SAYURI
Eu tinha acabado de fazer 14 anos há duas semanas.
Quatorze.
Já não era mais tão criança, mas também não era gente grande.
Pelo menos era o que eu achava.
Naquele dia eu cheguei da escola mais cedo porque a professora de matemática faltou. A casa tava estranhamente quieta. Nada de funk tocando alto, nada da minha mãe gritando no celular, nada de cheiro de cigarro e pedra queimada.
Só silêncio.
Um silêncio que me deu um frio r**m na barriga logo que abri a porta e tirei o tênis.
Subi correndo pro segundo andar.
O quarto dela tava aberto, gaveta jogada no chão, roupas espalhadas, o armário escancarado. A bolsa que ela usava pra tudo não tava em cima da cadeira. Fui ao meu quarto pra ver se ela deixou algum bilhete, ou até mesmo se ela estava lá arrumando as minhas coisas também. Meu ursinho que meu pai me deu no último natal que tivemos juntos, não estava em cima da minha cama. O notebook que eu usava pra fazer trabalho da escola também sumiu. Até meu carregador de celular que ficava na tomada ao lado da minha cama tinha desaparecido.
Eu desci as escadas voando, coração na boca.
— Mãe?! Mãe!!!
Nada.
Entrei na cozinha.
O Jogador tava lá, de costas, enchendo uma garrafa d’água na pia. Só de short de tactel cinza, sem camisa, tatuagens brilhando de suor. Ele virou o rosto quando me ouviu.
— Que foi, menina? Tá gritando por quê?
— Cadê a minha mãe? — minha voz já tava tremendo.
Ele colocou a garrafa na mesa, limpou a boca com as costas da mão e me olhou sério.
— Sumiu. Vazou daqui com um cara do asfalto ontem à noite. O meu vapô viu ela saindo de moto com ele lá embaixo.
Eu senti o chão sumir.
Minha mãe sumiu.
Me deixou aqui, sozinha.
Como se eu fosse um saco de lixo que ela podia largar na esquina quando quisesse.
— Ela… ela levou minhas coisas também… — eu falei, e aí as lágrimas vieram de uma vez. Grossas, quentes, escorrendo sem eu conseguir segurar. — Ela levou meu notebook… meu carregador… até meu ursinho, eu procurei e não achei…
Eu desabei ali mesmo, sentada no chão da cozinha, abraçando os joelhos, chorando feito criança pequena.
Chorando por tudo.
Pelo meu pai que morreu, pela minha mãe que nunca foi mãe de verdade, por estar sozinha de novo.
Ele ficou parado me olhando um tempo. Parecia não saber o que fazer. Depois soltou um suspiro pesado, daqueles que saem do fundo da alma, e se agachou na minha frente.
— Para de chorar — a voz grossa, mas não gritando, porém sem sentimento algum, falou como sempre fala quando ele dirige a palavra pra mim.
Eu não conseguia parar.
Era como se tivesse aberto a torneira e agora não fechava mais.
Ele bufou, passou a mão na cabeça raspada e falou mais baixo:
— Sayuri. Para.
Eu funguei, enxugando o rosto na manga da blusa do colégio.
— Eu não tenho mais ninguém… — minha voz saiu rouca, quebrada. — Ela me largou…
Ele ficou quieto uns segundos.
Depois esticou a mão enorme e segurou meu braço, me levantando do chão com uma força que eu nem senti meu corpo fazer esforço, só ele. Me colocou de pé na frente dele.
— Escuta aqui — ele falou, olhando direto nos meus olhos. — Ela não volta mais. Ponto final. Tu fica aqui.
Eu pisquei, confusa.
— Ficar… aqui?
— Sim, tu fica. Debaixo do meu teto, sob minha responsabilidade. Aqui ninguém vai te botar pra fora. Ninguém vai te bater. Ninguém vai te mandar embora. Entendeu?
Eu só consegui balançar a cabeça, ainda chorando baixinho.
Ele soltou meu braço.
Parecia que ia sair, mas eu segurei o braço dele, desesperada.
— Eu… eu não quero ficar sozinha… por favor…
Ele olhou pra mim, pra minha mão agarrando ele, depois pra minha cara toda molhada de lágrimas. Suspirou de novo, como se eu fosse o maior problema do mundo dele naquele momento.
— Não vai ficar sozinha. Eu tô aqui.
Foi a primeira vez que ele falou algo que parecia… humano.
Eu enxuguei o rosto com a mão e perguntei, quase sem pensar:
— Qual é o seu nome mesmo? Todo mundo te chama de Jogador… mas você tem nome, né?
Ele ergueu a sobrancelha, surpreso que eu tivesse coragem de perguntar aquilo.
— Ariel — respondeu, seco.
Eu dei uma risadinha, sem querer.
Saiu do nada.
— Ariel? Tipo… a sereia? A princesa?
Ele me olhou feio, mas aí… aí aconteceu uma coisa que eu nunca imaginei.
Ele sorriu.
Um sorriso pequeno, de canto de boca, mas sorriu. Os dentes brancos apareceram, os olhos ficaram menos duros por meio segundo. E eu senti meu coração dar um pulo esquisito.
— Não enche, pequena — ele falou, mas sem raiva. — Ninguém me chama assim desde que eu era pivete.
Eu mordi o lábio, ainda fungando, e arrisquei:
— Então… posso te chamar de pai?
O sorriso sumiu na hora. Ele franziu a testa, o maxilar travou. Ficou me encarando como se eu tivesse falado a maior loucura do mundo.
Eu me arrependi na hora. Abaixei a cabeça, morrendo de vergonha.
— Desculpa… foi i****a… esquece…
Silêncio.
Depois de um tempo que pareceu eterno, ele soltou um “tsc” baixo e respondeu:
— Pode. Mas só aqui dentro de casa. Lá fora continua Jogador. Entendeu?
Eu levantei o olho rápido, sem acreditar.
— Sério?
Ele fez que sim com a cabeça, sério.
— Sério.
Eu senti um calor subir no peito.
Um calor bom com amor.
Não era amor de pai de comercial de dia dos pais. Era outra coisa. Era segurança. Era alguém dizendo que eu tinha um lugar. Pela primeira vez em anos, eu tinha um lugar.
Ele se afastou um passo, coçou a nuca, parecendo meio sem graça.
— Vai tomar banho, tá fedendo a chulé. — ele olhou pros meus pés, só de meia e realmente a adolescência tem sido c***l comigo. — Depois eu mando um vapô comprar um notebook novo pra você. E um ursinho, se quiser.
Eu ri de novo, dessa vez sem tristeza.
— Eu já tenho 14 anos… não preciso mais de um ursinho…
Ele deu de ombros.
— Então compra... sei lá. O que você quiser.
Eu fiquei olhando ele sair da cozinha, as costas largas, as tatuagens se mexendo enquanto ele andava. E aí eu percebi uma coisa que mudou tudo.
Minha mãe nunca tinha me dado segurança. Nunca tinha me dado teto sem gritar. Nunca tinha me dado um “fica aqui” de verdade.
Ele deu.
Com três palavras secas, ele deu.
E foi naquele dia, com 14 anos recém-completos, de meias no chão da cozinha ainda com o rosto inchado de tanto chorar, que eu percebi de verdade:
Ele era tudo o que minha mãe nunca conseguiu ser desde que meu pai faleceu.
E, pela primeira vez na vida, eu não me sentia mais sozinha, eu tinha o Ariel.
ADICIONE NA BIBLIOTECA
COMENTE
VOTE NO BILHETE LUNAR
INSTA: @crisfer_autora