perto dela, pois tirando o Drummond, ela tinha outro sobrenome e esse se chamava “problema”, com certeza, e, além do mais, tinha algo contra filhos de empregados e ex-presidiários. Ou seja, eu. O melhor a fazer era continuar com meus planos, me formar para dar orgulho aos meus pais, sendo um filho melhor.
Sam
Tomei um bom banho depois de um dia exaustivo de trabalho, mas excepcionalmente hoje, meu trabalho continuaria noite adentro. Senhor Drummond tinha planejado uma festa para os seus amigos ricos e me pediu pessoalmente para servir os convidados. Particularmente, não era o melhor para esse tipo de trabalho, eu m*l conseguia cuidar do jardim, quanto mais servir convidados do nível dele. Seria um completo desastre. Com toda certeza.
Já era noite e em breve os convidados chegariam. Arrumei-me com um traje típico de garçom – paletó preto, camisa social branca, uma maldita gravata borboleta e calça preta. Segui em direção à entrada, pois por mais que eu não quisesse entrar pela porta da frente, era por lá que eu teria que passar para servir os convidados também. Quando cheguei à cozinha, a senhora Sardagna estava com mais seis ajudantes, sendo dois homens e quatro mulheres.
— Você vai ficar na entrada, Sam — ordenou.
— Mas estou vestido para servir — informei desconfortável, a gravata estava apertando mais que o normal o meu pescoço.
— Infelizmente, o rapaz que faria a parte da recepção não pôde vir — suspirou profundamente e, logo, continuou a falar.
— Olha, você é jovem e bonito, é só olhar os nomes dos convidados na lista e verificar os convites. Tudo bem para você?
— Posso ao menos tirar essa gravata? — olhei para ela, segurando a gravata borboleta que não me caia bem.
— Não — respondeu firme. Ao menos me livrei do avental.
Todos os empregados estavam usando uniformes parecidos, exceto eu, que não estava de avental. Meus pais haviam sido dispensados do trabalho, pois o meu pai não andava muito bem e minha mãe estava sempre ao seu lado.
— Agora, vá para entrada e coloque o melhor sorriso que você tem estampado nesse seu rosto.
— Certo — sai pesadamente da cozinha em direção à entrada. Maldita entrada que não saia da minha vida. Arrumei desconfortavelmente a gravata e alinhei o terno para ficar mais apresentável possível, mas não consegui. Não poderia negar, eu era bonito, mas não me sentia nem um pouco à vontade recepcionando as pessoas. Posicionei-me na entrada, colocando o melhor sorriso para recepcionar os convidados, aguardando a chegada deles.
Eu já estava há mais de duas horas em pé. Quase não sentia meus dedos dentro do sapato apertado. O calor estava me matando, e aquele terno pinicava minha pele. A noite estava mais quente que o normal. Não havia mais convidados para recepcionar, pois todos já haviam chegado. Entrei, seguindo direto para cozinha, andando apressadamente para colocar meu avental e logo depois ajudar aos outros a servir os convidados. Não queria ficar parado, queria trabalhar e mostrar serviço. Todos riam e falavam de seus negócios lucrativos, tentando superar uns aos outros em uma forma de competição i****a.
— Mais champanhe. Por favor — pediu uma mulher alta, de voz macia com um vestido vermelho decotado. Muito bonita, por sinal. Cabelo loiro preso num coque, lábios vermelhos bem desenhados e grossos, pele clara e corpo sensual. Uma loira de tirar o fôlego. Curvas generosas e uma pele impecável.
— Sim, senhora — servi sua taça sem jeito, pois nunca havia servido uma taça.
— Uhum... — murmurou satisfeita com algo, que no momento não consegui identificar. — Você até que é bem bonitinho para ser um garçom — disse, mordendo os lábios e piscando um de seus olhos para mim, tirando minha concentração. Ela tinha o rosto de uma deusa.
— Mais alguma coisa, senhora? — perguntei sem jeito, e ela sorriu percebendo meu desconforto.
— Você. Todinho, só para mim — sussurrou ao se aproximar mais, no meu ouvido. — O que acha? — o seu perfume tomou conta da minha cabeça, mesmo quando ela se afastou.
— Mais alguma coisa, senhora? — repeti a pergunta, parecendo o mais profissional possível.
— Nossa que gelo você é — falou com um tom arrastado e sensual, nem um pouco preocupada de todos estarem olhando-a se insinuar para mim. — Adoro homens fortes e principalmente durões... — passou a mão em meu ombro de modo provocante. — Ainda mais quando bonito. Tenho um fraco por homens como você.
— Já que a senhora não deseja mais nada, vou me retirar
— disse educadamente, ainda nervoso, assentindo com a cabeça de leve como via garçons em filmes após servirem os convidados.
— Sério, Clarisse? — perguntou uma voz debochada, que reconheci em seguida. Alexya. — Você sempre teve esse mau gosto dançando em suas veias, mas agora exagerou — gargalhou alto. — Dedo podre!
— Não acho que ele seja um tipo de mau gosto — mordeu os lábios novamente, olhando para mim de modo provocador, como se eu fosse um pedaço de carne. — Ele é um gato. E para ser mais sincera... — semicerrou os olhos, me olhando de cima a baixo. — Eu o achei uma delícia, e adoraria tê-lo em meus lençóis — sorriu. — Faríamos uma combinação perfeita.
— Você sabia que ele já foi preso? — disse Alexya, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo, fazendo o meu sangue gelar, meu coração parar e minha respiração sumir.
Meus olhos se voltaram para Alexya, que estava com um sorriso de satisfação estampado no rosto. Eu estava mais do que surpreso com o que ela fez. Revelar em voz alta que já fui preso? Era... era inadmissível. Eu já tinha pagado minha dívida perante a sociedade e não merecia ser julgado por ela... que fazia meu coração ficar acelerado de tanta... raiva.
Olhei para amiga dela, que ainda estava processando a informação, em choque, eu achava.
— Você não tem o direito de falar do meu passado para seus amigos — minha voz saiu mais arrastada e mais baixa que o normal. Eu estava pálido e sem reação, e todos já estavam prestando atenção em nos três.
— Eu sei que Clarisse não vai se importar em ficar com um bandido como você — com seu sorriso irônico, ela levou a taça à boca. Alexya estava me deixando irritado. Qual era a real intenção daquela garota? Qual era o problema dela comigo?
Concordo plenamente com você, Alex — retribuiu com o mesmo sorriso irônico para Alexya com os olhos amendoados, brilhando de satisfação. — Não me importo com isso. Não tenho esse preconceito s*******o que você cultiva e lhe deixa cada vez mais amarga, ou melhor, azeda como limão. Tim-Tim — assentiu ao levantar a taça com um largo sorriso.