Cap 1 - O começo
O vento frio da manhã de segunda-feira parecia cortar os corredores da Runway antes mesmo de Miranda Priestly cruzar a recepção. A tirana da moda entrou no escritório como uma tempestade silenciosa, jogando seu sobretudo de pele e a bolsa Prada sobre a mesa de Emily sem sequer diminuir o passo.
— A coleção de verão está uma piada trágica. Nigel perdeu o juízo e você, Emily, parece ter esquecido como se trabalha. — disse Miranda, a voz perigosamente baixa, o olhar afiado fixo na janela do topo do edifício. — Vocês têm até o final do dia para consertar essa catástrofe. Se o desfile não for impecável, não se deem ao trabalho de voltar amanhã. Isso é tudo.
A tensão devorou o escritório até o último minuto. Entre telefonemas histéricos e ajustes de última hora nos vestidos, Nigel e Emily operaram um milagre desesperado. O desfile não saiu perfeitamente como Miranda idealizara, mas chegou perto o suficiente para que ela apenas dispensasse a equipe com um aceno dispensável de cabeça ao fim da noite.
Em casa, contudo, a armadura de gelo ruiu.
— Bobbsies! — o tom gélido deu lugar a um tom aquecido no momento em que Caroline e Cassidy correram pelo corredor da mansão, jogando-se nos braços da mãe.
— Você se atrasou de novo! — reclamou Carol, cruzando os braços com um biquinho ensaiado.
— A mamãe sente muito, querida. O desfile de hoje exigiu demais. — sussurrou Miranda, acariciando os cabelos ruivos da filha.
Longe das câmeras, do divórcio recente e da pressão sufocante do mercado, Miranda era apenas mãe. Naquele fim de semana, disposta a ser presente, ela desligou o celular corporativo — um ato de heresia para a indústria — e levou as gêmeas para o resort privado da família. Foram dias raros de gargalhadas puras, descidas caóticas no tobogã e cabelos ensopados, onde o poder de Miranda sucumbia inteiramente aos desejos de duas garotas de onze anos.
— Mãe... Nosso aniversário de doze anos está chegando. — disse Cassy, com os olhos brilhando enquanto boiavam na piscina. — Tem uma escritora... Nós amamos os livros dela. O nosso maior sonho é que ela vá na nossa festa.
— Mandarei Emily entrar em contato com a assessoria dela. — respondeu Miranda, ajeitando os óculos de sol.
— Não! Queremos que você fale com ela. — pediu Carol, agarrando o braço da mãe. — Ninguém diz não para você.
Na segunda-feira seguinte, a rotina implacável retornou. Miranda entrou em sua sala disparando ordens a metros por segundo:
— Quero as amostras de seda até o meio-dia, Nigel na minha sala em cinco minutos e localize Andrea Sachs. Não me importo com o que precise fazer, Emily. Se encontrá-la, passe a ligação diretamente para mim. Isso é tudo.
Emily passou o dia em transe, telefonando sem parar para a editora de Andrea Sachs, enfrentando a barreira irredutível da secretária da autora. Foi apenas no fim da tarde, quando a luz alaranjada de Nova York começava a invadir a sala da diretoria, que a linha finalmente cruzou.
— Miranda... A senhorita Sachs está na linha dois. — anunciou Emily, prendendo a respiração.
Miranda ergueu o queixo, ajustando o fone com elegância impecável.
— Boa noite, senhorita Sachs.
— Boa noite, senhora Priestly. — a voz do outro lado soou aveludada, sem qualquer traço do tremor habitual que as pessoas demonstravam ao falar com Miranda. — Para a sua secretária ter implorado pelo meu contato o dia inteiro, imagino que a Runway esteja pegando fogo.
— Vamos direto ao ponto. Daqui a dois meses minhas filhas completam doze anos e, por algum motivo que me escapa, elas devoram tudo o que você escreve. Caroline e Cassidy exigiram a sua presença na festa.
Houve uma breve pausa na linha, seguida por um riso baixo e genuíno de Andrea.
— Fico lisonjeada pelo carinho das suas filhas, senhora Priestly. Mas a minha agenda para os próximos meses é um caos absoluto. Preciso checar minhas datas de lançamento antes de prometer qualquer coisa. Posso pedir para minha equipe responder no fim da semana?
Miranda soltou um ar discreto pelo nariz, o olhar fixo no horizonte de Manhattan.
— Faça isso, senhorita Sachs. Leve todo o tempo do mundo... Afinal, o meu tempo é puramente glacial.
Andrea soltou uma gargalhada aberta do outro lado da linha, pegando a magnata de surpresa.
— Sabe, quando minha secretária disse que a própria Miranda Priestly queria falar comigo, achei que fosse exagero. Mas ouvir você pessoalmente só confirma que a sua fama de terrível é absolutamente merecida.
Miranda ergueu uma sobrancelha, um brilho de curiosidade desafiadora surgindo em seus olhos. Ninguém falava com ela daquele jeito.
— Pense com carinho, senhorita Sachs. Aguardo sua resposta em breve. Isso é tudo. — concluiu Miranda, desligando o telefone com um clique seco.
Do outro lado da cidade, Andrea encarou o aparelho mudo, ainda sorrindo. Ela tinha uma viagem de trabalho agendada para a mesma época, mas encarar o ícone mais temido da moda em seu próprio terreno parecia, de repente, um desafio irresistível.
A semana passou voando e Miranda já estava impaciente, pois Andrea ainda havia falando nada e nem entrado em contato para falar. Miranda adora essas coisas, se pudesse mandar Andrea para o raio que o parta, ela mandaria, mas as gêmeas perguntam todos os dias se sua mãe conseguiu. O prazo que Andrea deu para Miranda acabou, e a empresária deduziu que a mesma não iria aceitar.
— Diga Emily! - Miranda atendeu impaciente.
— Andrea! - antes mesmo de Emily terminar, Miranda falou.
— Passe a ligação! - mandou.
— Não, ela está aqui e quer vê-la! - Miranda ficou muito surpresa, por essa ela não esperava.
— Mande-a entrar e cancele o que eu tiver que fazer agora, não quero ser interrompida, isso é tudo! - Miranda falou.
Emily desligou e pediu para Andrea entrar, a morena se deslumbrou quando entrou na sala da magnata, Miranda cumprimentou a mesma e pediu para sentar-se.