II-1

2013 Words
IISegunda-feira, 17 de Agosto de 2020 «São 7:04, está na hora de levantar-se» repete o clipe-áudio que gravei no Tablet. Ainda sonolento, desce as escadas e preparo o pequeno-almoço. Como todas as manhãs, café com leite, pão com presunto e duas fatias toradas com marmelada de laranja. Gosto de me manter “leve”. Vivo num pequeno apartamento em pleno centro da cidade: é famosa em todo mundo pelo Palio, mas Siena é fascinante por outras mil peculiaridades, por descobrir lentamente. E depois para mim é confortabilíssimo: cinco minutos a pé e já estou ao trabalho. Mal entro na filial, Vito, o meu colega no caixa, dá-me o bem-vindo: «Vejo-te meditabundo esta manhã. Morreu o teu gato?» «Não te sirvas de Pallino para formular as tuas gracinhas: é a única pessoa… animal, resumidamente o único que foi-me fiel… sempre.» «Então são desgostos de amor?» Trabalhamos lado a lado já há a um bom tempo e Vito não mudou, ou melhor, se calhar, piorou. No perfil de f*******: evidenciou uma única característica: “solteiro”. Escrever assim e um convite para dizer: “mulheres acima do 40, acima dos 50 e assim por diante, avancem”. Só que nenhuma avançou. Continua a viver com os progenitores, que terão enfim noventa anos, mas tratam-no como uma criança. «Vais contar-me na pausa para o almoço. Hoje trago lasanhas. Faço-te degustar, embora, esquentadas no micro-ondas, não são boas como acabadas de serem feitas.» «Cozinha de manhã muito cedo a tua mãe?» «Inevitavelmente: para me proporcionar o almoço fresco.» No fundo Vito é simpático, salvo quando lhe possuem os seus momentos de ira: fica com o pescoço empolado, enquanto o rosto e a cabeça rapada ruborizam-se como o peito de um pintarroxo em brasa. «Fizeste os telefonemas na lista?» procura saber Marco, o incumbido dos empréstimos e Responsável da Linha de Clientes Privados. Marco é alto e magro, muito alto e magro. Ele estudou ciências económicas e bancárias e é um dos poucos colegas que na vida queria ser precisamente bancário. «Não ainda, mas tenho a lista aqui» respondo. «Avante, avante, que ainda vais a tempo.» Dou uma olhada à lista e me ocorre uma náusea. Um programa cruzou uma série de dados e extrapolado nomes dos clientes que “deveriam” estar interessados ao nosso novo cartão de crédito. «Mas quanto a ti,» dirijo-me ao Vito, «se um já tem um cartão, por que deveria vir à filial, restitui-lo, solicitar um novo e aguardar um mês pelo mesmo para poder utilizá-lo?» «É fantástico: funciona on-line» Insta o Marco. «Mesmo aquele anterior» Intervém o Vito. «Claro, mas este tem maior potencialidade» insiste ele. Reparo-o incrédulo. «Tipo?» «Neste momento não me lembro, seria preciso ler o catálogo do produto.» Finalmente ao Marco vem à memória, uma característica “fundamental”: «Permite ao cliente escolher o código secreto por utilizar». «Claramente a tecnologia está a dar passos gigantescos», ironizo. «Não te esqueças destes telefonemas para propor o novo cartão. Ânimo porque temos de fazer a faturação» conclui o Responsável pelos Clientes, antes de distanciar-se em direção à máquina de café. Pego na mão a lista: não farei nenhum telefonema! Não tenho vontade de ligar para a gente para lhes aprontar mais um outro produto inovador, no fim de contas idêntico àquele que já têm. «Dizes que tentaste, mas encontraste ocupado» dá a sua sugestão o Vito. «Como faço para dizer que todos os trinta…» A frase estacou na garganta quando uma voz diz simplesmente uma palavra: «Olá». «Chiara!» «Se Maomé não vai à montanha...» Revê-la é um baque no coração. Fixo-a apalermada: os cabelos compridos loiros, os olhos claros, a pele ainda lisa como porcelana. Os anos passam para todos, mas se há dez anos era linda, agora… o é mais ainda. «Não me saúdas?» Ela debruça-se sobre o balcão, como quem está para me abraçar. Levanto-me, estendo-lhe a mão. «Como somos formais.» «Não me apresentas a tua amiga?» Diz o Vito levantando-se da sua cadeira giratória. A Chiara não é alta, mas ele, mesmo de pé, é mais baixo do que ela. Ela estende a mão. «Faço-o sozinha. Chamo-me Chiara, sou uma velha amiga de Francesco.» «Prazer. Eu sou Vito, tesoureiro-chefe.» Ele aperta o botão das calças; normalmente deixa-o aberto, escondido pela camisa que a mantem fora das calças. Depois pergunta: «como se conheceram?» «Encontramo-nos durante uma viagem», procuro ser breve. «Ah, sem dúvida, e onde?» Pergunta possuído pela curiosidade o meu colega. «Cruzamo-nos no aeroporto», vem em socorro ela. «Perfeito. Para ir aonde?» «Queres um café Chiara? Assim falamos mais tranquilamente.» «Sim. Podes sair?» Vito não pretende renunciar a conhecer maiores pormenores. «Temos também uma máquina de café na filial.» «Vamos até ao bar. O café aqui sabe de velhas práticas ao interregno.» Saio por detrás do balcão e começo a mostrar-lhe o caminho. «Simpático o teu colega», ela comenta assim que estiveram fora do banco. «Como o pico de um ouriço-do-mar m*l coloca o pé no mar.» Encaminhamo-nos para o Caffè Nannini [Café Nannini]. Enquanto percorríamos a rua principal ela toca de leve com a sua mão a minha. O instinto seria de apertá-la, mas rechaço a mão. «Um café normal para mim e um garoto quente para ele. Lembro-me bem?» Pôs-se a sorrir Chiara. «E a habitual colherinha de mel não vais querer?» pergunta a empregada do café Gianna, que conhece os meus gostos. Sentamo-nos numa mesinha no fundo da sala. Teria mil perguntas, começo, não sei o porquê, daquela que menos me interessa. «Como está o nosso velho amigo Alfio?» Ela baixa a cabeça. «Aconteceu uma tragédia.» «Não me digas que morreu. Aqueles como ele não morrem de forma alguma.» «Na verdade sim, mas falava de…» A Chiara congela, explora por completo o bar com os olhos, «de sua santidade». «Não acredito.» Ela faz uma meia careta. «Pois é mesmo assim.» «Por fim deixam-nos não só os melhores, mas também os piores», ironizo. «Ocorreu poucas noites atrás... Em Lisboa. Estava com ele mesmo a poucos minutos antes. Atirou-se do seu quarto no terceiro piso.» “Fez uma coisa boa na vida”, detenho-me de exprimir esta reflexão. A partir do seu olhar triste, intuo que não está a inventar nada. «É verdade que morreu?» «UMA parte dele está sempre comigo» Diz. «Então não desapareceu seriamente?» Ela repara-me com doçura misturada com a amargura. «Não percebes, não percebeste nada por acaso!» Eu já ouvi esta frase muitas vezes repetir pelas mulheres, pois sei lá o porquê. «Os elogios, estimada Chiara, nunca foram o teu forte. Agora devo regressar.» Estou para levantar-me, ela achega-se e coloca uma mão sobre o meu ombro. «Espera, preciso da tua ajuda.» Os seus olhos azuis fixam-me com intensidade. Não consigo responder. Sinto aquele perfume de especiarias orientais que tinha provocado em mim uma profunda impressão a primeira vez. Os nossos rostos estão não mais que trinta centímetros de distância. «Devemos continuar com os estudos que estava a levar a cabo sua santidade.» Ela tem sempre a capacidade de estragar cada momento poético. «O que estava a pesquisar agora?», pergunto. «Não aqui, não agora.» «Então façamos desta maneira: reapareças dentro de outros dez anos e conta-me tudo.» «Não podemos passar além daquilo que aconteceu? Já prescreveu», afirma ela. Devo ter lido numa pose uma frase que assenta que nem uma luva. «Nel libro della vita bisogna avere la forza di voltare pa- gina, ma allo stesso tempo la saggezza di non scordarsi mai quello che si è letto [No livro da vida é preciso ter a força de virar a página, mas ao mesmo tempo a sabedoria para não esquecer de forma alguma aquilo que se leu.]» Deixo enaltecer a citação, depois lhe pergunto: «Como fizeste para me encontrar? transferiram-me para Siena há pouco tempo. Tens seguidores também no meu banco?» Ela pôs-se a sorrir. «Os nossos irmãos estão por toda a parte, mas fui eu a seguir-te, de longe, nestes anos… sabes o que nós perdemos?» “Momentos felizes e outros possivelmente tristes” Penso silenciosamente. Ela referia-se a uma outra coisa ou qualquer que seja assim diz: «Uma descoberta que poderia mudar a história narrada por cristãos». «O bosão de Higgs, a “Partícula de Deus”?». Procuro saber. «Não, sua santidade estava a um passo de… devemos encontrar aquilo que estava a pesquisar.» Fico nervoso: ela apresenta-se depois de anos e me diz aquilo que “devemos” fazer. «Vês-me que nem um bonifrate que deves manobrar a teu bel-prazer?» A Chiara parece que não está a ouvir: «Nos vemos esta noite no meu hotel? Devo apresentar-te uma pessoa». «Não tenho nenhuma vontade de me encontrar cara a cara com um da vossa seita». «Não é uma seita! O Hermetic Order of the Golden Dawn é uma organização com uma história nobre e prestigiosa.» «Mesmo assim não tenho nenhum interesse de conhecer um outro vosso emissário.» «Ele não faz parte, no mínimo não ainda» ela faz o ponto. «Ele é um homem? Ora pois. Não é preciso que mo apresentes.» «Deves conhecê-lo. Aguardo por ti esta noite.» Dito isto, paga os cafés e pisga-se. Volto ao filial meditabundo. Não deveria ir, depois de tudo o que sofri no passado por ela, por isso hoje, quando voltei a vê-la, foi como aquela vez no aeroporto de Fiumicino. Ela estava aborrecida, concentrada na mala perdida. Eu pensava apenas como era sensual, mesmo com aquele ar amuado que lhe desenhava uma covinha nas bochechas. «Então, o que aprontaste com aquela amiga?» O Vito pisca o olho. É óbvio: tenciona saber tudo. Normalmente ninguém se apresenta no banco à minha procura, muito menos uma mulher. «O que queres que tenha feito? Tomamos um café e basta.» «Foram tomá-lo diretamente em Guatemala? Entretanto servi sete clientes.» «Falamos dos velhos tempos e...» «Porém no passado houve algo entre vocês?» O colega do caixa não me deixa terminar uma frase. «Vi-o de como a reparava.» Reflito antes de responder: «Se houve, ela não se deu conta». «Se não se deu conta, propriamente complicaste a situação.» «Hoje não há letras de câmbio por protestar?» «UMA sim, mas aguardo o final do dia antes de ligar para o notário.» Eu acabei conseguindo por fim mudar de discurso. Não quero contar outra coisa, e depois se calhar aquilo que acreditava de que estava sepultado há anos… Regressado ao meu pequeno apartamento, ponho-me a sentar num degrau das escadas de madeira que levam até ao desvão. Mudei muitas habitações no decurso de anos, mas esta não a trocaria em nenhuma outra ocasião, a não ser que não consiga permitir-me uma casa rústica com piscina no ponto mais alto de uma colina. Sei por si só: ficarei aqui. O pensamento volta à Chiara: “O que vais precisar de mim? E eu dela?» De um momento para o outro dou-me conta: “Convidou-me para o seu hotel, mas sem me dizer qual seja”. Enquanto consumo algum salmão defumado, vejo o correio eletrónico e w******p. Nenhuma mensagem da sua parte. Em compensação no Bate-papo de grupo dos colegas da filial fez furor apenas um único tema: Quem é a misteriosa mulher com a qual Francesco foi tomar o pequeno-almoço? Furto-me aos comentários de Vito, reporto apenas a hipótese mais conceituada, aquela de Marco: uma Ex paixão permanecida engravidada no tempo e que agora quer os alimentos para a criança! Por fim controlo o Messenger. Mensagens existem, mas só de amigos com os modernos “convites anónimos de Santo António para seguir a tal prática religiosa”: Cuidado com o Fulano ou Beltrano. Tem no perfil a foto de um cão de corrida (“que raça de cão é?»). É um hacker, não aceite a sua amizade, senão… São 21:30 e chega uma mensagem de um desconhecido. Faz-se chamar Obscura alba. Oi. Estou no hotel Tre Donzelle [Três Donzelas], aqui no centro da cidade. Estou à tua espera. Pesquiso o perfil de Obscura alba. Existem apenas duas fotos: um desenho de uma mulher stile fantasy e um símbolo oculto. Nenhum indício sobre a profissão, cidade ou relação sentimental.
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